Enquanto o Talibã consolida o controle desde 2021, o regime acelera um canal artificial gigante, reabre túnel estratégico e assina memorandos com a China para monetizar reservas minerais trilionárias, prometendo empregos, energia e irrigação em um Afeganistão ainda marcado por pobreza, sanções e isolamento diplomático permanente aos olhos do mundo
Desde agosto de 2021, quando o Talibã retomou o poder em Cabul, o país entrou em uma nova fase de obras anunciadas como “históricas”. Entre 2023 e 2025, o regime colocou no centro da narrativa interna um canal artificial gigantesco no norte, a reconstrução de um túnel de montanha com histórico de tragédias e uma série de acordos preliminares com parceiros asiáticos.
Em 2025, essa estratégia ganhou contornos mais claros: o Talibã tenta vender ao mundo a imagem de um Afeganistão capaz de sair da dependência de ajuda internacional usando trilhões de dólares em minerais ainda não explorados. A combinação de megaobras, promessas de irrigação, energia e mineração pesada é apresentada como caminho para transformar um país pobre em plataforma de dinheiro e poder regional.
Canal artificial no norte vira vitrine de ambição hidráulica do Talibã

No centro desse plano está um canal artificial gigantesco no norte do Afeganistão, promovido pelo Talibã como o maior projeto desse tipo na Ásia.
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O traçado corta regiões tradicionalmente áridas e pretende desviar água de um grande rio para alimentar áreas agrícolas e, em tese, tornar produtivas zonas hoje dependentes de chuva irregular.
Para o Talibã, a obra é prova de que o regime consegue entregar infraestrutura pesada sem depender de organismos ocidentais.
Técnicos ligados ao governo repetem que o canal pode irrigar centenas de milhares de hectares e reduzir a insegurança alimentar, embora não apresentem com a mesma transparência estudos completos de impacto sobre o fluxo de água nos países vizinhos a jusante.
Especialistas independentes, dentro e fora do país, alertam que um canal desse porte, operado por um governo isolado e com poucos mecanismos de fiscalização, pode gerar disputas hídricas com vizinhos, desequilíbrios ambientais e concentração de benefícios em grupos ligados ao próprio Talibã.
A falta de dados públicos confiáveis sobre volume desviado, cronograma real e custo total aumenta as dúvidas em torno do projeto.
Canal Qosh Tepa, ambição do Talibã e efeito cascata na água da região
O canal que o Talibã transformou em vitrine de infraestrutura tem nome e escala definidos: Qosh Tepa.
Planejado com cerca de 285 quilômetros de extensão no norte do Afeganistão, ele começou a ser cavado logo após o retorno do grupo ao poder em 2021 e já tem aproximadamente metade do traçado executado, com meta de operação plena até 2028.
A promessa oficial é que o Qosh Tepa desvie até 10 quilômetros cúbicos de água por ano do rio Amu Darya, algo em torno de um terço do fluxo total, para irrigar áreas agrícolas hoje secas e reduzir a dependência de importações de trigo, legumes, frutas e outros alimentos básicos.
O Talibã vende o canal como solução para um país em que a agricultura emprega a maior parte da população, mas convive com falta d’água até para consumo doméstico em vários distritos.
O regime também associa o Qosh Tepa a uma estratégia de longo prazo para cortar a dependência da economia em relação ao ópio.
Antes da volta do Talibã, estima-se que o narcotráfico representasse parcela relevante do PIB, em parte porque a papoula exige muito menos água do que culturas alimentares.
A narrativa oficial agora é que, ao garantir irrigação, o canal permitirá convencer agricultores a abandonar a papoula em favor de cultivos legais com apoio do governo.
Crise de água na Ásia Central e tensões alimentadas pelo canal do Talibã

O problema é que o Qosh Tepa não existe em um vácuo.
O Amu Darya já abastece Uzbequistão, Turcomenistão e Tajiquistão, países que enfrentam escassez de água crescente, tanto para irrigação quanto para consumo humano.
Ao inserir o Afeganistão de forma abrupta na disputa pelo mesmo rio, o projeto do Talibã ameaça desestabilizar um equilíbrio hídrico que já era frágil.
Em toda a Ásia Central, a combinação de crescimento populacional, urbanização, indústria e irrigação intensiva de algodão pressiona rios e aquíferos.
Um quilo de fibra de algodão pode exigir até dezenas de milhares de litros de água, e esse modelo foi uma das causas do colapso do mar de Aral.
A região já viu protestos de rua por falta d’água, “guerras da água” em fronteiras e até confrontos armados entre Tajiquistão e Quirguistão em 2021, todos sintomas de um sistema hídrico no limite.
Nesse contexto, o canal do Talibã adiciona um novo consumidor relevante a um rio que muitos já consideram sobrecarregado.
Países como Uzbequistão e Turcomenistão, grandes irrigadores de algodão, temem perder parte do volume que alimenta seus sistemas agrícolas, enquanto Tayiquistão, Quirguistão e Cazaquistão também lidam com episódios de escassez que obrigam moradores a comprar água em recipientes ou depender de caminhões-pipa em períodos de seca severa.
Ao mesmo tempo, o Afeganistão argumenta que tem direito a usar o Amu Darya: cerca de 30% do fluxo nasce em seu território e, historicamente, o país utilizou uma fração mínima da água em comparação com vizinhos.
Para o Talibã, o Qosh Tepa é correção de uma “injustiça histórica”; para os países a jusante, é potencial gatilho de conflito político, econômico e ecológico.
Direito à água, falhas de coordenação e riscos de acidente estrutural
Do ponto de vista jurídico, nenhum país da região nega que o Afeganistão, hoje controlado pelo Talibã, tenha direito a explorar parte das águas do Amu Darya.
A preocupação central recai sobre a ausência de um acordo moderno de partilha, a falta de coordenação regional e a qualidade técnica da obra.
O canal, em boa parte de seu traçado, não conta com revestimento adequado, o que aumenta a perda por infiltração em solo arenoso e gera risco de rupturas.
Logo após a abertura do primeiro trecho, em 2023, um segmento da margem colapsou, inundando a área ao redor e formando um lago artificial de mais de 30 quilômetros quadrados.
As autoridades ligadas ao Talibã não admitiram publicamente o acidente, o que acendeu alertas sobre transparência, monitoramento e capacidade de resposta em eventuais falhas futuras, especialmente em uma estrutura que pretende desviar volumes gigantescos de água.
Apesar de não reconhecer oficialmente o governo talibã, a vizinhança tenta manter canais informais com Cabul.
Representantes do Talibã são recebidos como convidados em conferências regionais na esperança de envolvê-los em decisões conjuntas sobre água, energia e infraestrutura, enquanto Uzbequistão, Turcomenistão e Tajiquistão investem em projetos elétricos e gasodutos no território afegão.
Até agora, porém, isso não mudou a postura do regime em relação ao canal, tratado como assunto estritamente doméstico.
A combinação de um projeto hídrico dessa escala, falta de acordo de uso compartilhado, crise climática e infraestrutura envelhecida na Ásia Central empurra a situação por inércia na direção de algum tipo de choque.
A questão central é se o Talibã e os vizinhos conseguirão transformar o Qosh Tepa em ponto de cooperação e modernização ou se o canal acabará lembrado como gatilho de uma crise regional de água, segurança e legitimidade política.
Reconstrução de túnel mortal em corredor estratégico de montanha

Outro pilar da narrativa de infraestrutura do Talibã é a reconstrução de um túnel de montanha vital para a conexão entre o norte e o sul do país, frequentemente descrito como “gigante” e com histórico de acidentes fatais ao longo de décadas de uso.
Esse corredor é fundamental para o tráfego de mercadorias, combustível e alimentos durante o inverno rigoroso.
A versão apresentada pelo regime é que a nova estrutura será mais segura, ventilada e monitorada, corrigindo falhas técnicas acumuladas e reduzindo o risco de incêndios, engavetamentos e mortes em massa já registrados ali no passado.
Ao divulgar imagens de obras, reforços estruturais e equipamentos, o Talibã tenta mostrar capacidade de administrar um ativo de alto risco.
Críticos lembram que, sem protocolos internacionais claros de segurança, auditoria técnica independente e transparência em relação a materiais e sistemas de emergência, o túnel reconstruído pode continuar sendo um ponto de vulnerabilidade, sobretudo em um país com histórico de manutenção irregular e dificuldade de resposta rápida a desastres em áreas remotas.
Talibã, China e o uso geopolítico da infraestrutura
Em paralelo às obras internas, o Talibã busca proximidade com a China para tentar quebrar o isolamento diplomático.
A estratégia passa por memorandos sobre infraestrutura, mineração e possível inclusão de trechos do território afegão em corredores logísticos ligados a projetos regionais chineses.
O discurso enfatiza que o Afeganistão pode se tornar elo de ligação entre Ásia Central, sul da Ásia e o resto do continente.
Do lado chinês, o interesse declarado está em acessar rotas mais curtas e reservas minerais estratégicas, ao mesmo tempo em que se avalia o risco de instabilidade e a falta de reconhecimento internacional formal do governo talibã.
Nenhuma das partes divulga todos os detalhes dos compromissos assinados, o que alimenta especulações sobre concessões futuras de mineração, pedágios em estradas e participação em lucros de energia e logística.
Para o Talibã, qualquer aproximação com uma potência global serve como argumento interno de legitimidade.
O regime procura mostrar que, mesmo sob sanções e sem reconhecimento formal de vários países, consegue atrair capital e tecnologia estrangeira, em especial em troca de acesso privilegiado aos recursos naturais do Afeganistão.
Trilhões em minerais entre promessa e realidade econômica

Muito antes da volta do Talibã ao poder, estudos internacionais já estimavam que o subsolo afegão pudesse abrigar trilhões de dólares em minerais estratégicos, incluindo cobre, ferro, lítio e terras raras.
Desde 2021, o regime passou a citar essas estimativas como base para uma narrativa de “futuro rico” financiado pela mineração.
Na prática, transformar essa promessa em receita depende de fatores que vão além da posse física do minério.
Mineração em larga escala exige energia estável, estradas, ferrovias, linhas de transmissão, segurança para técnicos e investidores e regras mínimas de contrato e arbitragem.
Em um ambiente com sanções, restrições bancárias e dúvidas sobre respeito a compromissos, muitos potenciais parceiros permanecem cautelosos.
Há ainda o risco de que a exploração mineral concentre renda em círculos próximos à liderança do Talibã, reproduza esquemas de corrupção já vistos em outros países ricos em recursos e deixe comunidades locais com pouco mais do que degradação ambiental e deslocamentos forçados.
Sem mecanismos de transparência e repartição de receitas, a “riqueza do subsolo” pode nunca se traduzir em melhora ampla de indicadores sociais.
Infraestrutura, controle interno e custo humano
Projetos como o canal artificial e o túnel reconstruído também funcionam, para o Talibã, como instrumentos de controle político.
Ao decidir onde a água vai chegar, quais regiões serão ligadas por estradas e quem receberá empregos em obras e contratos, o regime reforça laços com aliados e marginaliza áreas consideradas hostis.
Organizações de direitos humanos apontam que investimentos em concreto e aço caminham ao lado de restrições a liberdades civis, fechamento de espaços para mulheres e meninas na educação e limitações severas à imprensa e à sociedade civil.
A construção de uma imagem de “Afeganistão em obras” convive com denúncias de violações sistemáticas, o que torna mais difícil para governos democráticos justificar qualquer aproximação econômica direta.
No longo prazo, a pergunta central é se a aposta do Talibã em megaobras, mineração e acordos seletivos será suficiente para reduzir pobreza e dependência externa ou se apenas criará nova camada de elites ligadas ao regime, mantendo a maioria da população em situação de vulnerabilidade.
Diante desse cenário de canais gigantes, túneis reconstruídos e corrida por minerais, na sua avaliação o Talibã está realmente pavimentando um futuro econômico para o Afeganistão ou apenas usando grandes obras como vitrine enquanto a população continua presa à pobreza e à falta de direitos?

Ótimo texto!
Vai acontecer exatamente o descrito nas últimas quatro linhas do penúltimo parágrafo.
You’re a 100% right. The Taliban will live like the African leaders, for life, live, while the population will go on scrounging for crumbs. Africa, unlike Afghanistan, has its minerals and natural resources reachable, but the Taliban have yet to make tracks to their hidden wealth