Estudo em pré-publicação relata a extração de sequências do cromossomo Y a partir de um desenho renascentista atribuído a Leonardo da Vinci, comparadas com DNA de uma carta familiar do século XV, levantando novas possibilidades e limites científicos para autenticação de obras históricas
O DNA de Leonardo da Vinci pode estar presente em uma de suas obras de arte, segundo cientistas que afirmam ter extraído material genético de um desenho atribuído ao período do Renascimento, abrindo novas possibilidades para autenticação de trabalhos históricos e reconstrução genética do artista.
O vestígio de DNA foi identificado em um esboço a giz vermelho conhecido como “Criança Sagrada”, atribuído por alguns especialistas a Leonardo da Vinci. Segundo os pesquisadores, o material genético extraído do desenho apresenta semelhanças com o DNA recuperado de uma carta escrita na década de 1400 por Frosino di ser Giovanni da Vinci, parente distante do artista.
As descobertas foram publicadas na terça-feira, 6 de janeiro, em um artigo disponibilizado no banco de dados de pré-impressão bioRxiv, o que significa que os resultados ainda não passaram por revisão por pares, etapa fundamental no processo científico.
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Vestígios genéticos e ligação com a Toscana
De acordo com o estudo, tanto o desenho quanto a carta histórica contêm sequências do cromossomo Y que correspondem a um mesmo haplogrupo genético. Essa linhagem apresenta um ancestral comum associado à região da Toscana, local de nascimento de Leonardo da Vinci.
Os cientistas explicam que o cromossomo Y é transmitido de forma quase inalterada de pai para filho, característica que o torna especialmente útil para rastrear linhagens masculinas ao longo de várias gerações. Por esse motivo, a recuperação dessas sequências é considerada um ponto de partida relevante para reconstruir o DNA do artista.
Charlie Lee, geneticista que dirige o Jackson Laboratory for Genomic Medicine, em Connecticut, e que não participou da pesquisa, afirmou à revista Science que a identificação do cromossomo Y representa um começo promissor para estudos genéticos envolvendo Leonardo da Vinci.
Dúvidas sobre autoria do desenho analisado
Apesar do avanço técnico, especialistas alertam para incertezas importantes. Alguns historiadores da arte questionam se o esboço “Criança Sagrada” foi realmente desenhado por Leonardo da Vinci ou se teria sido produzido por um de seus alunos.
Segundo Lee, trata-se de “uma questão de sorte” determinar se o DNA encontrado pertence ao próprio Leonardo. O material genético identificado pode ser de um aprendiz, de um assistente do ateliê ou mesmo de curadores que manusearam o desenho ao longo dos séculos e que também tinham origem toscana.
Essa incerteza limita o grau de confiança na atribuição direta do DNA ao polímata renascentista, ainda que as sequências encontradas sejam compatíveis com a linhagem familiar documentada em registros históricos.
Objetivo de reconstruir o DNA do artista
Os pesquisadores envolvidos no estudo buscam reconstruir o DNA de Leonardo da Vinci com o objetivo de auxiliar na autenticação de obras cuja autoria é debatida. A análise genética poderia se tornar uma ferramenta adicional para confirmar a origem de desenhos e manuscritos atribuídos ao artista.
Alguns especialistas também sugerem que o DNA poderia fornecer pistas biológicas sobre as habilidades excepcionais de Leonardo, incluindo capacidades artísticas e características físicas específicas, como uma possível visão acima da média.
No entanto, os próprios autores do estudo reconhecem que essas hipóteses enfrentam limitações técnicas e éticas, além da escassez de material genético confiável diretamente associado ao artista.
Obstáculos históricos e arqueológicos
Um dos principais entraves para a pesquisa é a condição do túmulo de Leonardo da Vinci na França. O local foi parcialmente destruído durante a Revolução Francesa, e os restos mortais do artista teriam sido perdidos ou misturados com outros durante a transferência para um novo sepultamento na Capela de Saint-Hubert, em Amboise.
Embora a tumba atual possa conter ossos potencialmente ricos em DNA, os cientistas não têm permissão para sequenciar esse material até que exista uma amostra comparativa confiável obtida em outro local, o que impede análises diretas.
Essa restrição forçou os pesquisadores a buscar alternativas, como a extração de DNA de obras de arte, um processo tecnicamente complexo e sujeito a contaminações acumuladas ao longo de séculos.
Limitações das obras disponíveis
Nem todas as obras atribuídas a Leonardo da Vinci são adequadas para análises genéticas. Algumas são inacessíveis, enquanto outras não apresentam vestígios de DNA humano detectável, como o desenho “Estudo das Patas Dianteiras de um Cavalo”.
Até o momento, “Criança Sagrada” é o único desenho atribuído ao artista que forneceu DNA humano. Ainda assim, sua autoria é contestada, o que reforça a cautela na interpretação dos resultados obtidos.
Outro fator complicador é a ausência de restos mortais conhecidos da mãe de Leonardo, Caterina di Meo Lippi, que está enterrada em local desconhecido. Caso encontrados, esses restos poderiam permitir comparações de DNA mitocondrial, transmitido de mãe para filho e geralmente mais abundante em objetos antigos.
Restrições a túmulos e ausência de descendentes
Os cientistas também tiveram acesso negado ao túmulo do pai de Leonardo da Vinci, localizado em Florença. Esse local poderia fornecer DNA do cromossomo Y compatível com o material encontrado no desenho analisado.
Além disso, Leonardo da Vinci não possui descendentes diretos conhecidos, pois nunca se casou nem teve filhos, o que elimina uma das formas mais simples de comparação genética.
Diante dessas limitações, os pesquisadores concentram esforços na identificação de outros parentes masculinos do artista, cujas linhagens possam fornecer material genético comparável ao extraído das obras.
Análise de ossos, cabelo e documentos históricos
Uma das estratégias em andamento envolve a análise de três ossos recuperados de um jazigo familiar na Itália, onde está enterrado o avô de Leonardo, Antonio da Vinci. Paralelamente, estão sendo coletadas amostras de DNA de descendentes vivos conhecidos da família.
As equipes também estão sequenciando o DNA de uma mecha de cabelo escavada em 1863, em Amboise, que pode ter pertencido à barba de Leonardo da Vinci, segundo informações divulgadas pela revista Science.
Além disso, pesquisadores procuram cartas e documentos escritos por parentes do sexo masculino que possam ter preservado DNA de seus autores, como a carta de Frosino di ser Giovanni da Vinci utilizada no estudo atual.
Comparação genética e haplogrupo identificado
Para a pesquisa, os cientistas compararam o DNA extraído da carta histórica com cerca de 90.000 marcadores genéticos conhecidos, utilizados para classificar sequências do cromossomo Y em linhagens chamadas haplogrupos.
O material genético presente tanto na carta quanto no esboço “Menino Santo” foi classificado no haplogrupo E1b1b, ao qual Leonardo da Vinci e sua família extensa podem ter pertencido, segundo os autores.
O DNA do desenho foi obtido por meio de um procedimento delicado, no qual a superfície do papel foi esfregada cuidadosamente com um cotonete, técnica considerada minimamente invasiva.
Avaliação de especialistas e próximos passos
Especialistas ouvidos pela revista Science afirmaram que o artigo em pré-publicação é de alta qualidade e emprega materiais e métodos considerados de ponta para chegar às conclusões apresentadas.
S. Blair Hedges, professor e biólogo evolucionista da Temple University, na Pensilvânia, e que não participou do estudo, descreveu o trabalho como excelente em sua abordagem metodológica.
Os autores agora trabalham na integração das diferentes pistas disponíveis, incluindo a mecha de cabelo, possíveis evidências diretas do túmulo e, principalmente, manuscritos e desenhos que comprovadamente foram escritos por Leonardo da Vinci.
Perspectivas para novas autorizações
Os cientistas esperam que os resultados do estudo ajudem a convencer autoridades e arquivistas a autorizar a coleta de amostras genéticas de outras obras atribuídas a Leonardo da Vinci.
Entre os exemplos citados está o “Codex Leicester”, um caderno de anotações de 72 páginas que contém uma impressão digital considerada quase certamente do artista, o que o torna um forte candidato para futuras análises.
Segundo Domenico Laurenza, historiador de arte da Universidade de Cagliari, a ampliação do acesso a esse tipo de material pode representar um avanço decisivo na tentativa de reconstruir o DNA de Leonardo da Vinci e esclarecer questões antigas sobre a autoria de suas obras.

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