O Brasil promete um submarino de propulsão nuclear desde os anos 1980 e, mais de quatro décadas depois, ainda não entregou, enquanto a Coreia do Sul, que nem tinha esse programa, acaba de anunciar o plano para construir o seu, num contraste que escancara como projetos de alta tecnologia emperram por aqui.
Tem comparações que doem porque expõem uma demora difícil de explicar. O Brasil sonha com um submarino nuclear desde os anos 1980, quando o programa nasceu com ambição de colocar o país no seleto grupo de nações capazes de operar essas máquinas. Quatro décadas depois, o submarino ainda não navega, e a entrega segue sendo empurrada para o fim da década ou além.
Do outro lado do mundo, a Coreia do Sul, que nem tinha um programa desse tipo, acaba de revelar o plano para desenvolver e construir o seu primeiro submarino de propulsão nuclear. É claro que anunciar um plano não é o mesmo que entregar um submarino pronto, mas o contraste de ritmo é gritante, um país que sonha há mais de quarenta anos e outro que, partindo do zero, já traça um caminho concreto.
O que é o Prosub e por que ele importa
O programa brasileiro tem nome, Prosub, e foi tocado em parceria com a França. Ele já entregou submarinos convencionais, movidos a diesel e eletricidade, como o Riachuelo, que representam um avanço real para a Marinha. Mas o coração da ambição sempre foi o submarino de propulsão nuclear, o chamado Álvaro Alberto, justamente o mais difícil e o que mais atrasou. É ele que daria ao país a capacidade de patrulhar o imenso litoral brasileiro por meses sem emergir.
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Confesso que dá um certo orgulho misturado com frustração olhar para o Prosub. Orgulho porque o Brasil domina hoje tecnologias sofisticadas de construção naval e enriquecimento de urânio, coisa que pouquíssimos países têm. Frustração porque, mesmo com esse conhecimento, o submarino nuclear continua sendo uma promessa adiada, refém de orçamento apertado, mudanças de prioridade e a complexidade brutal de uma obra dessas.
Vale entender por que o Brasil tanto quer esse submarino. O país tem um litoral de mais de oito mil quilômetros e, espalhada por ele, a chamada Amazônia Azul, a imensa área marítima que guarda o petróleo do pré-sal e boa parte das riquezas econômicas nacionais. Vigiar tudo isso com submarinos convencionais, que precisam emergir de tempos em tempos, é quase impossível. Só um submarino de propulsão nuclear, capaz de patrulhar por meses sem subir à superfície, daria à Marinha a presença silenciosa necessária para proteger esse tesouro. É por isso que o projeto sobrevive a tantos atrasos, porque ele toca num interesse estratégico que o país considera vital demais para simplesmente abandonar.

Por que o submarino nuclear é tão difícil
Não dá para fingir que é fácil, e seria injusto com quem trabalha no projeto. Construir um submarino de propulsão nuclear é um dos feitos de engenharia mais complexos que existem, porque exige miniaturizar um reator nuclear para caber dentro de um casco, blindá-lo, fazê-lo operar em silêncio absoluto e garantir segurança total a centenas de metros de profundidade. É como montar uma usina atômica dentro de um tubo que precisa se esconder no fundo do mar.
Por isso, pouquíssimas nações no mundo dominam essa combinação de tecnologia naval, nuclear e de materiais. O Brasil escolheu um caminho mais autônomo, desenvolvendo boa parte da tecnologia em casa, o que é admirável, mas também mais lento e sujeito a tropeços. Cada atraso de financiamento empurra o cronograma anos à frente, e a obra acaba se arrastando por um tempo que testa a paciência de qualquer um.

A lição que vem de fora
O caso coreano não serve para humilhar o Brasil, mas para dimensionar o que é possível quando há continuidade e foco. A Coreia do Sul construiu nas últimas décadas uma das maiores indústrias navais do planeta e tratou suas prioridades militares com constância, o que lhe permite agora atacar um objetivo ambicioso com confiança. É o tipo de trajetória que mostra como decisões mantidas ao longo do tempo geram capacidade real.
O contraste sugere que o problema brasileiro talvez não seja de talento nem de conhecimento, mas de continuidade. Projetos de longo prazo no Brasil sofrem com a falta de constância, mudando de ritmo a cada troca de governo e a cada aperto no orçamento. Tratar o submarino nuclear como política de Estado, acima de mandatos, é justamente o que falta para que ele saia, enfim, do papel para a água.

Um sonho de quatro décadas ainda à espera
Fico imaginando quantas gerações de engenheiros e oficiais brasileiros começaram a carreira sonhando com esse submarino nuclear e se aposentaram sem vê-lo navegar. É um projeto que atravessa décadas, governos e crises, sempre prometido e nunca concluído, virando quase um símbolo da dificuldade do país de levar grandes obras tecnológicas até o fim.
Ver a Coreia do Sul anunciar o seu plano com tanta clareza é um lembrete incômodo, mas útil, de que dá para chegar lá quando há método e persistência. Que o exemplo de fora sirva de estímulo, e não de lamento, para que o Brasil finalmente entregue um sonho que já espera há tempo demais debaixo da superfície dos seus próprios e vastos mares.
Por que será que o Brasil, com tanta tecnologia própria, ainda não conseguiu entregar o submarino nuclear que promete há quarenta anos?

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