Estudos indicam que alimentos ultraprocessados e aditivos alimentares podem alterar a microbiota intestinal e impactar a saúde.
Pesquisas científicas recentes indicam que alimentos ultraprocessados ricos em aditivos alimentares, especialmente emulsificantes alimentares, podem afetar diretamente a microbiota intestinal, conjunto de microrganismos que vivem no intestino humano e desempenham papel essencial na saúde intestinal.
O tema tem ganhado atenção de pesquisadores da Europa, Austrália e Estados Unidos, principalmente após novos estudos associarem esses ingredientes comuns da indústria alimentícia a inflamações, alterações metabólicas e doenças digestivas.
Esses compostos estão presentes em milhares de produtos industrializados consumidos diariamente, como pães, sorvetes, molhos prontos e sobremesas.
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Eles são usados para melhorar textura, sabor e conservação dos alimentos. No entanto, evidências científicas apontam que o consumo frequente pode interferir no equilíbrio das bactérias intestinais.
Segundo especialistas, entender como aditivos alimentares interagem com o organismo tornou-se uma das principais fronteiras da ciência da nutrição.
O que é a microbiota intestinal e por que ela é tão importante
A microbiota intestinal é formada por trilhões de microrganismos que vivem no trato digestivo.
Esse ecossistema microscópico participa de funções essenciais do organismo, incluindo digestão, imunidade e até regulação do humor.
A epidemiologista nutricional Melissa Lane, da Universidade Deakin, na Austrália, compara esse sistema a um ambiente natural complexo.
“Você pode comparar a diversidade intestinal a uma floresta”, explica a epidemiologista nutricional Melissa Lane, da Universidade Deakin, na Austrália.
Segundo ela, quanto maior a diversidade de microrganismos presentes no intestino, maior tende a ser a resistência do organismo a doenças e inflamações.
“Quanto mais micróbios você tiver na sua floresta, de mais tipos diferentes, maior será a sua resiliência a eventuais perturbações.”
Estudos indicam que pessoas com menor diversidade bacteriana apresentam maior risco de inflamações, problemas digestivos e distúrbios do sono.
Já microbiomas mais diversos têm sido associados à longevidade.
A professora de nutrição Sarah Berry, do King’s College de Londres, resume a importância desse sistema.
“É todo um ecossistema”, explica a professora de nutrição Sarah Berry, do King’s College de Londres. “É como um órgão a mais que temos no nosso corpo.”
Como os alimentos ultraprocessados podem afetar a microbiota intestinal
Nos últimos anos, cientistas passaram a investigar como alimentos ultraprocessados interferem na saúde intestinal.
Esses produtos geralmente contêm diversos aditivos alimentares, como corantes, adoçantes artificiais e emulsificantes alimentares.
Os emulsificantes são substâncias que permitem misturar água e gordura, criando texturas mais homogêneas e aumentando o tempo de conservação dos alimentos.
Eles são responsáveis, por exemplo, pela cremosidade do sorvete ou pela maciez prolongada de pães e bolos industrializados.
Uma análise realizada em supermercados do Reino Unido identificou 6.640 produtos contendo emulsificantes alimentares, o que representa cerca de metade dos itens avaliados.
Apesar da utilidade tecnológica, pesquisadores começaram a investigar possíveis impactos desses compostos na microbiota intestinal.
Emulsificantes alimentares podem provocar inflamação intestinal
Um dos estudos mais citados sobre o tema foi conduzido pelo microbiologista Benoit Chassaing, do Instituto Pasteur, na França.
Então em experimentos com camundongos, baixas doses de dois emulsificantes alimentares comuns fizeram com que bactérias intestinais se aproximassem da parede do intestino, desencadeando inflamação e sinais de doença.
Normalmente, uma camada de muco protege o intestino e mantém os microrganismos a uma distância segura da parede intestinal.
Quando essa barreira é comprometida, as bactérias podem penetrar no tecido intestinal.
Segundo Chassaing, esse processo pode desencadear doenças inflamatórias crônicas.
Estudos com humanos apontam possíveis riscos metabólicos
Além de pesquisas em animais, estudos populacionais também levantaram alertas sobre os efeitos de aditivos alimentares na saúde intestinal e metabólica.
Um estudo francês com mais de 100 mil adultos, realizado em 2024, identificou que pessoas com maior consumo de emulsificantes apresentaram maior risco de desenvolver diabetes tipo 2.
Outra pesquisa envolvendo mais de 90 mil participantes encontrou possíveis associações entre emulsificantes e maior incidência de câncer de mama e próstata.
Embora esses resultados indiquem correlação — e não causalidade direta —, eles reforçam a necessidade de investigações mais aprofundadas.
Então em um pequeno estudo clínico com seres humanos, os pesquisadores também observaram alterações negativas na microbiota intestinal após o consumo de um emulsificante usado como espessante alimentar.
Dieta rica em alimentos ultraprocessados reduz diversidade intestinal
Outro experimento importante foi conduzido pela equipe de Melissa Lane.
Os pesquisadores compararam dois grupos durante três semanas. Ambos seguiram dietas com calorias e nutrientes semelhantes.
A diferença estava no nível de processamento dos alimentos.
Um grupo consumiu principalmente shakes, sopas e barras industrializadas — típicos alimentos ultraprocessados. Então o outro seguiu uma alimentação baseada em ingredientes frescos e minimamente processados.
Embora ambos tenham perdido peso, os resultados na microbiota intestinal foram bastante diferentes.
O grupo com dieta menos processada apresentou microbioma mais diversificado e melhor saúde intestinal.
Já os participantes que consumiram mais ultraprocessados relataram maior incidência de prisão de ventre, além de inchaço e desconforto abdominal.
Segundo Lane, a diferença pode estar relacionada ao tipo de fibras presentes nos alimentos.
“A dieta com maior teor de alimentos ultraprocessados continha misturas de aditivos e quantidades muito menores de ingredientes minimamente processados, enquanto a dieta com baixo teor de ultraprocessados continha muitos tipos diferentes de fibras, provenientes de alimentos integrais, e muito menos aditivos”, explica ela.
O “efeito coquetel” dos aditivos alimentares
Outro desafio para os cientistas é entender o chamado efeito coquetel.
Esse termo descreve a interação entre diferentes aditivos alimentares consumidos ao mesmo tempo.
Como milhares de combinações são possíveis na alimentação moderna, torna-se difícil identificar qual ingrediente específico pode causar determinado efeito.
Mesmo assim, estudos laboratoriais já indicam que combinações de aditivos podem aumentar danos celulares.
Além disso, especialistas destacam que muitos desses compostos foram avaliados apenas quanto à toxicidade direta.
“Eles só são testados em relação ao seu efeito de toxicidade ou à capacidade de induzir danos ao DNA”, explica Chassaing.
“E, nestes dois aspectos, eles são perfeitamente aceitáveis. Mas eles nunca foram testados para determinar o efeito direto sobre a microbiota.”
Como proteger a saúde intestinal na prática
Assim, apesar das preocupações, especialistas não recomendam eliminar completamente todos os alimentos industrializados.
Para Kevin Whelan, professor de dietética do King’s College de Londres, o mais importante é manter equilíbrio alimentar.
“Eu não gostaria de dizer ao público em geral ‘nunca coma nada que tenha um aditivo alimentar incluído'”, explica ele. “Eu certamente não faço isso e não recomendo às pessoas.”
Por outro lado, aumentar o consumo de alimentos frescos pode beneficiar diretamente a microbiota intestinal.
Dietas ricas em fibras, frutas, vegetais e compostos antioxidantes — como os polifenóis — ajudam a nutrir as bactérias benéficas do intestino.
Sarah Berry destaca que cozinhar mais em casa pode ser uma estratégia simples.
Portanto ao preparar refeições com ingredientes naturais reduz a ingestão de alimentos ultraprocessados e, consequentemente, de emulsificantes alimentares.
Além disso, a moderação continua sendo um dos pilares da alimentação saudável.
Então no fim das contas, pequenos ajustes na rotina alimentar podem trazer benefícios importantes para a saúde intestinal e para o equilíbrio da microbiota que vive dentro de nós.
Veja mais em: Como os conservantes na sua comida afetam as bactérias do intestino – BBC News Brasil

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