Mesmo sendo o maior produtor e exportador global de soja, o Brasil passou a importar volumes recordes do grão paraguaio, movimento que revela pressões de custo, arbitragem de preços e dificuldades crescentes enfrentadas pelo produtor nacional
O Brasil é, com ampla vantagem, o maior produtor e exportador de soja do mundo. Ainda assim, um dado recente chama a atenção do mercado agrícola e levanta questionamentos relevantes sobre a dinâmica do setor: o país aumentou em 472% as importações de soja do Paraguai entre 2023 e 2025. O movimento parece contraditório à primeira vista, mas, quando analisado em profundidade, revela uma combinação de custos elevados, gargalos logísticos e limites de preço impostos pela própria estrutura do mercado.
Segundo dados do sistema Agrostat, da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as importações brasileiras de soja paraguaia saltaram de 176,1 mil toneladas para 1,007 milhão de toneladas no período analisado. A informação foi divulgada pelo Canal Rural, em artigo assinado pelo comentarista de Economia e Política Miguel Daoud, que acompanha de perto as transformações estruturais do agronegócio brasileiro.
Apesar de o Paraguai ocupar apenas a sexta posição no ranking global de produção de soja — com cerca de 10 milhões de toneladas por safra —, o país vizinho vem se consolidando como uma alternativa competitiva para a indústria brasileira, especialmente nos momentos em que o preço interno se afasta da paridade internacional.
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Importação cresce não por falta de soja, mas por custo mais baixo
É importante destacar, antes de tudo, que o aumento das importações não está relacionado à escassez de soja no Brasil. Ao contrário disso, o país segue colhendo safras volumosas. O fator decisivo, segundo a análise de Miguel Daoud, está na diferença de custos de produção e logística entre os países.
As esmagadoras brasileiras passaram a buscar soja fora do país porque, em determinados momentos, a soja importada chega mais barata do que a nacional, mesmo após a inclusão de frete, taxas e custos de internalização. Esse cenário ocorre, sobretudo, quando o preço interno tenta subir acima do nível internacional para compensar o aumento dos custos enfrentados pelo produtor brasileiro.
Além disso, países vizinhos como o Paraguai — e, em algumas ocasiões, a Argentina — operam com uma estrutura de custos mais enxuta, combinando menor carga financeira, logística mais eficiente e menor pressão sobre arrendamentos de terra. Com isso, a indústria utiliza a importação como uma válvula de contenção de preços, impedindo altas mais acentuadas no mercado doméstico.
Na prática, sempre que o mercado interno tenta sustentar preços mais elevados, a possibilidade de importar soja mais barata atua como um teto, limitando a valorização do grão no Brasil.
Preço alto não é sinônimo de lucro no campo brasileiro
Esse movimento desmonta uma ideia frequentemente repetida por quem não conhece a realidade do agronegócio: a de que o produtor brasileiro estaria “ganhando muito” apenas porque o preço da soja sobe em determinados períodos. Conforme explica Miguel Daoud, em análise publicada no Canal Rural, essa leitura é simplista e não reflete o que ocorre no campo.
O que se observa atualmente é um cenário de custos elevados, margens comprimidas e pressão financeira crescente, mesmo quando os preços nominais parecem mais altos. Produzir soja no Brasil ficou significativamente mais caro nos últimos anos.
Os juros elevados encarecem o capital de giro e o financiamento da safra. A logística, por sua vez, pesa no custo final, tanto no frete quanto na armazenagem. Além disso, o câmbio influencia diretamente o preço dos insumos, muitos deles dolarizados, como fertilizantes e defensivos agrícolas.
Como resultado, o aumento do preço interno da soja não representa, necessariamente, ganho real para o produtor. Em muitos casos, trata-se apenas de uma reação do mercado para tentar cobrir custos mais altos, sem gerar expansão efetiva de margem.
Arrendamentos rígidos travam a margem do produtor
Um dos fatores estruturais mais relevantes nesse contexto é o peso dos arrendamentos de terra. Uma parcela expressiva dos produtores brasileiros cultiva em áreas arrendadas, o que impõe um custo fixo elevado e inflexível.
Nesse modelo, o valor do arrendamento precisa ser pago independentemente do preço da soja, das condições climáticas ou da produtividade da safra. Isso cria um piso de custo rígido, que reduz drasticamente a capacidade de ajuste do produtor em cenários adversos.
Quando juros, logística e arrendamento sobem simultaneamente, o preço interno reage para tentar cobrir despesas, não para ampliar rentabilidade. O resultado é um preço mais alto “no papel”, mas margem apertada na prática.
Essa realidade ajuda a explicar por que, apesar da liderança global na produção, o Brasil vê crescer a inadimplência no campo e os pedidos de recuperação judicial entre produtores rurais. Se a rentabilidade estivesse realmente elevada, esse movimento não estaria ocorrendo.
O que existe hoje, como ressalta Miguel Daoud em sua análise no Canal Rural, é um produtor pressionado entre custos rígidos e um teto de preços imposto pela arbitragem via importação. Não se trata de distorção, mas do funcionamento da economia, com o produtor arcando com a maior parte do ajuste.
O Brasil conseguirá manter sua liderança global na produção de soja se os custos internos continuarem empurrando a indústria a buscar o grão cada vez mais fora do país?

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