Em favelas superlotadas de Islamabad, os homens do esgoto mergulham em fezes, lixo e gás para desobstruir bueiros sem proteção, enfrentam discriminação por serem cristãos, sobrevivem com pouco dinheiro e encontram na família e na fé o único motivo para continuar enquanto o resto da cidade finge que não vê.
Nas primeiras décadas do século 21, em plena temporada de monções em Islamabad, capital do Paquistão, os homens do esgoto entravam em bueiros entupidos até o pescoço, muitas vezes sem checar direito a presença de gás, para impedir que águas residuais invadissem as casas de uma favela inteira.
Enquanto a cidade crescia acima da linha do horizonte, uma minoria cristã marginalizada seguia proibida de construir igrejas formais, empurrada para guetos superlotados e para o trabalho mais rejeitado que se pode imaginar. Nesse cenário, a cada dia de serviço, esses trabalhadores descobriam na prática quanto vale um prato de comida e uma vaga na escola para os filhos.
Quem são os homens do esgoto nas favelas de Islamabad

Nas margens invisíveis da capital paquistanesa, os homens do esgoto são chamados de manual scavengers, os catadores manuais responsáveis por manter os esgotos funcionando nas favelas e nos bairros urbanos mais pobres.
-
Antes dos grandes centros coloniais nascerem, São Vicente já votava: em 1532, a primeira cidade do Brasil realizou as primeiras eleições registradas nas Américas e marcou no litoral paulista o início da vida política do continente
-
Casa de três andares com 128 mil kg é erguida por macacos hidráulicos e retirada da costa nos EUA antes de ser engolida pelo oceano; 20 imóveis já desabaram na região e avanço do mar acende alerta para o litoral brasileiro
-
A 360 metros de altura, ponte de vidro avança 35 metros sobre cânion no Brasil e deixa visitantes “flutuando” sobre o Vale da Ferradura, com vista para o rio Caí e a Cascata do Caracol
-
A música que fez o Brasil inteiro cantar na Copa de 1970 parecia só uma festa pelo tricampeonato, mas escondia uma história muito mais complexa ligada à ditadura militar
Eles desobstruem bueiros e galerias usando quase sempre apenas um pedaço de arame e as próprias mãos, em meio a dejetos humanos e lixo doméstico acumulado.
Em Islamabad existem cerca de 40 favelas, onde vivem mais de 100 mil pessoas sem água potável, com esgoto a céu aberto e sistemas de drenagem que transbordam quando chove mais forte.
Nessas áreas, o trabalho dos homens do esgoto é a linha tênue entre o alagamento permanente e um mínimo de circulação de águas residuais, mesmo que em condições totalmente precárias.
Os trabalhadores andam pelas ruas com expressão cansada e ferramentas improvisadas.
Para a maioria dos moradores, porém, eles são parte da paisagem, olhados de lado ou simplesmente ignorados.
A cena que para qualquer visitante parece insuportável, com cheiro de gás e fezes, é apenas mais um dia de serviço para quem aprendeu a sobreviver no limite.
Cristãos pobres empurrados para o trabalho que ninguém quer

Os homens do esgoto fazem parte, em grande parte, da comunidade cristã paquistanesa.
Essa minoria religiosa vive em guetos superlotados, com acesso limitado a educação e saúde, e carrega um estigma histórico que a empurra para os trabalhos considerados mais degradantes, como a limpeza manual de esgotos em bairros que a maioria da população prefere não enxergar.
Como não têm permissão para construir igrejas oficiais, os cristãos levantam pequenos templos dentro das próprias casas.
Pastores relatam que esses espaços funcionam como refúgios espirituais e centros comunitários, onde até os homens do esgoto conseguem, por alguns minutos, se sentir parte de algo maior, serem vistos, ouvidos e lembrados como pessoas e não apenas como braços para um serviço sujo.
Segundo líderes locais, ninguém fora da comunidade cristã aceita fazer esse tipo de trabalho, que acaba restrito a uma parcela já discriminada da população.
O resultado é um ciclo fechado: o estigma do esgoto reforça a marginalização, que por sua vez reduz as chances de acesso a outras ocupações, mantendo famílias inteiras presas à mesma atividade por gerações.
Mergulho em fezes, gás tóxico e lixo escondido nos bueiros
No campo, o procedimento é simples e brutal. Diante de um bueiro entupido, o homem do esgoto abre a tampa, avalia rapidamente o cheiro e, quando muito, lança um fósforo para testar a presença de gases inflamáveis.
Se nada explode, ele desce.
Em muitos casos, a verificação é quase automática, e o trabalhador entra sem checar com calma, contando apenas com a própria experiência.
Lá embaixo, é impossível descrever o odor que mistura fezes humanas, sacos plásticos, trapos, metal enferrujado e resíduos de toda a favela.
Em alguns pontos, a água residual chega até o queixo, não há apoio firme para os pés e o trabalhador depende dos colegas segurando uma corda para não afundar.
Uma concentração alta de gás pode deixá-lo inconsciente em segundos, antes que alguém consiga puxá-lo de volta.
Os relatos mencionam cortes constantes nas mãos e nos pés, causados por pedaços de metal e objetos pontiagudos escondidos no fundo do bueiro.
Em um dos serviços mais críticos, o trabalhador tenta desobstruir o maior bueiro do bairro, mas recua tonto, sem ar, reclamando do cheiro de gás e da profundidade do poço.
Colegas contam que não seria a primeira vez que alguém morreria ali embaixo, sufocado ou afogado.
Estigma social e isolamento dentro da própria comunidade
Quando não estão dentro do esgoto, os homens do esgoto lidam com um outro tipo de peso: o olhar dos vizinhos.
Eles contam que, ao caminhar pela cidade, as pessoas se afastam, evitam contato físico e comentam que aquele “não é um trabalho de verdade”, sugerindo que o trabalhador deveria encontrar outra profissão, como se a escolha estivesse nas mãos de quem tenta apenas não passar fome.
Até mesmo dentro da comunidade cristã, o estigma aparece.
Alguns relatam não ter amigos por causa do trabalho, já que as roupas permanecem impregnadas de esgoto e muitos evitam compartilhar o mesmo espaço, com medo de doenças ou simplesmente por repulsa.
O resultado é um isolamento que se estende da rua para dentro da própria rede de relações, forçando famílias a se fechar em pequenos círculos.
Ao mesmo tempo, líderes religiosos insistem em acolher esses trabalhadores nas igrejas domésticas, reforçando a ideia de que, apesar da discriminação externa, eles devem ser reconhecidos como parte essencial da comunidade.
Nos cultos simples, entre orações e cânticos, os homens do esgoto conseguem, ainda que por pouco tempo, suspender o peso simbólico do trabalho e recuperar algum senso de dignidade.
Um quarto para duas famílias e o peso de sustentar cinco filhos
Depois de horas no esgoto, muitos homens do esgoto voltam para casas minúsculas, onde duas famílias dividem o mesmo quarto com várias crianças.
Um dos trabalhadores conta viver com a esposa, cinco filhos e parentes próximos sob o mesmo teto emprestado pelo irmão, que lhes garante ao menos um lugar para dormir.
A rotina é de superlotação, pouca privacidade e renda sempre no limite.
Ele relata que, em alguns dias, a família não tem almoço nem jantar.
Quando chega qualquer chamada para trabalhar, por pior que seja o serviço, a sensação é de alívio, porque isso significa dinheiro suficiente para comprar comida básica e, com sorte, pagar o material escolar das crianças.
A esposa reconhece a dureza do trabalho, mas repete que não há alternativa se quiserem alimentar os filhos.
As crianças sabem o que o pai faz. Não gostam, têm vergonha do estigma, mas ficam felizes quando há comida na mesa.
O trabalhador insiste em mostrar que, apesar da sujeira e do risco, ele é uma pessoa honesta que só quer garantir um futuro melhor para os filhos, dando a eles a educação que ele próprio nunca teve.
Felicidade possível no trabalho mais difícil do mundo
O repórter que acompanha os homens do esgoto faz sempre a mesma pergunta pelo mundo inteiro: o que é felicidade para você.
No caso de Niahad, um dos trabalhadores, a resposta não passa por grandes sonhos ou mudanças imediatas de país.
Felicidade significa chegar em casa vivo, com algum dinheiro no bolso, ver os filhos comendo e saber que eles poderão ir à escola no dia seguinte.
Ele reconhece que o trabalho é perigoso e degradante, mas afirma que não tem escolha e que, mesmo assim, agradece a Deus por cada chamada que garante um pagamento.
Para esse pai de família, cada prato colocado na mesa é uma pequena vitória diária, um passo mínimo em direção à ideia de que os filhos terão uma vida diferente da dele, longe dos bueiros e do esgoto.
A história desses homens do esgoto mostra que, em contextos extremos, felicidade deixa de ser conceito abstrato e passa a caber em gestos simples: voltar para casa respirando, ouvir o riso dos filhos, entrar na pequena igreja doméstica e se sentir, por alguns minutos, igual a qualquer outra pessoa do bairro.
Diante de tudo isso, na sua opinião o que mais choca nessa realidade dos homens do esgoto de Islamabad: o risco diário de morte silenciosa no trabalho ou o modo como a sociedade escolhe fingir que eles não existem?


-
-
-
5 pessoas reagiram a isso.