1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Em Gana, Makafui Awuku transforma de 250 a 300 sachês de água que entopem as ruas de Accra em cada carteira escolar que dura 30 anos e tira crianças do chão da sala de aula
Faça um comentário 8 min de leitura

Em Gana, Makafui Awuku transforma de 250 a 300 sachês de água que entopem as ruas de Accra em cada carteira escolar que dura 30 anos e tira crianças do chão da sala de aula

Imagem de perfil do autor Maria Heloisa Barbosa Borges
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 24/06/2026 às 16:00 Atualizado em 24/06/2026 às 16:04
Em Gana, Makafui Awuku transforma sachês de água em carteira escolar de plástico reciclado: reciclagem criativa que dura décadas e tira crianças do chão.
Em Gana, Makafui Awuku transforma sachês de água em carteira escolar de plástico reciclado: reciclagem criativa que dura décadas e tira crianças do chão.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Fundador da Mckingtorch Africa, o ganês Makafui Awuku derrete os sachês plásticos de água que entopem Accra e os prensa em painéis resistentes. Cada carteira escolar usa de 250 a 300 sachês, dura décadas e já chega às escolas públicas de um país onde mais de 2 milhões de alunos estudam no chão.

Em Accra, capital de Gana, o chão das ruas vive coberto por um lixo miúdo e teimoso: os saquinhos plásticos de água potável, os tais sachês que entopem bueiros e agravam enchentes. Foi olhando para essa montanha de plástico que Makafui Awuku enxergou o que ninguém via, matéria-prima. Ele criou um jeito de derreter e prensar esses sachês em painéis duros e, a partir deles, fabricar uma carteira escolar de plástico reciclado que dura décadas. A história foi contada pelo programa The World, da rede pública PRX.

A conta é simples e poderosa. Cada carteira leva de 250 a 300 sachês de água recolhidos do lixo, lavados e processados. Em vez de entupir um canal de Accra, esse plástico vira o móvel que tira uma criança do piso da sala de aula. Num país que precisa de mais de 2 milhões de assentos escolares, a reciclagem criativa de Makafui Awuku resolve dois problemas de uma vez, o do lixo e o da educação.

Do plástico que entope Accra à sala de aula


A poluição plástica cobre o litoral de Accra, ameaçando a economia pesqueira do Gana.
imagem: Ridwan Karim Dini-Osman/O Mundo
A poluição plástica cobre o litoral de Accra, ameaçando a economia pesqueira do Gana.
imagem: Ridwan Karim Dini-Osman/O Mundo

Para entender o feito, é preciso entender o problema. Os sachês de água, pequenos sacos plásticos vendidos por centavos, são a forma mais comum de beber água em Gana. O custo disso aparece nas ruas: bilhões desses saquinhos descartados entopem valas, sujam praias e pioram as enchentes de Accra. É um dos lixos plásticos mais visíveis do país.

Makafui Awuku conhece esse problema na pele, literalmente. Ele desenvolveu asma ao respirar a fumaça da queima de plástico na própria comunidade. Em vez de só reclamar, agiu. Em 2017, fundou a Mckingtorch Africa, uma empresa social voltada para sustentabilidade, reciclagem e combate às mudanças climáticas. A ideia que o consagrou veio depois, quando descobriu como transformar os sachês de água num material resistente.

Makafui Awuku, de 42 anos, fundador da Mckingtorch Africa, reaproveita resíduos plásticos para produzir carteiras escolares e ajudar a suprir a carência de mais de 2 milhões de carteiras no Gana.
Ridwan Karim Dini-Osman/O Mundo
Makafui Awuku, de 42 anos, fundador da Mckingtorch Africa, reaproveita resíduos plásticos para produzir carteiras escolares e ajudar a suprir a carência de mais de 2 milhões de carteiras no Gana.
Ridwan Karim Dini-Osman/O Mundo

O pulo do gato foi tratar o lixo como insumo industrial. A reciclagem criativa de Awuku não para na coleta, ela cria uma cadeia: catadores recolhem os sachês de água, o material é limpo, derretido e prensado em painéis, e esses painéis viram móveis. “Se conseguirmos transformar o lixo em matéria-prima que dure décadas e desenvolver a cadeia de valor para tornar isso acessível à produção, o problema vai desaparecer enquanto criamos empregos”, resume Makafui Awuku.

Como nasce uma carteira de 250 a 300 sachês

Carteiras escolares feitas de plástico reciclado na oficina de Makafui Awuku em Accra, Gana.
Ridwan Karim Dini-Osman/O Mundo
Carteiras escolares feitas de plástico reciclado na oficina de Makafui Awuku em Accra, Gana.
Ridwan Karim Dini-Osman/O Mundo

O processo é engenhoso na simplicidade. Os sachês recolhidos em pontos de descarte são higienizados e fundidos, formando placas de plástico reciclado densas e firmes. Dessas placas sai cada carteira escolar, montada para aguentar o tranco de uma sala de aula movimentada. O resultado é um móvel à prova d’água, leve e durável, qualidades que a madeira comum nem sempre entrega no clima úmido e quente da região.

Alunos de uma escola básica em Gana usam carteiras feitas de plástico reciclado pela Mckingtorch Africa.
Ridwan Karim Dini-Osman/O Mundo
Alunos de uma escola básica em Gana usam carteiras feitas de plástico reciclado pela Mckingtorch Africa.
Ridwan Karim Dini-Osman/O Mundo

Os números dão a dimensão do reaproveitamento. Cada carteira escolar consome de 250 a 300 sachês de água, e é projetada para acomodar de duas a três crianças ao mesmo tempo. Multiplicando isso pela produção, são milhares de saquinhos plásticos tirados das ruas a cada lote de mesas que sai da oficina.

A durabilidade é o trunfo que muda o jogo. Enquanto carteiras de madeira apodrecem ou quebram, a carteira escolar de plástico reciclado resiste por décadas sem se desfazer, segundo Awuku. Para escolas pobres, que não têm dinheiro para repor mobiliário toda hora, um móvel que dura é quase tão valioso quanto um móvel de graça.

Um país onde mais de 2 milhões estudam no chão

O contexto torna a invenção urgente. Gana enfrenta um déficit gigantesco de mobiliário escolar. Segundo dados oficiais do sistema de gestão educacional do país, divulgado pelo  The World, cerca de 40% dos alunos do ensino básico não têm carteira, e mais de 2 milhões de crianças estudam sentadas no chão. Em muitas salas, os estudantes se amontoam de quatro em quatro numa mesa ou se deitam de barriga para baixo para escrever.

As consequências vão além do desconforto. Estudar no piso ou em posições improvisadas prejudica a postura, cansa o corpo e atrapalha a leitura e a escrita, o que rebate direto no desempenho escolar. A falta de uma simples carteira escolar vira, na prática, mais uma barreira para crianças que já enfrentam tantas outras.

É nesse buraco que a reciclagem criativa de Makafui Awuku se encaixa como solução de baixo custo. Em vez de depender só de orçamento público escasso para comprar móveis novos, as escolas podem receber carteiras feitas de um material que, do contrário, estaria poluindo a cidade. O lixo de uns vira o assento de outros.

Cerca de 200 carteiras e contando

A produção ainda é artesanal, mas cresce. Desde que começou a fabricar as mesas, a Mckingtorch já entregou cerca de 200 carteiras, com um ritmo atual de aproximadamente 30 por mês. Não é o suficiente para um déficit de milhões, e ninguém finge que é, mas é prova viva de que o modelo funciona e pode escalar.

O impacto transborda a sala de aula. A operação de Makafui Awuku gera renda para catadores de lixo e para jovens artesãos, transformando a coleta de sachês de água numa fonte de trabalho. A empresa ainda mantém programas de educação ambiental para ensinar a garotada sobre reciclagem e clima, plantando a ideia de que plástico reciclado não é sujeira, é recurso.

O reconhecimento começou a chegar. De acordo com The World, Makafui Awuku foi finalista do prêmio de Ação pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, e órgãos do governo de Gana, como o Ministério da Educação e a agência ambiental, já manifestaram interesse em ampliar o projeto para escolas de regiões remotas. A reciclagem criativa que nasceu de uma oficina vira política de educação em potencial.

Quando as empresas entram na conta

A escala maior tem vindo de parcerias. Em dezembro de 2025, a seguradora Prudential doou 100 carteiras de plástico reciclado à Gbegbeyise Basic School, em Accra. O detalhe importante é que essa doação não foi obra de uma empresa só: ela nasceu de uma parceria entre a Prudential, a Academic City University, cujos estudantes ajudaram a fabricar as mesas com maquinário próprio, e a Mckingtorch Africa. É a reciclagem criativa ganhando reforço acadêmico e corporativo.

Outra empresa que aderiu foi a distribuidora de energia Vivo Energy Ghana, que encomendou à Mckingtorch carteiras feitas de plástico reciclado para substituir assentos improvisados em escolas carentes. O caso mais simbólico foi o da Breman Fosuansa D/A Basic School, na região central do país, onde crianças usavam blocos de concreto como banco, situação revelada por uma rádio local antes da troca pelos novos móveis.

Esse encadeamento de parceiros mostra o caminho para sair da escala artesanal. Quando seguradoras, universidades e empresas de energia compram ou patrocinam a carteira escolar de plástico reciclado, a produção deixa de depender só do fôlego de uma pequena oficina. É assim que uma boa ideia deixa de ser exceção e começa a virar regra.

Por que isso interessa ao Brasil

A história de Gana ecoa por aqui mais do que parece. O Brasil também convive com escolas que carecem de mobiliário adequado e com montanhas de lixo plástico mal aproveitado, dois problemas que costumam ser tratados em separado. A sacada de Makafui Awuku foi justamente cruzá-los, mostrando que um resíduo abundante e barato pode virar uma carteira escolar durável.

O modelo é replicável porque não depende de alta tecnologia, e sim de método e vontade. Identificar um lixo plástico que sobra em grande quantidade na região, montar uma cadeia de coleta que gere renda e transformar esse material em mobiliário resistente é uma receita que cabe em muitas cidades. A reciclagem criativa funciona melhor quando resolve, ao mesmo tempo, uma dor ambiental e uma dor social.

No fim, o que Gana ensina é uma troca de olhar. O mesmo saquinho de plástico reciclado que ontem entupia um bueiro de Accra hoje sustenta o caderno de uma criança na escola. Não foi preciso inventar um material novo, foi preciso enxergar valor no que todo mundo jogava fora.

O trabalho de Makafui Awuku prova que reciclagem criativa de verdade é aquela que sai do discurso e vira objeto útil na mão de quem precisa. Uma carteira escolar de plástico reciclado, feita de saquinhos de água, conseguiu unir limpeza urbana, geração de renda e direito à educação num só gesto.

E você, que tipo de lixo plástico que vê todo dia na sua cidade poderia virar algo tão útil quanto uma carteira escolar? Conta aqui nos comentários a ideia de reaproveitamento que você acha que daria certo no Brasil.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x