Sem estudo formal e cavando buraco por buraco, Yacouba Sawadogo transformou terra estéril em floresta de 40 hectares e virou o homem que parou o deserto em Burkina Faso
Yacouba Sawadogo ficou conhecido internacionalmente como “o homem que parou o deserto” depois de recuperar uma área degradada no norte de Burkina Faso com uma técnica agrícola tradicional chamada zaï. De acordo com a Right Livelihood, ele começou esse trabalho por volta de 1980, em meio a uma fase de seca severa, e transformou uma terra antes abandonada em uma floresta de quase 40 hectares, com mais de 60 espécies de árvores e arbustos.
O caso ganhou relevância global porque Sawadogo não recorreu a máquinas sofisticadas nem a uma inovação industrial. Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP), ele adaptou a técnica zaï, ampliou a capacidade do solo de reter água e conseguiu melhorar a produtividade agrícola em uma região marcada por seca, erosão e avanço da desertificação.
Técnica zaï transformou solo endurecido em área fértil no Sahel
A técnica zaï consiste em abrir pequenas covas em solos degradados ou endurecidos para concentrar água e matéria orgânica no ponto em que a planta vai crescer. Segundo o UNEP, os agricultores colocam composto ou fertilizante natural nesses buracos, e Sawadogo aperfeiçoou o método com covas mais largas e profundas, pedras para ajudar na retenção da água e cupins para romper o solo compactado.
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Assim que a chuva chega, as sementes são plantadas nessas cavidades, que passam a concentrar umidade exatamente na raiz.
Esse sistema tem efeito direto sobre a produtividade. O UNEP afirma que estudos sobre o zaï indicam aumento de rendimento de 100% a 500%, justamente porque a técnica funciona como um funil que direciona a água da chuva para a planta em áreas de precipitação baixa e irregular.
O peso da solução está no contraste entre simplicidade e resultado. Em vez de depender de grandes obras, Sawadogo mostrou que o manejo correto da água, da matéria orgânica e do solo podia restaurar áreas que já eram tratadas como improdutivas.
Seca devastadora nos anos 1980 empurrou famílias para fora da região
Segundo o Global Landscapes Forum, Yacouba Sawadogo nasceu por volta de 1946 na província de Yatenga, no norte de Burkina Faso, estudou em escola corânica no Mali e depois voltou para a região para trabalhar como vendedor em um mercado local. As secas severas no entorno de 1980 mudaram sua vida e marcaram o início da resposta que o tornaria referência internacional.

O mesmo perfil do Global Landscapes Forum relata que, quando a produção agrícola despencou e a fome atingiu a região, muitas pessoas deixaram as áreas rurais em busca de renda nas cidades. Sawadogo fez o contrário: voltou para sua aldeia e decidiu tentar recuperar uma terra que já era considerada perdida.
Essa escolha ajuda a explicar por que sua história ganhou tanta força. Em um cenário de colapso ambiental e abandono das lavouras, ele apostou em conhecimento local, trabalho manual intenso e persistência de longo prazo para enfrentar a desertificação no Sahel.
Floresta de 40 hectares virou prova concreta de que o deserto podia recuar
A Right Livelihood afirma que Sawadogo criou uma floresta de quase 40 hectares em uma área antes estéril e abandonada. Hoje, esse espaço reúne mais de 60 espécies de árvores e arbustos e é descrito pela fundação como possivelmente uma das florestas mais diversas plantadas e manejadas por um único agricultor na região do Sahel.
O UNEP confirma a dimensão dessa transformação ao registrar que, quatro décadas depois do início do trabalho, Sawadogo havia criado uma floresta de 40 hectares em sua propriedade, com mais de 60 espécies. O órgão também destaca que ele ficou conhecido localmente como o homem que parou o deserto.
A força do caso está no fato de que a floresta não surgiu como projeto estatal de grande escala, mas como resultado de uma intervenção contínua no solo. Buraco por buraco, árvore por árvore, Sawadogo demonstrou que áreas degradadas ainda podiam voltar a produzir e a reter vida.
Conhecimento de Yacouba Sawadogo se espalhou por aldeias e cruzou fronteiras
O trabalho deixou de ser uma experiência isolada e passou a atrair outros agricultores. Segundo o Global Landscapes Forum, Sawadogo começou a organizar encontros em sua terra em 1984 para compartilhar a técnica, e esses eventos cresceram até reunir representantes de mais de 100 aldeias em dias de mercado.
O avanço da prática também aparece nas informações do UNEP. A agência afirma que a técnica de Sawadogo passou a ser usada por agricultores ao longo de uma faixa de 6 mil quilômetros na África, alcançando países do Sahel e avançando para lugares como Gana, Chade e Quênia.
O órgão também informa que o zaï está entre as práticas indígenas de uso da terra no centro do programa da Grande Muralha Verde, iniciativa africana de combate à degradação da terra, à desertificação e à seca.
O Global Landscapes Forum acrescenta que, até 2016, a técnica já havia ajudado a restaurar a capacidade produtiva de dezenas de milhares de hectares nas províncias de Yatenga e Gourcy, em Burkina Faso. Isso mostra que o impacto de Sawadogo não ficou restrito à própria floresta: ele ajudou a criar um modelo replicável de regeneração em área semiárida.
Prêmios internacionais transformaram agricultor de Burkina Faso em símbolo ambiental
O reconhecimento internacional veio depois de décadas de trabalho. A Right Livelihood registrou que Sawadogo recebeu o prêmio em 2018 pela transformação de terra estéril em floresta e por demonstrar como agricultores podem regenerar o solo com uso inovador de conhecimento indígena e local.
O UNEP informa que ele foi um dos laureados do Champions of the Earth 2020, principal honraria ambiental das Nações Unidas, e destacou sua atuação como exemplo de restauração ecológica liderada por comunidades. Já o Global Landscapes Forum lembra que sua trajetória também virou o documentário The Man Who Stopped the Desert, lançado em 2010 e premiado no ano seguinte.

A própria página atual da Right Livelihood identifica Yacouba Sawadogo como 1946-2023, o que confirma sua morte em 2023. O legado, porém, permanece no solo recuperado, na floresta criada em Burkina Faso e na difusão da técnica zaï como resposta concreta à desertificação em uma das regiões mais vulneráveis do planeta.


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