Em plena disputa, brasileiros em Portugal se alinham ao Chega, defendem controle duro da imigração, falam em proteção da família, abraçam discurso anti-esquerda e viram vitrine de um projeto que promete fechar a porta a novos imigrantes, em meio a denúncias de xenofobia e tensão entre brasileiros e portugueses.
Apoiadores do Chega ocupam ruas de Lisboa, Braga e outras cidades com bandeiras, cartazes e discursos anti-imigração. Entre eles, brasileiros em Portugal aparecem na linha de frente, apresentando-se como conservadores, defensores da família e críticos da esquerda que deixaram para trás no Brasil, enquanto ajudam a fortalecer um partido que promete endurecer fronteiras e controlar com mais rigor quem ainda sonha em cruzar o Atlântico.
Ao mesmo tempo, a presença crescente de brasileiros em Portugal ocorre em um cenário de denúncias de xenofobia em alta, pressão sobre serviços públicos e debates sobre moradia e trabalho precário. Entre 2017 e 2022, denúncias de xenofobia contra brasileiros cresceram 833%, justamente quando a comunidade brasileira se consolidou como a maior população estrangeira do país, representando algo entre 4% e 8% dos residentes, segundo estimativas oficiais.
Passeatas, slogans e brasileiros na linha de frente

Em Lisboa, uma das cenas mais recorrentes é a de manifestações do Chega em locais simbólicos, como o Largo da Graça, próximo a um dos miradouros mais conhecidos da capital.
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Ali, brasileiros em Portugal aparecem dando entrevistas, empunhando bandeiras, defendendo o partido e repetindo que não se trata de ser contra a imigração, mas contra uma imigração sem organização, sem controle e sem critérios claros.
Sandra, que se declara conservadora e diz viver há 22 anos em Portugal, sintetiza esse argumento ao afirmar que o Chega é o partido que representa as causas que ela defende, especialmente na agenda de costumes.
Para esse grupo de apoiadores, a pauta de endurecimento migratório se combina com um discurso forte de combate à esquerda, à corrupção e à suposta permissividade do sistema político português.
Conservadorismo, família e ruptura com a esquerda brasileira

Entre os rostos mais frequentes nas manifestações está Cibelli, pernambucana que se apresenta como uma das primeiras militantes do Chega no país, com o número 501 de filiação.
Ela guarda material de campanha desde 2019, ano da fundação do partido, e exibe panfletos de eleições anteriores como prova da proximidade ideológica com a sigla.
Cibelli descreve uma trajetória de ruptura com a esquerda brasileira que apoiava na adolescência e afirma que hoje se identifica com o conservadorismo do Chega, especialmente na defesa da família e na rejeição à chamada “doutrinação” de crianças em temas de sexualidade e identidade.
Na leitura desses brasileiros em Portugal, o Estado e a escola não devem interferir na educação moral dos filhos, reforçando uma agenda de costumes alinhada ao bolsonarismo e a líderes da direita cristã internacional.
Pontes com o bolsonarismo e a direita global
O vínculo entre o Chega e o bolsonarismo foi consolidado nos últimos anos.
O partido português se aproximou de apoiadores de Jair Bolsonaro que vivem em Portugal, convocou manifestações contra visitas do presidente Lula ao país e levou militantes a tumultuar sessões no parlamento durante discursos do líder brasileiro.
André Ventura, líder do Chega e ex-seminarista, se apresenta como figura de forte apelo cristão, com traços de messianismo político.
O discurso guarda semelhanças com narrativas de Donald Trump e Bolsonaro, usando indignação moral, frases dramáticas e confrontação direta à esquerda.
Brasileiros em Portugal que apoiam o partido veem em Ventura um porta-voz do conservadorismo cristão, do combate à corrupção e da defesa de uma ordem social mais rígida, inclusive na imigração.
Eleitorado brasileiro cobiçado e o paradoxo da pauta migratória
O Chega não esconde que mira diretamente o voto de brasileiros em Portugal que adquiriram cidadania ou igualdade de direitos políticos.
Marcos Santos, brasileiro que ocupa a vice-presidência do partido no Porto, é um exemplo dessa estratégia, buscando luso-brasileiros que afirmam não depender de apoio do Estado e se consideram trabalhadores “corretos”.
Especialistas em política portuguesa apontam um paradoxo: brasileiros em Portugal, alvo frequente de xenofobia e discurso anti-imigrante, passam a apoiar um partido que pede controle rígido da imigração e reforça a ideia de que o país está “cheio demais”.
Um dos argumentos usados por militantes é o de que a restrição serviria para evitar sobrecarga em moradia, saúde, educação e assistência social, preservando as condições para quem já está instalado e integrado.
Xenofobia em alta e o discurso do inimigo externo
A escalada de denúncias de xenofobia contra brasileiros, que aumentaram 833% entre 2017 e 2022, ocorre em um contexto de atmosfera de indignação contra imigrantes em várias cidades portuguesas.
Em Braga, no norte, onde há alta concentração de brasileiros, surgem comparações incômodas feitas por pesquisadores: o discurso de que imigrantes são indispensáveis para a economia, mas indesejados socialmente, ecoa argumentos usados no Brasil escravocrata contra a abolição.
Ao mesmo tempo, o Chega e setores da extrema direita europeia reforçam a figura do “inimigo externo” ligado ao islã. Brasileiros em Portugal são apresentados como imigrantes culturalmente próximos aos portugueses, em contraste com migrantes de países de maioria muçulmana.
Mesmo com uma comunidade islâmica pequena no país, a retórica da “islamização” e da ameaça religiosa é usada como eixo mobilizador para unir grupos conservadores, inclusive brasileiros evangélicos.
Números da imigração e pressão sobre o mercado de trabalho
Dados oficiais indicam que Portugal contava, em 2022, com cerca de 800 mil estrangeiros de fora da União Europeia em situação legal, o dobro de uma década antes.
A maioria é de brasileiros, seguidos por cidadãos do Reino Unido, Cabo Verde, Itália e Índia.
Com a saída de muitos portugueses para outros países, o mercado de trabalho nacional passou a depender de mão de obra imigrante para funções desqualificadas e serviços básicos.
Especialistas lembram que o volume de entradas não é apenas resultado de “portas abertas”, mas da própria estrutura econômica: o mercado de trabalho português, com salários baixos e necessidade de trabalhadores, puxa imigrantes para setores onde a população local não quer ou não consegue suprir a demanda.
Nessa lógica, o controle de imigração defendido pelo Chega e por parte dos brasileiros em Portugal simplifica uma dinâmica complexa, em que o país precisa dos estrangeiros que critica publicamente.
Críticas internas, templos evangélicos e resistências ao Chega
Nem todos os brasileiros em Portugal embarcam no projeto de Ventura.
Em templos evangélicos de Lisboa, fiéis relatam conhecer muitos bolsonaristas que apoiam o Chega, mas rejeitam a ideia de que um partido seja capaz de “salvar” um país com problemas estruturais de orçamento, serviços públicos e salários.
Para esses críticos, o Chega trabalha com ilusão e promete soluções rápidas para questões que exigem reformas demoradas e pactos amplos.
Eles reconhecem a existência de discriminação e xenofobia, mas temem que um discurso mais duro contra imigrantes apenas legitime hostilidades contra comunidades já vulneráveis.
Essa resistência interna mostra que o grupo de brasileiros em Portugal alinhado ao Chega é barulhento e visível, mas não necessariamente majoritário dentro da comunidade.
Brasileiros em Portugal entre voz política e porta estreita
No centro desse cenário, brasileiros em Portugal se tornam simultaneamente os alvos e os porta-vozes de um projeto que promete controlar com mais força a imigração.
Ao defender o Chega nas ruas, nas igrejas e nas redes, esse grupo tenta se separar da imagem de imigrante problemático e se apresentar como parte da “gente de bem” que quer ordem, família e fronteiras mais fechadas.
A pergunta que fica para analistas é se essa aposta política resultará em maior inclusão e segurança para quem já está estabelecido ou se, ao contrário, ajudará a consolidar um ambiente mais hostil a todos os recém-chegados, incluindo brasileiros que ainda pensam em migrar.
Num país em que a comunidade brasileira é numerosa, diversa e, muitas vezes, alvo direto de preconceito, o alinhamento com uma agenda de controle duro da imigração pode ter efeitos difíceis de reverter.
Na sua opinião, brasileiros em Portugal que apoiam o Chega estão protegendo sua posição no país ou contribuindo para um cenário em que a porta ficará ainda mais estreita para novos imigrantes, inclusive brasileiros?


We have seen similar in UK. With sons and daughters of immigrants supporting or even proposing anti immigrant policy. The chair of “Reform Ltd” is Muhammad Yusuf, but he dare not use his real name (opting for ‘Zia’) or walk through a crowd of his own supporters in casual attire.
It’s a very weird version of Stockholm syndrome, and deluded to think the rhetoric is real.
In both UK and Portugal immigrants add substantially more into the tax system than they take out, yet all we hear is “Immigrant moochers”.
Quando pessoas são desinformadas, ignorantes, alienadas, egoístas, sem cultura, sem educação, individualistas, desrespeitosas, elas serão assim em qualquer lugar.
Muito sábias suas palavras, caro Adriano. Disse tudo.