A China aprovou um dos projetos de engenharia mais audaciosos da década: um túnel ferroviário que vai correr por cerca de noventa quilômetros debaixo do mar para ligar duas grandes cidades hoje separadas por uma travessia de ferry que some quando o tempo fecha, transformando horas de viagem incerta num corredor que funciona o ano inteiro.
Olhe o mapa do nordeste da China e você vai ver duas penínsulas que quase se tocam, separadas pelo estreito de Bohai. De um lado, a cidade portuária de Dalian; do outro, Yantai. Em linha reta são pouco mais de cem quilômetros de água, mas por terra a volta passa de 1.400 quilômetros, e o ferry que cruza o estreito depende do humor do mar. A solução aprovada por Pequim é tão ambiciosa quanto óbvia: furar por baixo.
O projeto prevê túneis ferroviários duplos somando mais de 120 quilômetros, dos quais cerca de noventa ficariam debaixo do leito do mar, o que faria dele de longe o túnel submarino mais longo já construído. Não é um sonho distante de prancheta: é uma obra com sinal verde para sair do papel, encaixada no coração de uma das regiões mais industrializadas do planeta.

A escala que desafia a imaginação
Para ter ideia do tamanho, o atual recordista de túnel submarino, na Coreia do Sul, tem uma fração disso. O de Bohai cruzaria um trecho de mar com correntes fortes, atividade sísmica e profundidade considerável, o que exige uma engenharia de outro patamar. A obra deve combinar enormes tuneladoras, as máquinas em forma de minhoca de aço que escavam e revestem o túnel ao mesmo tempo, com seções afundadas no leito como blocos pré-fabricados.
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Cada uma dessas tuneladoras é uma fábrica móvel do tamanho de um prédio deitado, capaz de avançar metros por dia mastigando rocha e lama enquanto monta as paredes de concreto atrás de si. Coordenar várias delas a dezenas de metros sob o mar, mantendo a pressão da água do lado de fora controlada, é o tipo de proeza que só um punhado de países hoje conseguiria sequer planejar. A China é, disparada, quem mais acumulou experiência nesse tipo de obra.
Por que ligar Dalian a Yantai
O motivo é puramente econômico. O estreito de Bohai fica na borda do Anel Econômico de Bohai, uma das regiões mais densas em indústria da China, lotada de portos, siderúrgicas, petroquímicas e fábricas. Hoje, a mercadoria e o passageiro que querem ir de um lado a outro encaram a volta gigante por terra ou se arriscam no ferry. Um corredor ferroviário fixo cortaria esse trajeto para algo em torno de uma hora, todo dia, faça chuva ou sol.

O impacto logístico é enorme. Encurtar essa ligação significa baratear o transporte de carga, integrar mercados que hoje funcionam meio separados e dar fôlego a portos e indústrias dos dois lados. É o tipo de obra que não se justifica pela beleza, e sim pela conta: menos quilômetro rodado, menos tempo perdido, mais comércio fluindo. Para uma economia que vive de mover volume, isso vale bilhões ao longo das décadas.
Como ele se compara aos maiores do mundo
Para dimensionar a ousadia, vale comparar. O túnel do Canal da Mancha, que liga França e Inglaterra e é um dos mais famosos do planeta, tem cerca de cinquenta quilômetros, dos quais menos de quarenta debaixo do mar. O túnel de base do São Gotardo, na Suíça, o mais longo dos ferroviários, fica em torno de cinquenta e sete quilômetros, mas corta montanha, não mar. O de Bohai, com noventa quilômetros sob a água, jogaria todos esses números para escanteio.
Atravessar tanto mar traz desafios que um túnel de montanha não tem. A pressão da água cresce com a profundidade e empurra contra as paredes o tempo todo, qualquer infiltração vira emergência, e a ventilação e a rota de fuga em caso de acidente precisam ser pensadas para distâncias enormes longe de qualquer saída. Resolver tudo isso a noventa quilômetros de extensão é um problema de engenharia que ninguém no mundo enfrentou ainda nessa escala.
A máquina chinesa de megaobras
O túnel de Bohai não nasce sozinho. Ele é mais um capítulo de uma sequência impressionante de obras gigantes que a China vem entregando, de pontes sobre o mar a ferrovias de alta velocidade que cruzam o país inteiro. O país montou uma verdadeira indústria de megaprojetos, com empresas estatais, fábricas de tuneladoras próprias e mão de obra especializada, capaz de encarar desafios que assustam o resto do mundo. Fico imaginando o acúmulo de conhecimento que uma obra dessas ainda vai gerar.
Vale a honestidade: aprovar não é o mesmo que inaugurar. Uma obra dessa magnitude leva anos, esbarra em custos que tendem a crescer e enfrenta riscos técnicos que só aparecem quando a tuneladora já está lá no fundo. Há quem questione se o retorno justifica o investimento bilionário, e essa é uma discussão legítima que vai acompanhar o projeto do começo ao fim.

Para quem olha de fora, fica o contraste. Enquanto muitos países discutem por décadas se vão ou não construir uma ferrovia, a China aprova um túnel de noventa quilômetros sob o mar como mais um item da lista. Não é só dinheiro: é uma máquina industrial e de decisão montada para erguer o que parece impossível, e que segue empurrando a fronteira do que a engenharia humana consegue fazer.
Se sair do papel como planejado, o túnel de Bohai vai entrar para a história como a mais longa passagem submarina já aberta pelo homem, e como mais uma prova de que, em obra de escala absurda, há um país jogando num campeonato à parte.
Um túnel de noventa quilômetros sob o mar é audácia genial ou gasto exagerado demais?
