Ivan Ivanovich, o manequim soviético que voou ao espaço antes de Yuri Gagarin, testou a Vostok e ajudou a tornar possível o primeiro voo humano da história.
Segundo a Discover Magazine, em 25 de março de 1961, uma cápsula soviética caiu perto de Perm, na então União Soviética, e antes do impacto um assento ejetável lançou ao solo um passageiro que parecia humano. Quando as equipes de recuperação chegaram, encontraram uma figura imóvel sobre a neve, com aparência assustadoramente real. Não era um cosmonauta morto. Era Ivan Ivanovich, um manequim humanoide construído para testar a nave Vostok antes do voo histórico de Yuri Gagarin.
A missão era mais séria do que a aparência quase grotesca do boneco sugeria. A Discover Magazine relata que Ivan voou ao espaço pela primeira vez em 9 de março de 1961, na Korabl-Sputnik 4, e novamente em 25 de março, na Korabl-Sputnik 5. Apenas 18 dias depois, em 12 de abril de 1961, Yuri Gagarin embarcaria na Vostok 1 e se tornaria o primeiro ser humano no espaço.
Ivan Ivanovich foi criado porque a nave Vostok não pousava suavemente
Segundo a Discover Magazine, a nave Vostok tinha uma limitação crítica: ela não pousava de forma suave no solo. Depois da reentrada, a cápsula basicamente caía, e por isso o sistema previa que o ocupante se ejetasse antes do impacto final e descesse separadamente de paraquedas.
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Isso tornava indispensável um teste com algo que tivesse peso, forma e distribuição de massa semelhantes aos de um ser humano real. Ivan Ivanovich foi construído justamente para isso. Ele foi vestido com traje de cosmonauta e lançado como se fosse o ocupante verdadeiro da missão.
A semelhança era tão realista que os soviéticos temeram a reação de civis que o encontrassem após o pouso. Por isso, segundo a Discover Magazine, a palavra “МАКЕТ”, que significa “maquete” em russo, foi colocada sob a viseira do capacete e também marcada em seu corpo para evitar que fosse confundido com um cadáver ou algo ainda mais estranho.
O boneco soviético transmitia coro e receita de sopa para não parecer um cosmonauta secreto
Um dos detalhes mais curiosos da história de Ivan Ivanovich está nas comunicações de rádio. Segundo a Discover Magazine, os engenheiros soviéticos precisavam testar o sistema de transmissão de voz da cápsula, mas não queriam que radioamadores interceptassem o sinal e concluíssem que havia um cosmonauta secreto a bordo.

A solução foi deliberadamente absurda. Em vez de transmitir uma voz humana falando normalmente, os soviéticos colocaram dentro de Ivan uma gravação de um coro cantando. A lógica era simples: ninguém acreditaria que um único cosmonauta sozinho estivesse emitindo um coro inteiro do espaço.
No segundo voo, os engenheiros ampliaram a brincadeira técnica e incluíram também uma gravação com uma receita de sopa de repolho. O objetivo continuava o mesmo: testar o rádio sem alimentar rumores de um voo humano encoberto antes do anúncio oficial.
Ivan Ivanovich voou com cães, camundongos e experimentos biológicos dentro da cápsula
Segundo a Discover Magazine, Ivan não viajou sozinho. Na missão de 9 de março de 1961, ele foi acompanhado pela cadela Chernushka, por 40 camundongos pretos, 40 camundongos brancos, cobaias, répteis, sementes, amostras de sangue humano, células cancerígenas humanas, microrganismos, bactérias e amostras de fermentação.
No voo de 25 de março, a companheira canina foi Zvyozdochka, cujo nome pode ser traduzido como “Estrelinha”. A missão era um ensaio geral completo. Ivan testava a ejeção e o pouso separado, enquanto os animais e materiais biológicos ajudavam a validar o sistema de suporte de vida e os efeitos do voo espacial em organismos vivos.
Esses dois voos foram decisivos porque mostraram que a nave estava pronta para carregar um humano. Segundo a Discover Magazine, os sistemas de suporte de vida, controle ambiental, telemetria e mecanismo de ejeção funcionaram, removendo as principais incertezas antes da missão que levaria Gagarin ao espaço.
O voo do manequim soviético – Ivan Ivanovich abriu caminho direto para Yuri Gagarin 18 dias depois
A proximidade entre o último teste com Ivan e a missão de Gagarin mostra o quão acelerada estava a corrida espacial naquele momento. Segundo a Discover Magazine, a Korabl-Sputnik 5 usou hardware essencialmente equivalente ao da Vostok 1, completou uma órbita da Terra e retornou com sucesso.
Quando tudo funcionou, os soviéticos ganharam a confirmação final de que o sistema estava pronto para um cosmonauta de verdade. O que Ivan fez em março foi exatamente o que Gagarin faria em abril: voar em órbita, reentrar, se ejetar da cápsula e pousar separadamente de paraquedas.
Isso transforma Ivan Ivanovich em muito mais do que uma curiosidade bizarra da corrida espacial. Ele foi o último ensaio técnico bem-sucedido antes do voo humano mais importante do século XX, o teste silencioso que abriu a porta para o nome que entraria para a história.
Décadas depois, Ivan Ivanovich saiu do segredo soviético e foi vendido em leilão
Durante décadas, Ivan Ivanovich permaneceu cercado por sigilo. Depois que sua história se tornou pública, ele acabou ganhando um destino improvável. Segundo a Sotheby’s, o manequim foi consignado pela Zvezda e vendido no leilão Russian Space History, em 11 de dezembro de 1993.

A mesma página da Sotheby’s informa que Ivan Ivanovich ficou em exibição no Smithsonian National Air and Space Museum a partir de 1997, já transformado em peça histórica de um programa espacial que durante anos tentou ocultar sua própria existência.
O boneco que foi lançado com cães, roedores e gravações de coro, que caiu na neve soviética e que ajudou a validar a Vostok antes de Gagarin, terminou sua trajetória como relíquia pública da corrida espacial. A história mais estranha do primeiro voo humano ao espaço talvez comece justamente com alguém que nem humano era.


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