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Um megaprojeto ambiental iniciado nos anos 1970 já soma milhares de quilômetros no norte da China, promete conter desertos gigantes e dividir especialistas sobre se plantar bilhões de árvores é mesmo suficiente para frear a desertificação

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 12/12/2025 às 18:22
Combater desertos com árvores parece lógico, mas um gigantesco projeto florestal no norte da China revela como clima, solo, água e engenharia ambiental tornam essa equação muito mais controversa do que parece
Combater desertos com árvores parece lógico, mas um gigantesco projeto florestal no norte da China revela como clima, solo, água e engenharia ambiental tornam essa equação muito mais controversa do que parece
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Programa iniciado em 1978 já se estende por 4.500 km no norte do país, mas ainda divide especialistas sobre os resultados contra a desertificação

A chamada Grande Muralha Verde da China é um megaprojeto de engenharia ecológica criado para frear a expansão dos desertos de Gobi e Taklamakan, no norte do país.

O programa começou em 1978 e é conhecido oficialmente como Programa Florestal de Refúgio Três do Norte. A proposta é formar um grande cinturão de vegetação ao longo das fronteiras do norte chinês.

Por que a desertificação virou um problema maior

O norte da China já era uma região seca antes da urbanização acelerada a partir da década de 1950. Um dos fatores apontados é a “sombra de chuva” causada pelo Himalaia, que reduz a incidência de precipitação na área próxima à fronteira com a Mongólia.

Com o avanço das cidades e a expansão das áreas agrícolas, aumentaram a erosão do solo e a deposição de areia. Isso favoreceu um cenário com mais tempestades de areia, que removem a camada superficial do solo, degradam o terreno e elevam a poluição por partículas em suspensão em centros urbanos.

Tempestade de poeira no norte da China é um fenômeno que agrava a poluição por partículas, reduz a visibilidade e acelera a perda de solo fértil, com impactos na saúde respiratória.

Tempestade de poeira no norte da China, fenômeno que agrava a poluição por partículas, reduz a visibilidade e acelera a perda de solo fértil e os impactos na saúde respiratória

Os números do plantio e a meta de longo prazo

Desde 1978, a China afirma ter plantado mais de 66 bilhões de árvores ao longo de uma faixa de 4.500 quilômetros no norte do país, em áreas que fazem fronteira com Mongólia, Cazaquistão e Quirguistão.

As autoridades também planejam plantar mais 34 bilhões de árvores nos próximos 25 anos. Se o cronograma for cumprido, a meta é que a barreira vegetal chegue aos 4.500 km em 2050.

Desertos gigantes e pressão constante sobre o território

Os desertos de Gobi e Taklamakan são citados como dois dos maiores da região, somando cerca de 1,6 milhão de quilômetros quadrados. O tamanho total é descrito como ligeiramente inferior ao do Alasca.

Mesmo com décadas de ações, os dois desertos seguem avançando. O Gobi, por exemplo, é frequentemente apontado como responsável por absorver cerca de 3.600 km² de pastagens chinesas por ano, com impacto sobre ecossistemas, áreas agrícolas e a qualidade do ar em cidades como Pequim.

Avanços anunciados e dúvidas sobre a eficácia

No ano passado, representantes do governo informaram que a China teria concluído o “cinturão” de vegetação ao redor do Taklamakan. A medida teria ajudado a estabilizar dunas e a manter a ampliação da cobertura florestal do país.

Segundo os dados citados, a cobertura florestal teria passado de cerca de 10% da área da China em 1949 para mais de 25% atualmente. Ainda assim, pesquisadores apontam que não há consenso sobre o quanto a muralha verde consegue, de fato, conter a desertificação.

Críticas: monocultivo, baixa sobrevivência e falta de água

Uma das críticas é a taxa de sobrevivência considerada baixa de árvores e arbustos plantados em trechos do projeto. Há relatos de grandes áreas com apenas uma ou duas espécies, principalmente álamos e salgueiros, o que aumenta a vulnerabilidade a doenças.

Um exemplo citado ocorreu em 2000, quando cerca de 1 bilhão de álamos teria sido perdido por causa de um único patógeno na província de Ningxia. Outro problema apontado é o plantio em locais com pouca disponibilidade de água, exigindo intervenção humana constante para manter as árvores vivas.

O especialista Xian Xue, da Academia Chinesa de Ciências, afirmou em 2017 que o esforço de plantio em áreas de dunas e no Gobi levou à queda rápida da umidade do solo e do lençol freático. Na avaliação dele, isso poderia acelerar a desertificação em algumas regiões, em vez de contê-la.

Impacto fora da China e referência para a África

Mesmo com as controvérsias, a iniciativa chinesa é descrita como inspiração para a Grande Muralha Verde da África. O plano africano prevê um cinturão de árvores com 8.000 km de extensão para conter a degradação do solo e a desertificação no continente.

O projeto chinês também é alvo de avaliações críticas por priorizar poucas espécies em determinados trechos, o que tende a contribuir menos para a biodiversidade do que estratégias baseadas em maior variedade de plantas nativas adaptadas a cada região.

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Antonio Carvalho
Antonio Carvalho
15/12/2025 04:22

O deserto está lá por falta de agua e as arvores sumiram pela mesma razão Se irrigarmos as plantas no deserto , logicamente as plantas voltarao a crescer mas isso implica num gigantesco projeto de irrigação. É o mesmo que acontece na Amazonia . A floresta está lá por causa da chuva e não o inverso como querem nos fazer crer .

Anderson Fernandes
Anderson Fernandes
Em resposta a  Antonio Carvalho
28/12/2025 16:14

Isso mesmo. Corretíssimo.

Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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