1. Início
  2. Ciência e Tecnologia
  3. Com 132 toneladas, campo magnético de 11,7 teslas e quase 20 anos de desenvolvimento, a máquina de ressonância mais poderosa do mundo na França revela o cérebro humano com uma nitidez que scanners comuns não conseguem alcançar
Faça um comentário 6 min de leitura

Com 132 toneladas, campo magnético de 11,7 teslas e quase 20 anos de desenvolvimento, a máquina de ressonância mais poderosa do mundo na França revela o cérebro humano com uma nitidez que scanners comuns não conseguem alcançar

Imagem de perfil do autor Alisson Ficher
Escrito por Alisson Ficher Publicado em 27/06/2026 às 18:30 Atualizado em 27/06/2026 às 18:37
Assista o vídeoIseult, ressonância magnética de 11,7 teslas na França, revela o cérebro humano com nitidez inédita e apoia pesquisas neurológicas.
Iseult, ressonância magnética de 11,7 teslas na França, revela o cérebro humano com nitidez inédita e apoia pesquisas neurológicas.
  • Reação
1 pessoa reagiu a isso.
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Campo magnético ultralto, engenharia criogênica e décadas de pesquisa colocam o Iseult no centro de uma nova etapa da neuroimagem, capaz de revelar detalhes do cérebro vivo e apoiar estudos sobre estruturas, sinais químicos e doenças neurológicas sem recorrer a métodos invasivos.

Instalado no centro NeuroSpin, em Saclay, na França, o scanner de ressonância magnética Iseult produziu imagens do cérebro humano vivo com um nível de detalhamento muito superior ao obtido em equipamentos hospitalares comuns.

Divulgada pelo CEA em 2 de abril de 2024, a série de imagens integra um projeto iniciado em 2001 para estudar cérebros saudáveis e doentes com resolução inédita em neuroimagem humana.

O equipamento opera com campo magnético de 11,7 teslas, pesa 132 toneladas e foi apresentado pelo CEA como a máquina de ressonância magnética mais poderosa do mundo voltada à imagem do cérebro humano.

Na rotina hospitalar, scanners de ressonância magnética costumam trabalhar com campos de 1,5 ou 3 teslas, diferença que ajuda a explicar o salto de nitidez alcançado pelo sistema francês.

Ressonância magnética de 11,7 teslas amplia a nitidez do cérebro

No centro dessa tecnologia está a força do campo magnético, que aumenta a capacidade de captar sinais e formar imagens anatômicas com contraste e definição maiores.

Durante o primeiro estudo com participantes humanos, o Iseult registrou imagens cerebrais em cerca de quatro minutos, segundo informações divulgadas pelo CEA.

A resolução informada foi de 0,2 milímetro no plano da imagem, com espessura de corte de 1 milímetro, patamar considerado incomum para exames em seres humanos vivos.

Iseult, ressonância magnética de 11,7 teslas na França, revela o cérebro humano com nitidez inédita e apoia pesquisas neurológicas.
Iseult, ressonância magnética de 11,7 teslas na França, revela o cérebro humano com nitidez inédita e apoia pesquisas neurológicas.

Esse nível de detalhe corresponde a um volume equivalente a poucos milhares de neurônios e permite observar regiões cerebrais que aparecem com menor definição em máquinas convencionais.

Para alcançar qualidade semelhante em scanners hospitalares, de acordo com o CEA, seriam necessárias horas de aquisição, condição inviável na prática clínica.

Além do desconforto para o paciente, exames tão longos aumentariam o risco de movimentos capazes de prejudicar a imagem final e comprometer a interpretação dos dados.

Iseult funciona como plataforma de pesquisa avançada

Embora seja comparado a equipamentos usados em hospitais, o Iseult não foi apresentado como uma máquina destinada ao diagnóstico cotidiano ou ao uso imediato em exames de rotina.

A proposta central é servir como plataforma científica para ampliar a compreensão sobre anatomia, conexões e atividade cerebral em uma escala de observação mais fina.

Publicado na Nature Methods em 17 de outubro de 2024, o estudo descreveu a aquisição de imagens do cérebro humano vivo no campo de 11,7 teslas.

O protocolo inicial envolveu 20 adultos saudáveis e utilizou ferramentas de transmissão paralela para reduzir problemas de homogeneidade de radiofrequência.

Campos magnéticos ultraltos trazem desafios técnicos que não aparecem com a mesma intensidade em scanners de menor potência, especialmente quando o objetivo é manter boa qualidade de sinal em todo o cérebro.

Entre os pontos críticos estão variações no campo de radiofrequência, controle de absorção de energia pelo corpo e estabilidade dos dados gerados durante o exame.

Imagens detalhadas podem apoiar estudos neurológicos

Iseult, ressonância magnética de 11,7 teslas na França, revela o cérebro humano com nitidez inédita e apoia pesquisas neurológicas.
Iseult, ressonância magnética de 11,7 teslas na França, revela o cérebro humano com nitidez inédita e apoia pesquisas neurológicas.

Um dos principais ganhos científicos está na possibilidade de enxergar estruturas pequenas sem recorrer a métodos invasivos, como retirada de amostras ou abertura do corpo.

A ressonância magnética já usa campos magnéticos e sinais de radiofrequência para produzir imagens internas, mas a potência do Iseult amplia a quantidade de informação captada em uma janela curta de exame.

Segundo o CEA, resoluções desse nível podem ajudar pesquisadores a acessar informações antes indisponíveis sobre mecanismos cerebrais, representações mentais e assinaturas neurais associadas a estados de consciência.

A instituição também cita possíveis contribuições para estudos sobre doenças neurodegenerativas, incluindo Alzheimer e Parkinson, áreas em que imagens anatômicas mais detalhadas podem orientar novas investigações.

Outro campo de interesse envolve moléculas e substâncias com sinais fracos, que são difíceis de detectar em campos magnéticos menores e exigem maior sensibilidade do sistema.

Entre os exemplos mencionados pelo CEA estão o lítio, usado no tratamento do transtorno bipolar, e moléculas relacionadas ao metabolismo cerebral, como glicose e glutamato.

Máquina de 132 toneladas exige frio extremo

Pela dimensão física, o Iseult se aproxima mais de uma instalação científica pesada do que de uma sala de exame tradicional encontrada em hospitais.

O magneto tem 5 metros de comprimento, 5 metros de largura e abertura central de 90 centímetros, proporções que explicam parte da complexidade do projeto.

Dentro da estrutura, há 182 quilômetros de fios supercondutores e uma bobina pela qual circulam 1.500 amperes, responsáveis por sustentar o campo magnético ultralto.

Para manter as condições necessárias de funcionamento, o sistema é resfriado a cerca de -271,35 °C com o uso de 7.500 litros de hélio líquido.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Esse frio extremo permite que os fios supercondutores conduzam corrente elétrica sem resistência, condição essencial para manter o campo magnético de 11,7 teslas de forma estável.

Na prática, temperatura, eletricidade, magnetismo e processamento de imagem precisam operar de maneira integrada para que o exame gere dados utilizáveis pelos pesquisadores.

Mais de 200 pessoas participaram do projeto, incluindo equipes do CEA e parceiros industriais e acadêmicos envolvidos na construção, instalação e desenvolvimento de métodos.

Entre os nomes citados pela instituição estão Alstom, hoje GE, Siemens Healthineers, Guerbet e a Universidade de Freiburg, na Alemanha.

Segurança foi avaliada no campo magnético ultralto

No estudo publicado na Nature Methods, a segurança da imagem humana nesse campo magnético foi avaliada por meio de medidas fisiológicas, vestibulares, comportamentais e de genotoxicidade.

A análise não identificou diferenças significativas associadas à exposição ao campo nos testes realizados durante o protocolo inicial com participantes saudáveis.

Ainda assim, a própria pesquisa descreve essa fase como exploratória e aponta limitações, incluindo imagens prejudicadas por movimento em parte dos exames de alta resolução.

Avanços futuros dependem de correção de movimento, sequências aceleradas e melhorias em bobinas de radiofrequência e gradientes, pontos técnicos necessários para ampliar a qualidade dos resultados.

Com essa combinação de potência magnética, engenharia criogênica e desenvolvimento de métodos de imagem, o Iseult amplia o alcance da neuroimagem em seres humanos vivos.

A ferramenta permite investigar o cérebro com precisão que scanners convencionais ainda não conseguem entregar no mesmo tempo de aquisição, abrindo espaço para estudos mais detalhados sobre estrutura, funcionamento e sinais químicos cerebrais.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x