Segundo informações divulgadas pelo portal da CNN Brasil, o comandante do Exército Brasileiro, general Tomás Paiva, assinou portaria que aprova a política de transformação da força terrestre, documento que prevê mudanças no desenho institucional, nas capacidades, na doutrina e na formação dos militares. Pelo menos 20% das tropas, o equivalente a cinco das 25 brigadas operativas, deverão manter elevado grau de prontidão para resposta imediata a ameaças externas. O plano inclui novo mapeamento de riscos à defesa nacional que deve ficar pronto nas próximas semanas e ser submetido ao Alto Comando provavelmente em junho.
O Exército Brasileiro está redesenhando toda a sua estrutura militar sem alarde, e o documento que orienta essa transformação começa com um diagnóstico do cenário geopolítico mundial que classifica como “imperativo” ao Brasil acompanhar a tendência global de ampliação dos investimentos em defesa. A portaria assinada pelo comandante Tomás Paiva aponta para mudanças profundas no modo como a força terrestre se organiza, treina e se prepara para os conflitos contemporâneos e para as guerras do futuro, incluindo a proliferação de drones, sistemas não tripulados e fogos de precisão.
O cenário que justifica a urgência é alarmante. Mais de 30 países tiveram conflitos em seus territórios em 2024, abrangendo 45% da população global, segundo estudo do FMI. Cerca de 1,9 milhão de vidas foram perdidas na última década e meia, e há um rearmamento em curso que resulta em crescente endividamento dos países para arcar com custos de defesa. Os membros da Otan assumiram compromisso de elevar de 2% para 5% do PIB seus investimentos em defesa, e o Exército Brasileiro reconhece que os R$ 30 bilhões tirados do arcabouço fiscal para modernização das Forças Armadas em seis anos são insuficientes.
As cinco brigadas que ficarão em prontidão permanente
O projeto de transformação estabelece que pelo menos 20% das tropas deverão manter “elevado grau” de prontidão para eventual resposta imediata a ameaças externas. Das 25 brigadas atualmente operativas, cinco terão essa característica: a Brigada Paraquedista no Rio de Janeiro, a Brigada Aeromóvel em Caçapava (SP), a Brigada de Infantaria de Selva em Marabá (PA), a Brigada de Infantaria Mecanizada em Campinas (SP) e a Brigada de Cavalaria Blindada em Ponta Grossa (PR).
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O conceito é o que os militares chamam de “dissuasão assimétrica”. Na prática, sabendo que o Brasil pode enfrentar rivais mais bem equipados, a estratégia é manter efetivos capazes de se deslocar para qualquer área do país e dar uma resposta inicial que anule ou minimize as ameaças antes que o inimigo consolide posição. A distribuição geográfica das cinco brigadas cobre desde a Amazônia até o Sul, garantindo capacidade de projeção de força em qualquer ponto do território nacional.
Os quatro tipos de força que o Exército terá
O novo desenho institucional reorganiza o Exército Brasileiro em quatro categorias de emprego dos efetivos. As forças de emprego imediato ficam próximas às fronteiras e áreas de potencial crise para resposta inicial. As forças de emprego de prontidão são as cinco brigadas aptas a atuar em qualquer parte do território com poder de combate ofensivo.
As forças de emprego continuado são fundamentais para conflitos prolongados e de larga escala, responsáveis pela defesa territorial, formação da reserva mobilizável e apoio ao Estado. As forças de emprego no multidomínio representam a inovação mais significativa, dotadas de capacidades para operar em múltiplos domínios simultaneamente, incluindo cibernético, espacial e informacional, integrando a Força Terrestre Componente ou o Comando Conjunto. Essa última categoria reflete a evolução dos conflitos modernos, onde a guerra acontece em dimensões que vão muito além do campo de batalha físico.
A crise de munições e a base industrial de defesa
O documento reconhece que não basta ter mais dinheiro: “A atual demanda global por materiais de emprego militar supera a capacidade produtiva existente.” O Exército Brasileiro já sente essa realidade ao enfrentar dificuldades para renovar o estoque de munições no mercado internacional, onde a demanda está tão aquecida pelas guerras na Ucrânia e no Oriente Médio que fornecedores tradicionais não conseguem atender todos os compradores.
A solução apontada é o “fortalecimento da Base Industrial de Defesa“, assegurando capacidades críticas de produção nacional que protejam o Brasil contra a dependência de fornecedores estrangeiros. Se o país não consegue comprar munição no mercado internacional quando precisa, a única alternativa é fabricar internamente, o que exige investimentos em fábricas, tecnologia e mão de obra especializada que o Brasil ainda não possui em escala suficiente.
Drones, sensores e a guerra tecnológica do futuro
O diagnóstico da política de transformação identifica que os conflitos contemporâneos são marcados pela “aceleração exponencial da inovação tecnológica” e pela “proliferação de sensores, sistemas não tripulados e fogos de precisão”. A guerra na Ucrânia demonstrou que drones baratos podem destruir tanques de milhões de dólares, e o Exército Brasileiro reconhece que precisa se adaptar a essa nova realidade antes de ser surpreendido.
A formação dos militares também será reformulada para incluir capacitação no emprego de tecnologias “emergentes e disruptivas”, termo que abrange desde inteligência artificial aplicada ao campo de batalha até sistemas autônomos de vigilância e ataque. O Exército que entra em um conflito futuro sem dominar essas tecnologias será derrotado independentemente do tamanho do seu efetivo, e o documento deixa claro que a transformação é condição de sobrevivência institucional.
Os recursos naturais da América do Sul como alvo estratégico
O documento destaca dois fatores que tornam a defesa do Brasil particularmente desafiadora. O subcontinente sul-americano possui abundância de recursos naturais altamente visados por potências estrangeiras, desde a água da Amazônia até o lítio dos Andes, e essa riqueza ganha importância estratégica em um mundo multipolar onde grandes potências competem por acesso a matérias-primas.
O segundo fator é a expansão e sofisticação do crime organizado transnacional, que impõe desafios crescentes à soberania e à governança na região. O Exército Brasileiro precisa se preparar para ameaças que vão desde invasões convencionais até operações híbridas que combinam narcotráfico, ciberataques e desinformação em um mesmo teatro de operações. O documento conclui que “a efetividade no combate está diretamente associada à superioridade de informações, à letalidade, à sustentação, à proteção e à mobilidade”.
Você acha que o Brasil está se preparando rápido o suficiente para as ameaças do futuro ou deveria investir muito mais em defesa? Conte nos comentários o que pensa sobre o Exército manter 20% das tropas em prontidão permanente e se acredita que o país está vulnerável.

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