Em Mônaco, um bairro construído sobre o mar, ganhou marina, edifícios assinados por Renzo Piano, selo ecológico e metro quadrado perto de 100 mil euros, virando vitrine exclusiva para bilionários e laboratório de urbanismo costeiro no Mediterrâneo, sob olhar atento de ambientalistas globais
Inaugurado em dezembro de 2024, Mareterra, um bairro construído sobre o mar na orla leste de Mônaco, é a resposta mais recente do principado à falta crônica de espaço em um território comprimido entre rochedos e Mediterrâneo. O projeto recuperou cerca de seis hectares do mar e adicionou aproximadamente 3 por cento de área ao país depois de oito anos de obras iniciadas em meados da década de 2010.
No papel, o bairro promete conciliar vista aberta para o mar, arquitetura de grife, marina privativa e um pacote de credenciais ambientais que inclui energia solar, áreas verdes e soluções para a fauna marinha. Na prática, tornou-se também um símbolo do deslocamento da cidade para um patamar em que o metro quadrado especulado na casa dos 100 mil euros o transforma em palco privilegiado para alguns dos indivíduos mais ricos do mundo.
Como nasce um bairro construído sobre o mar em Mônaco

O ponto de partida de Mareterra é uma equação conhecida em Mônaco desde o início do século 20: quando não há mais terreno disponível, a expansão ocorre para dentro do Mediterrâneo.
-
Índia monta duas tuneladoras gigantes de mais de 3 mil toneladas para cavar o primeiro túnel ferroviário submarino do país, com 7 km sob Thane Creek e trilhos de trem-bala passando a até 114 metros de profundidade
-
Nova Zelândia alinha quase 7 mil blocos de concreto em forma de X como peças de quebra-cabeça para proteger ferrovia, rodovia e ciclovia contra ondas, erosão e terremotos em uma das costas mais sensíveis de Wellington
-
Baixada Santista ganha reservatórios de água de R$ 84,6 milhões em Itanhaém com 20 milhões de litros para reforçar abastecimento de 1,2 milhão de moradores em cinco cidades
-
Rio enterrado sob rodovia virou parque urbano em Seul após obra milionária no Cheonggyecheon, atraiu 64 mil visitantes por dia, fez a biodiversidade crescer 639% e mostrou por que cidades estão trocando concreto por água e áreas verdes
Desde 1907, cerca de um quarto da área atual do principado foi conquistada ao mar, em operações que geraram a praia de Larvotto, o Porto Hércules e o bairro de Fontvieille, entre outros trechos urbanizados.
Em 2013, o príncipe Albert 2º anunciou um novo plano de expansão diante da costa, ao lado do Fórum Grimaldi e do Jardim Japonês.
A ideia era criar um bairro construído sobre o mar que conectasse essas peças do litoral com um contínuo de calçadões, jardins e edifícios residenciais de altíssimo padrão.
A área foi batizada de Mareterra para reforçar a fusão entre mar e terra que sustenta o projeto.
O novo distrito abriga dois blocos de apartamentos residenciais, dez vilas e quatro casas geminadas, além de uma pequena marina, 14 estabelecimentos comerciais e cerca de três hectares de espaço público aberto.
Para o principado, Mareterra é apresentado como a peça que faltava no quebra-cabeça urbano da orla, integrando lazer, moradia e serviços em um cenário que pretende parecer natural, embora tenha sido literalmente construído sobre o mar.
Câmaras de concreto e engenharia invisível sob o bairro

Por baixo do passeio à beira-mar e dos jardins recém-plantados, o que sustenta o bairro são 18 caixotes gigantes de concreto, cada um com cerca de 10 mil toneladas e 26 metros de altura, assentados lado a lado no fundo do Mediterrâneo.
Esses módulos funcionam como espinha dorsal estrutural e também como quebra-mar para proteger o bairro de tempestades históricas.
Na parte superior desses caixotes ficam as chamadas câmaras Jarlan, que emergem acima da linha da água com aberturas verticais estreitas.
A água entra e sai por essas fendas, dissipando a energia das ondas antes que alcancem o calçadão.
A lógica é permitir que o mar circule e que as ondas percam força, mantendo o bairro construído sobre o mar protegido mesmo em episódios de ressaca intensa.
Um dos espaços mais emblemáticos desse sistema é a chamada Gruta Azul, uma antecâmara escura no interior de uma das estruturas, onde é possível ouvir o som das ondas batendo contra o concreto.
Em horários específicos, a luz que atravessa as aberturas cria um reflexo azulado no interior da câmara, transformando um componente técnico de engenharia em atração arquitetônica discreta.
Selo ecológico, energia solar e floresta planejada
Para sustentar o discurso de sustentabilidade, Mareterra foi desenhado como o trecho mais “verde” do principado, alinhado à meta de neutralidade de carbono de Mônaco até 2050.
O bairro incorpora cerca de 9 mil metros quadrados de painéis solares, aproximadamente 200 estações de recarga para veículos elétricos e o plantio de cerca de 800 árvores distribuídas entre jardins rochosos, alamedas e áreas de lazer.
A linha oficial é clara: o bairro construído sobre o mar não seria apenas um produto imobiliário, mas um laboratório de como mitigar os impactos ambientais de grandes obras de recuperação de terras.
Os caixotes de concreto receberam relevos, ranhuras e texturas cuidadosamente moldadas para favorecer a colonização de algas, peixes e outros organismos marinhos, recriando áreas rasas em que a fauna pode transitar.
O capítulo mais sensível foi o manejo de 384 metros quadrados de Posidonia oceanica, uma planta marinha protegida pela legislação europeia.
Uma máquina adaptada removeu blocos de vegetação com raízes e sedimentos, que foram transplantados intactos para a Área Marinha Protegida de Larvotto, a cerca de 200 metros do canteiro de obras.
A operação visou preservar não apenas as plantas, mas o microecossistema associado à sua base.
Marina, Renzo Piano e metro quadrado perto de 100 mil euros
Na superfície, Mareterra foi desenhado para reforçar a imagem de Mônaco como vitrine global de riqueza.
Um dos blocos residenciais, batizado de Le Renzo, leva a assinatura do arquiteto italiano Renzo Piano, responsável por um edifício de linhas suaves em tons de azul e cinza que se destaca como guardião do bairro diante do mar.
As moradias incluem apartamentos amplos com varandas voltadas para o Mediterrâneo, vilas independentes com acesso direto ao passeio marítimo e casas geminadas inseridas em áreas de vegetação planejada.
A marina abriga iates de grande porte, conectando diretamente o bairro construído sobre o mar ao circuito de superembarcações que circulam pela Riviera.
Apesar da retórica de que o projeto ajudaria a aliviar a pressão sobre o mercado de moradia, especula-se que os preços dos imóveis comecem na faixa de 100 mil euros por metro quadrado, o que coloca Mareterra entre as áreas residenciais mais caras do planeta.
Nenhuma das novas unidades foi reservada para cidadãos monegascos em regime de habitação social, o que reforça a percepção de que o empreendimento atende sobretudo à demanda de bilionários internacionais em busca de endereço exclusivo.
Laboratório de urbanismo costeiro ou parque de diversões para bilionários
O projeto mantém viva a tradição iniciada pelo príncipe Rainier 3º, conhecido como “príncipe construtor”, e continuada pelo príncipe Albert 2º, que vê na expansão física do território um sinal de dinamismo econômico.
Para parte da elite local, Mônaco deve seguir avançando sobre o mar sempre que houver tecnologia e dinheiro disponíveis para viabilizar novas fatias urbanizáveis.
Ao mesmo tempo, Mareterra levanta dúvidas sobre a real necessidade de um bairro construído sobre o mar em um contexto global de crise climática, aumento do nível do mar e pressões ambientais sobre ecossistemas costeiros.
Críticos questionam se o laboratório de inovação ecológica não é, na prática, uma vitrine de alto padrão que pouco altera a realidade de quem enfrenta dificuldade de acesso à moradia no próprio principado.
Ainda assim, urbanistas e gestores de cidades costeiras olham para Mônaco como um caso de estudo.
As técnicas de fundação em águas profundas, a engenharia das câmaras Jarlan e as tentativas de conciliar recuperação de terras com restauração ambiental podem servir de referência para outros projetos em regiões densamente povoadas à beira-mar.
O dilema está em saber se essas soluções serão utilizadas para atender a demandas coletivas ou replicadas sobretudo em enclaves de altíssima renda.
Na sua opinião, projetos como esse bairro construído sobre o mar deveriam ser usados principalmente para criar moradia acessível em cidades costeiras ou faz sentido que continuem funcionando como vitrines exclusivas para bilionários?

Seja o primeiro a reagir!