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Mônaco ergue bairro construído sobre o mar com 18 caixotes gigantes de concreto, câmaras Jarlan contra ressaca, gruta azul escondida, marina nova, painéis solares e floresta planejada que muda a cara da orla

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 18/12/2025 às 09:44
Atualizado em 18/12/2025 às 12:17
Em Mônaco, um bairro de luxo construído sobre o mar com marina desenhada em parceria com Renzo Piano atrai bilionários e redefine o patamar dos projetos imobiliários de elite
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Em Mônaco, um bairro construído sobre o mar, ganhou marina, edifícios assinados por Renzo Piano, selo ecológico e metro quadrado perto de 100 mil euros, virando vitrine exclusiva para bilionários e laboratório de urbanismo costeiro no Mediterrâneo, sob olhar atento de ambientalistas globais

Inaugurado em dezembro de 2024, Mareterra, um bairro construído sobre o mar na orla leste de Mônaco, é a resposta mais recente do principado à falta crônica de espaço em um território comprimido entre rochedos e Mediterrâneo. O projeto recuperou cerca de seis hectares do mar e adicionou aproximadamente 3 por cento de área ao país depois de oito anos de obras iniciadas em meados da década de 2010.

No papel, o bairro promete conciliar vista aberta para o mar, arquitetura de grife, marina privativa e um pacote de credenciais ambientais que inclui energia solar, áreas verdes e soluções para a fauna marinha. Na prática, tornou-se também um símbolo do deslocamento da cidade para um patamar em que o metro quadrado especulado na casa dos 100 mil euros o transforma em palco privilegiado para alguns dos indivíduos mais ricos do mundo.

Como nasce um bairro construído sobre o mar em Mônaco

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O ponto de partida de Mareterra é uma equação conhecida em Mônaco desde o início do século 20: quando não há mais terreno disponível, a expansão ocorre para dentro do Mediterrâneo.

Desde 1907, cerca de um quarto da área atual do principado foi conquistada ao mar, em operações que geraram a praia de Larvotto, o Porto Hércules e o bairro de Fontvieille, entre outros trechos urbanizados.

Em 2013, o príncipe Albert 2º anunciou um novo plano de expansão diante da costa, ao lado do Fórum Grimaldi e do Jardim Japonês.

A ideia era criar um bairro construído sobre o mar que conectasse essas peças do litoral com um contínuo de calçadões, jardins e edifícios residenciais de altíssimo padrão.

A área foi batizada de Mareterra para reforçar a fusão entre mar e terra que sustenta o projeto.

O novo distrito abriga dois blocos de apartamentos residenciais, dez vilas e quatro casas geminadas, além de uma pequena marina, 14 estabelecimentos comerciais e cerca de três hectares de espaço público aberto.

Para o principado, Mareterra é apresentado como a peça que faltava no quebra-cabeça urbano da orla, integrando lazer, moradia e serviços em um cenário que pretende parecer natural, embora tenha sido literalmente construído sobre o mar.

Câmaras de concreto e engenharia invisível sob o bairro

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Por baixo do passeio à beira-mar e dos jardins recém-plantados, o que sustenta o bairro são 18 caixotes gigantes de concreto, cada um com cerca de 10 mil toneladas e 26 metros de altura, assentados lado a lado no fundo do Mediterrâneo.

Esses módulos funcionam como espinha dorsal estrutural e também como quebra-mar para proteger o bairro de tempestades históricas.

Na parte superior desses caixotes ficam as chamadas câmaras Jarlan, que emergem acima da linha da água com aberturas verticais estreitas.

A água entra e sai por essas fendas, dissipando a energia das ondas antes que alcancem o calçadão.

A lógica é permitir que o mar circule e que as ondas percam força, mantendo o bairro construído sobre o mar protegido mesmo em episódios de ressaca intensa.

Um dos espaços mais emblemáticos desse sistema é a chamada Gruta Azul, uma antecâmara escura no interior de uma das estruturas, onde é possível ouvir o som das ondas batendo contra o concreto.

Em horários específicos, a luz que atravessa as aberturas cria um reflexo azulado no interior da câmara, transformando um componente técnico de engenharia em atração arquitetônica discreta.

Selo ecológico, energia solar e floresta planejada

Para sustentar o discurso de sustentabilidade, Mareterra foi desenhado como o trecho mais “verde” do principado, alinhado à meta de neutralidade de carbono de Mônaco até 2050.

O bairro incorpora cerca de 9 mil metros quadrados de painéis solares, aproximadamente 200 estações de recarga para veículos elétricos e o plantio de cerca de 800 árvores distribuídas entre jardins rochosos, alamedas e áreas de lazer.

A linha oficial é clara: o bairro construído sobre o mar não seria apenas um produto imobiliário, mas um laboratório de como mitigar os impactos ambientais de grandes obras de recuperação de terras.

Os caixotes de concreto receberam relevos, ranhuras e texturas cuidadosamente moldadas para favorecer a colonização de algas, peixes e outros organismos marinhos, recriando áreas rasas em que a fauna pode transitar.

O capítulo mais sensível foi o manejo de 384 metros quadrados de Posidonia oceanica, uma planta marinha protegida pela legislação europeia.

Uma máquina adaptada removeu blocos de vegetação com raízes e sedimentos, que foram transplantados intactos para a Área Marinha Protegida de Larvotto, a cerca de 200 metros do canteiro de obras.

A operação visou preservar não apenas as plantas, mas o microecossistema associado à sua base.

Marina, Renzo Piano e metro quadrado perto de 100 mil euros

Na superfície, Mareterra foi desenhado para reforçar a imagem de Mônaco como vitrine global de riqueza.

Um dos blocos residenciais, batizado de Le Renzo, leva a assinatura do arquiteto italiano Renzo Piano, responsável por um edifício de linhas suaves em tons de azul e cinza que se destaca como guardião do bairro diante do mar.

As moradias incluem apartamentos amplos com varandas voltadas para o Mediterrâneo, vilas independentes com acesso direto ao passeio marítimo e casas geminadas inseridas em áreas de vegetação planejada.

A marina abriga iates de grande porte, conectando diretamente o bairro construído sobre o mar ao circuito de superembarcações que circulam pela Riviera.

Apesar da retórica de que o projeto ajudaria a aliviar a pressão sobre o mercado de moradia, especula-se que os preços dos imóveis comecem na faixa de 100 mil euros por metro quadrado, o que coloca Mareterra entre as áreas residenciais mais caras do planeta.

Nenhuma das novas unidades foi reservada para cidadãos monegascos em regime de habitação social, o que reforça a percepção de que o empreendimento atende sobretudo à demanda de bilionários internacionais em busca de endereço exclusivo.

Laboratório de urbanismo costeiro ou parque de diversões para bilionários

O projeto mantém viva a tradição iniciada pelo príncipe Rainier 3º, conhecido como “príncipe construtor”, e continuada pelo príncipe Albert 2º, que vê na expansão física do território um sinal de dinamismo econômico.

Para parte da elite local, Mônaco deve seguir avançando sobre o mar sempre que houver tecnologia e dinheiro disponíveis para viabilizar novas fatias urbanizáveis.

Ao mesmo tempo, Mareterra levanta dúvidas sobre a real necessidade de um bairro construído sobre o mar em um contexto global de crise climática, aumento do nível do mar e pressões ambientais sobre ecossistemas costeiros.

Críticos questionam se o laboratório de inovação ecológica não é, na prática, uma vitrine de alto padrão que pouco altera a realidade de quem enfrenta dificuldade de acesso à moradia no próprio principado.

Ainda assim, urbanistas e gestores de cidades costeiras olham para Mônaco como um caso de estudo.

As técnicas de fundação em águas profundas, a engenharia das câmaras Jarlan e as tentativas de conciliar recuperação de terras com restauração ambiental podem servir de referência para outros projetos em regiões densamente povoadas à beira-mar.

O dilema está em saber se essas soluções serão utilizadas para atender a demandas coletivas ou replicadas sobretudo em enclaves de altíssima renda.

Na sua opinião, projetos como esse bairro construído sobre o mar deveriam ser usados principalmente para criar moradia acessível em cidades costeiras ou faz sentido que continuem funcionando como vitrines exclusivas para bilionários?

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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