Com 90 anos de história e capital 100% brasileiro, o Grupo Zaffari usa a experiência acumulada em supermercados para disputar o bilionário mercado de shoppings. A rede gaúcha faturou R$ 8,8 bilhões só com mercados em 2025 e aposta no varejo de proximidade para enfrentar grandes administradoras nacionais.
O segredo do Grupo Zaffari para encarar os gigantes dos shoppings não está em copiá-los, e sim em algo que a rede gaúcha faz há nove décadas: operar supermercados. Segundo reportagem da Exame, a companhia transformou o conhecimento acumulado na compra do mês em uma estratégia para competir em um dos mercados mais concentrados do país.
A lógica é simples de enunciar, mas difícil de copiar. Em vez de tratar o supermercado apenas como uma âncora para gerar fluxo, o Zaffari o coloca no centro da experiência do shopping, apostando que o consumidor moderno quer resolver várias tarefas em um único lugar. Foi essa visão de varejo que ajudou a rede a se diferenciar em um setor dominado por grandes administradoras.
Uma rede gaúcha de 90 anos que virou força nacional
Com 90 anos de história e capital totalmente brasileiro, o Grupo Zaffari emprega cerca de 12 mil funcionários e opera 43 lojas no Rio Grande do Sul e em São Paulo, contando supermercados, atacarejos e shoppings. É uma estrutura construída ao longo de décadas, com o varejo alimentar sempre no coração do negócio.
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Os números reforçam o peso da operação. A companhia encerrou 2025 com faturamento de R$ 8,8 bilhões apenas na atividade supermercadista, segundo ranking da Associação Gaúcha de Supermercados (Agas). A receita gerada pelos shoppings não é divulgada pela empresa, mas a base de tudo continua sendo a venda de produtos nas prateleiras dos mercados.
A entrada em São Paulo como um grande teste
Quando o Zaffari chegou a São Paulo, em 2008, o movimento parecia apenas a expansão natural de uma rede do Sul. Quase 20 anos depois, o diretor Claudio Luiz Zaffari revelou à Exame que havia um objetivo maior por trás: testar, em outro estado, um modelo de shopping construído a partir da lógica de varejo dos próprios supermercados.
O palco escolhido foi um imóvel histórico no bairro Pompeia. O antigo Shopping Matarazzo, erguido nos anos 1970 e ligado à antiga zona industrial da cidade, havia sido comprado pelo grupo no fim dos anos 1990. Depois de mais de uma década de planejamento e obras, nasceu o Bourbon Shopping São Paulo, com o supermercado Zaffari como âncora principal, um traço que ajudaria a diferenciar o grupo no mercado paulista.
Um shopping desenhado a partir do consumidor
A transformação do Bourbon São Paulo começou muito antes da inauguração. Foram 11 anos entre a aquisição do antigo empreendimento e a abertura, em março de 2008. O projeto ampliou uma estrutura de cerca de 40 mil metros quadrados para um complexo de 200 mil metros quadrados de área construída, hoje com 44,6 mil metros quadrados de área bruta locável, 200 lojas e fluxo médio de 1,2 milhão de pessoas por mês.
Mais do que tamanho, a aposta foi de leitura de futuro. Zaffari afirma que não bastava fazer um shopping para o dia da inauguração, e sim entender o que aquela comunidade precisaria dali em diante, acompanhando a transformação da Pompeia em um dos polos mais valorizados da zona oeste. Para conquistar o público paulista, o grupo levou seu DNA de supermercados, com forte valor ao produto, ao atendimento e ao ambiente, e somou conveniência, serviços e entretenimento.
A gastronomia e o entretenimento como diferenciais
Adaptar-se a São Paulo exigiu ir além do supermercado. O grupo instalou no empreendimento o Teatro Bradesco, com 1.439 lugares, e a primeira sala IMAX do Brasil, apostando que cultura e lazer fariam parte da rotina de quem frequenta o espaço. A intenção era que a pessoa não fosse apenas fazer uma compra, mas resolver vários aspectos do dia.
A gastronomia virou outro pilar. Segundo Zaffari, o paulista tem uma relação intensa com restaurantes e com o hábito de comer fora, o que exigia uma oferta diferente da dos shoppings gaúchos. Hoje, ao lado dos supermercados, o complexo reúne casas como Outback, Coco Bambu, Abbraccio, Almanara e Andiamo, além de marcas de moda e varejo como Zara, Renner, C&A, Sephora e Fast Shop.
Um setor bilionário e altamente concentrado
O mercado em que o Zaffari decidiu apostar movimenta cifras enormes. Segundo a Associação Brasileira de Shopping Centers (Abrasce), o setor faturou R$ 200,9 bilhões em 2025, o maior volume já registrado, com 658 empreendimentos em operação, 18,3 milhões de metros quadrados de área bruta locável e cerca de 471 milhões de visitantes por mês.
Esse é um terreno dominado por grandes grupos como Iguatemi, Multiplan e Allos, donos de alguns dos principais ativos do país. É contra esse pelotão que a rede gaúcha decidiu competir, não pela quantidade de metros quadrados, mas pela experiência acumulada em supermercados e pelo entendimento do comportamento de quem faz a compra do mês.
A lógica do supermercado dentro do shopping

A grande diferença do modelo Zaffari está em como ele enxerga o papel do mercado. Em muitos grupos do setor, o supermercado é só uma âncora para atrair gente. No Zaffari, ele é parte central da proposta de valor. Para o diretor, a combinação entre mercado e shopping responde a uma mudança no comportamento do consumidor, que tem pouco tempo e quer encontrar supermercado, farmácia, alimentação, serviços e lazer no mesmo lugar.
Esse conceito reaparece nos novos projetos da companhia. O Bourbon Carlos Gomes, inaugurado no ano passado em Porto Alegre, segue a mesma linha ao reunir supermercados, lojas, restaurantes e torres corporativas. Para Zaffari, não existe fórmula pronta: cada local pede uma leitura própria do entorno e da comunidade que vive ali. Hoje, o grupo administra 14 shoppings, sendo 12 com a bandeira Bourbon, além do Moinhos Shopping e do Shopping CenterLar.
Expansão e a disputa por espaço na Pompeia
A consolidação do Bourbon São Paulo abriu caminho para novos passos. A companhia comprou mais de 20 terrenos na região e prepara uma expansão do complexo, com espaços comerciais do outro lado da avenida Palestra Itália, ligados ao shopping por uma passarela. O movimento mostra a ambição do grupo de qualificar toda a área no entorno.
O plano envolve até um símbolo do bairro: a tradicional Pastelaria Brasileira, fundada em 1975 e conhecida pela movimentação em dias de jogos do Palmeiras no Allianz Parque. Para viabilizar a obra, o Zaffari negociou uma permuta, e o estabelecimento ganhará uma nova unidade maior a poucos metros do endereço atual, preservando a operação no bairro. Para o executivo, shopping não vive do que fez ontem, e precisa se reinventar todo dia, o mesmo princípio que rege seus supermercados.
Agora queremos saber a sua opinião. Você prefere shoppings com supermercado integrado, que resolvem tudo em um lugar só, ou acha esse modelo cansativo? Marcas regionais como o Zaffari conseguem mesmo encarar os gigantes nacionais?
Comente aqui embaixo o que você pensa, conte como é a sua relação com os supermercados e compartilhe esta matéria com quem acompanha o varejo brasileiro.

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