Disputa pelo voto evangélico ganha força em 2026, enquanto igrejas ampliam presença no Congresso, influenciam pautas nacionais e se tornam alvo estratégico de campanhas presidenciais em meio ao crescimento do segmento religioso no país.
A influência das igrejas evangélicas voltou ao centro da disputa presidencial de 2026 em um cenário no qual o segmento reúne 47,4 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais, ocupa espaço expressivo no Congresso e aparece como alvo direto de Lula e Flávio Bolsonaro.
Segundo o Censo 2022 do IBGE, os evangélicos representam 26,9% da população nessa faixa etária, atrás apenas dos católicos, que somam 56,7%, em uma mudança religiosa que também ajuda a explicar o novo peso político das igrejas.
No Legislativo, esse avanço se traduz em organização parlamentar e capacidade de pressão sobre votações sensíveis, já que a Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional reúne 209 deputados federais e 26 senadores, segundo dados da Câmara dos Deputados.
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O grupo atua de forma coordenada em pautas ligadas a costumes, família, liberdade religiosa, educação e tributação de entidades religiosas, temas que passaram a ocupar espaço constante nas disputas eleitorais e nas negociações políticas em Brasília.
Voto evangélico vira alvo central da eleição presidencial
No recorte religioso da pesquisa AtlasIntel/Bloomberg de maio de 2026, registrada no TSE sob o número BR-06939/2026, Flávio Bolsonaro aparece com 50,9% entre evangélicos no cenário de primeiro turno com Lula, que registra 25%.
O levantamento ouviu 5.032 pessoas entre 13 e 18 de maio, com margem de erro de um ponto percentual, e reforça a importância do segmento em uma eleição na qual cada bloco social pode influenciar o resultado nacional.
Quando o cenário analisado é o segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, a mesma pesquisa mostra o petista numericamente à frente, com 48,9%, contra 41,8% do senador do PL, apesar da vantagem bolsonarista entre os evangélicos.
A rodada também apontou queda de Flávio em relação a levantamentos anteriores, após a divulgação de supostas conversas envolvendo Daniel Vorcaro, ex-banqueiro ligado ao Banco Master, episódio que entrou no debate político nacional durante a pré-campanha.
Embora a disputa atual tenha novas personagens e estratégias, o esforço para conquistar esse eleitorado ganhou força em 2018, quando lideranças religiosas de grande alcance passaram a defender Jair Bolsonaro como candidato mais alinhado a pautas conservadoras.
Durante a campanha de 2022, Lula tentou reduzir resistências no segmento com visitas a templos e uma carta pública dirigida aos evangélicos, em resposta a acusações de que um novo governo petista entraria em conflito com cristãos.
Na mensagem daquela campanha, o então candidato afirmou respeito à atuação das igrejas na difusão do evangelho e em ações sociais, gesto voltado a um público que já havia se tornado decisivo na comunicação eleitoral brasileira.
Crescimento evangélico amplia força institucional
A presença evangélica na política brasileira cresceu junto com a expansão do próprio segmento religioso, que passou de 15% da população pesquisada pelo IBGE em 2000 para 21,6% em 2010 e chegou a 26,9% no Censo 2022.
Com esse avanço, igrejas passaram a funcionar também como redes de mobilização social, eleitoral e comunitária, especialmente em áreas periféricas onde os templos ocupam papel de acolhimento, circulação de informação e formação de lideranças locais.
Em muitos bairros, a influência política não depende apenas das grandes denominações, porque pastores de igrejas menores mantêm contato direto com fiéis, acompanham problemas cotidianos e participam de debates sobre serviços públicos, segurança, trabalho e família.

Para o historiador Murilo Mello, a relação entre religião e poder atravessa diferentes períodos históricos e ajuda a compreender por que igrejas continuam ocupando espaço relevante nas disputas políticas contemporâneas.
“A religião sempre foi um braço forte do poder. Quando o Brasil começa a ser construído, essa relação continua, apesar da gente não ter um Estado teocrático”, afirmou Murilo Mello.
Apesar da associação frequente entre evangélicos e direita, especialistas destacam que o segmento não é homogêneo e inclui lideranças progressistas, parlamentares de esquerda e religiosos que apoiaram candidaturas de centro-esquerda em diferentes momentos.
Entre os nomes lembrados nesse campo estão o deputado Pastor Henrique Vieira, do PSOL-RJ, e lideranças evangélicas que, mesmo com menor projeção pública, atuam em defesa de agendas sociais, direitos humanos e políticas de inclusão.
Bancada evangélica avança em pautas no Congresso
Criada em 2003, a Frente Parlamentar Evangélica se consolidou como uma das articulações mais influentes do Congresso, embora reúna parlamentares de diferentes partidos e não funcione como um bloco único em todas as votações.
Sua atuação, no entanto, costuma se concentrar em pautas conservadoras, especialmente nos debates sobre aborto, educação, família e liberdade religiosa, áreas em que deputados e senadores ligados ao segmento buscam marcar posição pública.
Em maio de 2026, a Câmara aprovou a PEC 5/2023, que amplia a imunidade tributária de entidades religiosas e estende a proteção fiscal à aquisição de bens e serviços necessários à formação de patrimônio, geração de renda e prestação de serviços.
A proposta segue para análise do Senado e interessa diretamente a igrejas e organizações religiosas, que defendem a medida como forma de ampliar segurança jurídica sobre atividades vinculadas à manutenção de seus templos e projetos.
Outro tema que mobilizou a bancada foi o PL 1904/2024, que equipara o aborto acima de 22 semanas ao crime de homicídio, inclusive em situações de gravidez decorrente de estupro.
A Câmara aprovou a urgência do projeto em junho de 2024, mas a proposta não avançou para aprovação definitiva no plenário, após forte reação de entidades da sociedade civil, parlamentares e grupos contrários à mudança.
Ao mesmo tempo em que amplia influência institucional, a atuação parlamentar do campo evangélico convive com controvérsias envolvendo nomes associados a igrejas e lideranças religiosas, o que também alimenta críticas de adversários políticos.
O ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella foi denunciado pelo Ministério Público do Rio em janeiro de 2026 por improbidade administrativa, em investigação sobre suposto esquema que teria movimentado R$ 32 milhões.
Também em meio a apurações, o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, foi alvo de questionamentos após a Polícia Federal encontrar dinheiro em uma de suas residências.
Em dezembro de 2025, o parlamentar negou irregularidades, disse que os recursos tinham origem lícita e afirmou não haver lavagem de dinheiro nem contrato ilegal relacionado ao caso.
Igrejas, valores e disputa por narrativas
A aproximação entre parte expressiva das lideranças evangélicas e a direita se fortaleceu em torno de pautas morais, principalmente nos debates sobre gênero, educação sexual, aborto e modelo familiar.
Esses temas passaram a circular com força em campanhas, cultos, programas religiosos e redes sociais, criando um ambiente em que disputas eleitorais também se misturam a narrativas sobre comportamento, fé e valores comunitários.
Para o cientista social Lucas Santos, a força política evangélica não se explica apenas pelo número de fiéis, mas pela capacidade de espalhar mensagens morais com alto impacto eleitoral por meio de lideranças religiosas e comunicadores de grande alcance.
“Mais do que no peso numérico em si, a força política dos evangélicos parece residir na capacidade de capilarizar determinadas pautas morais na sociedade, sobretudo por meio de suas lideranças religiosas e midiáticas”, afirmou Lucas Santos.
Pastor da Igreja Batista Salim, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, Samuelson dos Santos defende que a Bíblia oriente a visão de mundo dos fiéis também na política.
“A Bíblia é a nossa regra de fé e prática”, afirmou o líder religioso, ao sustentar que decisões públicas afetam diretamente a vida cotidiana das comunidades.
Ao tratar da presença das igrejas no debate eleitoral, Samuelson afirma que a política não deve ser vista como algo distante da fé, porque envolve impostos, serviços públicos e escolhas que repercutem na rotina dos cidadãos.
Para ele, a participação religiosa deve mirar o cuidado com comunidades, sem afastar a discussão pública dos templos, já que a organização da vida coletiva passa necessariamente por decisões políticas.
Com uma bancada numerosa, milhões de fiéis e forte presença em territórios populares, o campo evangélico se tornou um dos pontos mais sensíveis da disputa nacional, ainda que suas preferências internas sejam mais diversas do que indicam os palanques mais visíveis.

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