Em reunião ministerial em Brasília, nesta quarta-feira, 17, Lula avisou que o acordo Mercosul-UE só sairá se for assinado na cúpula do fim de semana em Foz do Iguaçu e prometeu postura bem mais dura do Brasil caso a União Europeia diga não novamente nas negociações entre os dois blocos.
Nesta quarta-feira, 17, em Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu um ultimato público à União Europeia e afirmou que, se o acordo Mercosul-UE não for assinado na próxima cúpula do Mercosul, no fim de semana, o Brasil não firmará o pacto enquanto ele estiver na Presidência, elevando a pressão sobre os parceiros europeus.
Lula declarou que viajará à cúpula em Foz do Iguaçu, no Paraná, esperando ouvir um “sim” dos europeus depois de mais de duas décadas de negociações entre os blocos e avisou que, se receber mais um “não”, o Brasil passará a adotar uma postura muito mais dura nas conversas com a União Europeia.
Ultimato muda o tom das conversas com a União Europeia
No discurso a ministros em Brasília, Lula reforçou que já havia avisado aos europeus sobre o limite da paciência brasileira.
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Segundo o presidente, não haverá nova rodada de concessões se o texto não for concluído agora, durante a atual fase das tratativas.
Ele resumiu o recado com uma frase direta dirigida à União Europeia: se o acordo não for fechado neste momento, “o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente”.
Ao repetir esse alerta em público, Lula buscou marcar uma linha vermelha em torno do acordo Mercosul-UE e enviar um sinal de pressão política às capitais europeias.
O presidente também afirmou que não pretende ir à cúpula “para ouvir um não”, deixando claro que espera um desfecho positivo.
Se a resposta europeia for negativa, Lula prometeu que o Brasil será duro “daqui para frente” nas discussões comerciais e políticas com o bloco europeu.
Cúpula em Foz do Iguaçu vira momento decisivo
A cúpula de chefes de Estado do Mercosul, marcada para este sábado em Foz do Iguaçu, foi elevada pelo próprio governo brasileiro ao status de momento decisivo do acordo Mercosul-UE.
É nessa reunião que se espera uma definição clara sobre a assinatura ou não do tratado.
Antes do encontro dos presidentes, está previsto para a véspera um encontro de ministros das Relações Exteriores e da Economia, também em Foz do Iguaçu, na região da tríplice fronteira entre Brasil, Paraguai e Argentina.
Será uma maratona diplomática para tentar destravar de vez o texto do pacto birregional.
Os sócios plenos do bloco sul-americano – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai – já se declararam prontos para assinar o acordo.
Do lado europeu, a Comissão Europeia pretende concluir o processo de ratificação interna antes de sábado, tentando alinhar os diferentes interesses dos países-membros em torno do mesmo texto.
Negociação se arrasta há mais de duas décadas
O acordo Mercosul-UE é negociado há mais de duas décadas, em um processo marcado por avanços pontuais e longos períodos de impasse.
Mesmo após anúncios políticos de entendimento, o texto voltou a ser contestado, especialmente por governos europeus preocupados com impactos em seus setores agrícolas.
Alguns países da União Europeia relutam em ratificar o pacto por temer prejuízos competitivos para seus agricultores, diante da entrada de produtos sul-americanos como carne e grãos em condições tarifárias mais favoráveis.
Esse ponto sensível é um dos principais focos de resistência dentro do bloco europeu.
A pressão de governos como França e Itália esfriou a expectativa de uma assinatura rápida.
A crítica central é que produtores europeus poderiam perder espaço para o agronegócio do Mercosul, considerado mais competitivo em várias cadeias de alimentos.
O que está em jogo no acordo Mercosul-UE
Se for aprovado, o acordo Mercosul-UE criará um mercado comum estimado em 722 milhões de habitantes, conectando economias da América do Sul e da Europa em uma zona de trocas mais amplas de bens.
O tratado prevê abertura gradual de mercados e redução de tarifas para diferentes setores.
Do lado europeu, o texto permitirá ampliar exportações de veículos, máquinas, vinhos e licores para países do Mercosul, com cortes tarifários ao longo do tempo.
Em troca, haverá facilitação da entrada de carne, açúcar, arroz, mel e soja sul-americanos nos mercados da União Europeia, ampliando oportunidades para o agronegócio da região.
Para os países do Mercosul, a expectativa é que a abertura do mercado europeu gere ganhos em escala, diversificação de compradores e fortalecimento das cadeias produtivas ligadas à exportação de alimentos e commodities agrícolas, hoje um dos pilares da economia da América do Sul.
Agricultura, pesticidas e exigências ambientais europeias
A França se destaca entre os países que exigem medidas adicionais antes de avalizar o acordo Mercosul-UE. Paris cobra garantias de que todos os pesticidas proibidos na União Europeia também sejam proibidos nos países do Mercosul, como forma de evitar o que considera uma competição desleal.
Na prática, essa exigência liga a liberalização comercial a compromissos ambientais e sanitários mais rígidos.
Governos europeus temem críticas internas se aprovarem um pacto visto como permissivo com padrões de produção considerados menos rigorosos que os aplicados dentro da própria UE.
Já os países do Mercosul argumentam que o tratado deve ser equilibrado e que as exigências adicionais não podem se transformar em barreiras disfarçadas ao comércio.
Nesse embate, a agenda ambiental e a proteção aos agricultores europeus se tornaram elementos centrais das discussões.
Mercado ampliado e dilema político para o Brasil
Ao mesmo tempo em que o acordo Mercosul-UE promete abrir um mercado de 722 milhões de consumidores, ele também cria um dilema político para o Brasil.
A sinalização de Lula é que o país não aceitará negociar indefinidamente sem obter uma resposta concreta dos europeus.
Ao dizer que, se levar outro “não” em Foz do Iguaçu, o Brasil será duro daqui para frente, o presidente indica que pode encerrar a disposição de seguir reabrindo o tema e ajustando o texto do acordo sempre que surgirem novas demandas europeias.
O recado é tanto interno quanto externo: para o público doméstico, busca mostrar firmeza e defesa dos interesses nacionais; para a União Europeia, funciona como pressão para que as decisões sejam tomadas agora, sem empurrar o desfecho das negociações por mais anos.
Na sua opinião, o Brasil deve realmente endurecer e deixar o acordo Mercosul-UE para depois se a União Europeia disser mais um não na cúpula em Foz do Iguaçu?

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