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Estudantes brasileiros transformam o rejeito da mineração de manganês, o pó que sobra e é descartado nas minas, em uma pilha funcional e levam o feito à maior feira de ciências do Brasil

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 24/06/2026 às 15:09 Atualizado em 24/06/2026 às 15:12
Pilha feita de resíduo de mineração: estudantes brasileiros do IFMS transformaram rejeito de manganês em pilha sustentável e chegaram à FEBRACE 2026.
Pilha feita de resíduo de mineração: estudantes brasileiros do IFMS transformaram rejeito de manganês em pilha sustentável e chegaram à FEBRACE 2026.
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No IFMS, em Corumbá, estudantes brasileiros criaram uma pilha feita de resíduo de mineração: usaram o rejeito de manganês descartado nas minas para montar uma pilha sustentável que gera energia de verdade, e levaram o projeto à FEBRACE 2026, a maior feira de ciências e engenharia do país.

Tem coisa que parece mágica, mas é ciência feita com o que ninguém quer. Na fronteira do Brasil com a Bolívia, em Corumbá, no Mato Grosso do Sul, a mineração de manganês deixa para trás montanhas de um pó fino que vai parar em barragens de rejeito. É lixo industrial, daqueles que ninguém sabe o que fazer. Pois um grupo de estudantes brasileiros olhou para esse descarte e enxergou energia. Eles transformaram o rejeito numa pilha feita de resíduo de mineração que funciona.

O feito foi apresentado na FEBRACE 2026, a Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, realizada em março na Universidade de São Paulo. O projeto saiu do Instituto Federal de Mato Grosso do Sul, o IFMS, no Campus Corumbá, e foi um dos finalistas nacionais da maior mostra científica pré-universitária do Brasil. A proposta é simples de explicar e poderosa de entender: pegar o rejeito de manganês que polui e devolvê-lo ao mundo como uma pilha sustentável.

O lixo que vira energia

Pilha feita de resíduo de mineração: estudantes brasileiros do IFMS transformaram rejeito de manganês em pilha sustentável e chegaram à FEBRACE 2026.
Para entender o tamanho da ideia, é preciso conhecer o problema.

A extração de manganês em Corumbá é uma atividade econômica importante, mas gera grandes volumes de rejeito, aquele pó finíssimo que sobra do beneficiamento do minério. Esse material se acumula em barragens, ocupa espaço, oferece risco ambiental e, em geral, não tem nenhum destino útil. É o retrato do desperdício industrial.

Foi aí que entrou a sacada dos estudantes brasileiros. Em vez de tratar o rejeito como problema, eles o trataram como matéria-prima. O manganês é, na química, um elemento muito usado em baterias e pilhas comuns, então usar o rejeito de manganês como base de uma pilha feita de resíduo de mineração não é só criatividade, é lógica científica bem aplicada.

A virada de chave está nesse olhar. O que era passivo ambiental virou potencial energético. Cada quilo de rejeito reaproveitado é um quilo a menos numa barragem e um passo a mais rumo a uma pilha sustentável. A mesma sujeira que ameaça o solo e a água ganhou, nas mãos dos alunos, a chance de virar fonte de eletricidade.

Como funciona a pilha feita de resíduo de mineração

O processo é engenhoso e didático. Os estudantes pegaram o rejeito de minério de manganês e o trituraram, peneiraram e lavaram até virar um pó fino e limpo. Esse pó é o componente principal da pilha. A tecnologia escolhida foi a da pilha de Leclanché, o modelo clássico que está por trás das pilhas secas comuns que todo mundo já usou no controle remoto.

Para fechar a montagem, veio mais reaproveitamento. Os alunos reutilizaram peças de pilhas descartadas, como o bastão de grafite e o invólucro metálico, e usaram um molde impresso em 3D para compactar o pó de rejeito de manganês dentro da estrutura. Ou seja, a pilha feita de resíduo de mineração nasce de duas camadas de reciclagem: o rejeito da mina e as carcaças de pilhas velhas.

Esse desenho mostra maturidade científica. Não é só misturar pó e esperar funcionar, é replicar um sistema eletroquímico real com material recuperado. A pilha sustentável dos estudantes respeita a química da pilha de Leclanché, só que troca o insumo industrial por aquilo que seria descartado. É a definição prática de economia circular aplicada à energia.

1,27 volt que move uma calculadora e um trenzinho

A pergunta inevitável é: funciona mesmo? Funciona. O protótipo gerou cerca de 1,27 volt, tensão suficiente para alimentar pequenos aparelhos. Para provar que não era teoria, os estudantes ligaram uma calculadora com a pilha, e ela funcionou por vários meses. Também usaram a pilha feita de resíduo de mineração para acionar um trenzinho de brinquedo.

Pode parecer pouco, mas não é. Manter uma calculadora ligada por meses com uma pilha caseira feita de rejeito é a prova de conceito que importa. Mostra que o rejeito tem energia aproveitável e que o processo é replicável. Uma ideia de feira de ciências só ganha peso quando sai do papel e acende uma luz, move um motorzinho, faz uma conta na tela. Essa fez.

É preciso honestidade sobre o alcance, e isso valoriza o trabalho em vez de diminuí-lo. A pilha sustentável dos estudantes é um protótipo, voltado a pequenos dispositivos, não um produto pronto para substituir a pilha do supermercado. Mas todo grande avanço começa assim, numa bancada, com um número como 1,27 volt provando que o caminho existe.

Do rejeito de manganês ao circuito da ciência: a FEBRACE 2026

O reconhecimento veio na maior vitrine científica do país. A FEBRACE 2026, vigésima quarta edição da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, aconteceu em março na USP e reuniu 297 projetos finalistas de todo o Brasil, selecionados entre milhares de trabalhos. Estar entre eles já é um feito e tanto para qualquer estudante.

Foi nesse palco que a pilha feita de resíduo de mineração apareceu, segundo os anais oficiais da FEBRACE 2026. O projeto, intitulado “Aproveitamento de rejeitos de minério de manganês na produção de pilhas sustentáveis”, leva a assinatura dos estudantes Fabio Andres Garcia Flores, Felipe Ogaya do Amaral e Julia Ramos Wiesel, sob orientação de Rogers Espinosa de Oliveira e coorientação de Deisy dos Santos Freitas, todos do IFMS Campus Corumbá.

Vale o contexto sobre o peso da feira. A FEBRACE é a porta de entrada brasileira para a Regeneron ISEF, a maior feira de ciências pré-universitária do mundo, realizada nos Estados Unidos, para onde segue uma seleção dos melhores projetos do país. Chegar à final da FEBRACE 2026, disputando com o que há de mais criativo entre os estudantes brasileiros, coloca a pilha sustentável de Corumbá no mapa nacional da ciência jovem.

Por que transformar rejeito em pilha importa tanto

O valor desse projeto está em resolver dois problemas com uma tacada só. De um lado, ataca o passivo ambiental da mineração, dando destino útil ao rejeito de manganês que entulha barragens e ameaça o ambiente. De outro, gera energia a partir de um material que custa praticamente nada, porque já foi descartado. É sustentabilidade e economia juntas.

Essa lógica conversa com uma tendência mundial. O manganês é um metal estratégico para a indústria de baterias, peça-chave inclusive em tecnologias de armazenamento de energia. Transformar rejeito de manganês em pilha sustentável aponta para um futuro em que resíduo de mineração deixa de ser só problema e vira insumo. Uma pilha feita de resíduo de mineração é, nesse sentido, um pequeno ensaio de um conceito enorme.

Há ainda o recado social e ambiental. Em regiões mineradoras, o rejeito é uma ferida aberta, lembrada toda vez que uma barragem ameaça romper. Mostrar que esse material pode virar pilha sustentável planta a semente de que dá para minerar e, ao mesmo tempo, reduzir o estrago, aproveitando o que sobra. É o tipo de pensamento que o Brasil, gigante da mineração, precisa cultivar.

Ciência feita por estudantes brasileiros com apoio público

Por trás da pilha há uma engrenagem que merece crédito. O projeto nasceu num instituto federal, o IFMS, parte da rede pública de educação técnica e tecnológica que se espalha pelo país. São escolas que colocam adolescentes em laboratórios de verdade, fazendo pesquisa de verdade, muito antes da universidade. A pilha feita de resíduo de mineração é fruto direto desse investimento.

A iniciativa contou ainda com apoio do poder público à ciência. Programas e agências federais, como o CNPq, o FNDCT e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, sustentam ações que aproximam estudantes brasileiros da pesquisa científica e os levam a feiras como a FEBRACE 2026. Sem esse alicerce, muita ideia boa morreria na gaveta por falta de bancada, material e incentivo.

É um lembrete de que ciência se constrói com base. Os estudantes brasileiros têm talento de sobra, e quando ganham estrutura e orientação, entregam soluções que impressionam, como tirar energia de um rejeito de manganês. Cada pilha sustentável montada numa escola técnica é também um argumento a favor de investir em educação científica no Brasil.

Do laboratório para o mundo real: o que ainda falta

Para não vender ilusão, vale separar a conquista da fantasia. O que os estudantes fizeram é uma prova de conceito sólida, não um produto de prateleira. Transformar a pilha feita de resíduo de mineração numa bateria comercial exigiria muita pesquisa adicional sobre durabilidade, segurança, padronização e produção em escala. O protótipo acende a luz, mas o caminho até a fábrica é longo.

Esse realismo não tira o brilho do feito, pelo contrário. A ciência avança justamente por etapas como essa, em que alguém prova que algo aparentemente inútil tem valor. A pilha sustentável de Corumbá entrega a parte mais difícil, a da ideia que funciona, e abre a porta para que pesquisadores, indústria e universidades levem o conceito adiante, se quiserem.

No fim, o maior produto desse projeto talvez nem seja a pilha. É a mensagem de que o rejeito de manganês, símbolo do desperdício da mineração, pode ser repensado. E é a prova de que estudantes brasileiros, numa escola pública de fronteira, são capazes de chegar à FEBRACE 2026 com uma solução que une meio ambiente e energia. Isso, sim, é energia que não acaba.

E você, imaginava que o pó descartado de uma mina pudesse virar uma pilha capaz de ligar uma calculadora por meses? Conta pra gente nos comentários o que você acha desse tipo de ciência feita com lixo, e se acredita que ideias assim deveriam receber mais apoio para sair do laboratório.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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