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País africano mobiliza estudantes, servidores públicos e comunidades religiosas em mutirão gigante, planta 350 milhões de árvores em apenas 12 horas, supera recorde mundial e agora mira 50 bilhões de mudas em 2026 para recuperar florestas que encolheram de 35% para apenas 4% do território

Escrito por Ana Alice
Publicado em 13/06/2026 às 16:45
Atualizado em 13/06/2026 às 16:47
Etiópia plantou 350 milhões de árvores em 12 horas e mira 50 bilhões de mudas para recuperar florestas e conter a desertificação no país. (Imagem: Ilustrativa)
Etiópia plantou 350 milhões de árvores em 12 horas e mira 50 bilhões de mudas para recuperar florestas e conter a desertificação no país. (Imagem: Ilustrativa)
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Em meio ao avanço da desertificação e à pressão sobre áreas agrícolas, a Etiópia transformou o reflorestamento em uma política nacional de grande escala, com metas bilionárias e mobilizações públicas acompanhadas por organismos internacionais.

A restauração de florestas tornou-se uma das principais apostas da Etiópia para recuperar solos degradados, reduzir os efeitos da desertificação e ampliar a capacidade do país de enfrentar eventos climáticos extremos.

Dentro dessa estratégia, o governo etíope colocou em prática o Green Legacy, programa nacional que combina plantio de mudas, recuperação de paisagens, conservação de água e proteção de áreas vulneráveis.

Um dos episódios mais conhecidos dessa política ocorreu em julho de 2019, quando a Etiópia anunciou o plantio de mais de 350 milhões de mudas em 12 horas durante uma mobilização realizada em mais de mil pontos do país.

A ação foi apresentada pelo governo etíope como parte de uma campanha para recuperar áreas degradadas, reduzir a erosão do solo e enfrentar os efeitos da desertificação.

Segundo o Fórum Econômico Mundial, o resultado superou a meta inicial, que era plantar 200 milhões de mudas em um único dia.

A marca também ficou acima do recorde atribuído à Índia, que havia plantado 66 milhões de árvores em 12 horas em 2017, de acordo com a mesma entidade.

O mutirão envolveu voluntários, servidores públicos, estudantes, comunidades religiosas e moradores de diferentes regiões da Etiópia.

Em parte do país, aulas e expedientes foram suspensos para ampliar a participação da população durante a estação chuvosa, período considerado mais favorável ao plantio.

Green Legacy levou reflorestamento à escala nacional

O Green Legacy foi lançado pelo primeiro-ministro Abiy Ahmed Ali, que assumiu o governo etíope em 2018.

A proposta oficial reúne ações de reflorestamento, recuperação de paisagens degradadas, conservação de água, proteção do solo e plantio de espécies florestais, frutíferas, agroflorestais e ornamentais.

A campanha ganhou visibilidade internacional porque foi realizada em um país com histórico de secas, pressão sobre áreas rurais e forte dependência da agricultura.

Abiy Ahmed, primeiro-ministro do país, plantantou diversas árvores | Fotos: Divulgação Governo da Etiópia
Abiy Ahmed, primeiro-ministro do país, plantantou diversas árvores | Fotos: Divulgação Governo da Etiópia

A Etiópia tem mais de 120 milhões de habitantes, e boa parte da população depende direta ou indiretamente do campo para renda e alimentação.

Abiy Ahmed também passou a ter projeção internacional em 2019, quando recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

A premiação reconheceu os esforços de cooperação internacional e, em especial, a iniciativa para buscar uma solução ao conflito de fronteira entre Etiópia e Eritreia.

Perda de florestas ajuda a explicar a escala do programa

A perda de cobertura florestal é um dos fatores que ajudam a explicar a escala do programa.

Segundo levantamento citado pelo Fórum Econômico Mundial com base na organização Farm Africa, as florestas etíopes chegaram a cobrir cerca de 35% do território no início do século 20.

Em períodos posteriores, esse percentual caiu para menos de 4%.

Entre as causas apontadas estão a expansão agrícola, a extração de madeira, o crescimento populacional e o uso de lenha como fonte de energia.

Esses fatores aumentaram a pressão sobre áreas naturais e contribuíram para a degradação dos solos em diferentes regiões do país.

A retirada de vegetação também reduz a capacidade do solo de reter água e pode ampliar processos de erosão.

Em áreas rurais, esse cenário afeta a produtividade agrícola e eleva a vulnerabilidade de comunidades que dependem da terra para produção de alimentos.

A Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura informou, em fevereiro de 2026, que a Etiópia avançou no monitoramento de emissões e remoções de gases de efeito estufa ligadas ao desmatamento, à degradação florestal, ao reflorestamento e ao florestamento.

Os relatórios nacionais são usados para medir resultados do país entre 2018 e 2022.

Programa contribuiu para o aumento da cobertura florestal do país, que passou de 17,2% para 23,6% | Crédito: Instituto de Biodiversidade da Etiópia
Programa contribuiu para o aumento da cobertura florestal do país, que passou de 17,2% para 23,6% | Crédito: Instituto de Biodiversidade da Etiópia

Meta de 50 bilhões de árvores passou por atualizações

A campanha de 2019 foi apresentada pelo governo como uma etapa de um programa mais amplo.

Naquele ano, a meta era plantar quatro bilhões de mudas até o fim da estação chuvosa, em outubro, com participação de civis, servidores públicos e organizações locais.

Nos anos seguintes, o governo etíope manteve novas rodadas de mobilização.

Em julho de 2025, a Associated Press noticiou que o país lançou uma campanha nacional para tentar plantar 700 milhões de mudas em um único dia dentro do Green Legacy.

Na mesma ocasião, autoridades etíopes afirmaram que cerca de 40 bilhões de mudas haviam sido plantadas desde 2019 e que a meta para aquele ano era chegar a 7,5 bilhões.

Esses números são atribuídos ao governo da Etiópia e dependem de acompanhamento técnico para avaliar o efeito real sobre a restauração ambiental.

Especialistas ouvidos pela Associated Press destacaram que o plantio, sozinho, não garante reflorestamento.

Para que a iniciativa produza resultado duradouro, é necessário acompanhar a sobrevivência das mudas, selecionar espécies adequadas para cada área, preservar a biodiversidade e manter ações de manejo depois do plantio.

Essa ressalva é relevante porque parte das mudas pode morrer por falta de água, competição com outras plantas, manejo insuficiente ou condições climáticas desfavoráveis.

Por esse motivo, a avaliação de uma política de restauração florestal depende não apenas do número de mudas plantadas, mas também da permanência das árvores ao longo dos anos.

Fundo ambiental busca sustentar a restauração

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente afirmou, em 2026, que a Etiópia já enfrenta impactos associados às mudanças climáticas, como aumento de temperaturas, chuvas irregulares, secas e enchentes recorrentes, além da degradação de terras.

O órgão também anunciou uma iniciativa de US$ 9,8 milhões para fortalecer a resiliência climática vinculada ao Green Legacy, em parceria com o governo etíope e instituições ambientais.

Em comunicado citado pelo PNUMA, Ato Kebede Yimam, diretor-geral do Ethiopian Forestry Development, afirmou que a iniciativa busca fortalecer ecossistemas, criar empregos verdes, melhorar a segurança alimentar e ampliar a participação de mulheres e jovens.

A declaração mostra como o programa passou a ser apresentado por autoridades e organismos internacionais como uma política de adaptação climática, e não apenas como uma campanha de plantio.

Além da mobilização social, a Etiópia criou mecanismos para financiar a restauração de áreas degradadas.

O World Resources Institute informou que o Parlamento etíope aprovou, em 24 de dezembro de 2024, um fundo especial para restauração de paisagens, com destinação de 0,5% a 1% do orçamento federal anual.

A estimativa associada à medida é de cerca de US$ 40 milhões a US$ 80 milhões por ano para ações de restauração ambiental.

O financiamento é apontado por especialistas como um dos pontos necessários para transformar campanhas de plantio em programas permanentes de recuperação de paisagens.

Sobrevivência das mudas segue como ponto central

O anúncio de 350 milhões de mudas em 12 horas tornou a Etiópia uma referência internacional em campanhas de plantio em massa, segundo organizações que acompanharam o caso.

Ao mesmo tempo, o episódio também levantou questionamentos técnicos sobre verificação independente, taxa de sobrevivência das mudas e impacto ambiental efetivo no longo prazo.

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, estudos publicados na revista Nature estimam que cerca de 15 bilhões de árvores são cortadas por ano no mundo.

A entidade também cita dados do WWF que associam o desmatamento a mais de 15% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Nesse contexto, iniciativas de restauração florestal passaram a integrar estratégias nacionais de enfrentamento à crise climática.

Especialistas em conservação, no entanto, costumam apontar que o reflorestamento precisa ocorrer junto com a proteção das florestas existentes, a redução do desmatamento e o corte de emissões de gases de efeito estufa.

A meta de 50 bilhões de árvores aparece em fontes públicas com prazos diferentes.

A Associated Press registrou, em 2025, que o Green Legacy buscava chegar a 50 bilhões de árvores até 2026.

Já o World Resources Institute, também em 2025, citou a meta de 50 bilhões até 2030, com mais de 32 bilhões de mudas plantadas até então.

A experiência etíope reúne mobilização popular, financiamento público, monitoramento ambiental e metas de restauração em larga escala.

O dado que ainda precisa de acompanhamento é a sobrevivência das mudas plantadas e o quanto elas conseguem se converter, de fato, em cobertura florestal duradoura.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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