Pesquisa piloto do ICMBio prevê abate controlado de 500 búfalos invasores em reservas remotas do Vale do Guaporé, em Rondônia, para medir impacto ambiental, proteger cervo-do-pantanal, buritis e rios ameaçados por rebanho sem predador natural que já passa de quatro mil animais e pode chegar a quase cinquenta mil cabeças.
Em 21 de dezembro de 2025, reportagem de campo do G1 revelou que o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade iniciou uma pesquisa piloto que prevê o abate de cerca de 500 búfalos invasores em reservas isoladas da Amazônia rondoniense, no Vale do Guaporé, para testar formas de controle de um rebanho já estimado em mais de 5 mil animais.
A iniciativa ocorre em uma área de encontro raro entre Floresta Amazônica, Pantanal e Cerrado e tenta responder a uma pressão crescente: estudos apresentados ao Ministério Público Federal indicam que, sem medidas efetivas, a população de búfalos pode explodir para algo em torno de 50 mil cabeças em cinco anos, agravando o colapso de cervos, buritizais e campos alagados.
Como os búfalos invasores chegaram a uma reserva única da Amazônia

Os búfalos invasores que hoje ocupam o Vale do Guaporé não são nativos do Brasil. Eles vieram da Ásia e foram levados a Rondônia em 1953 dentro de um projeto oficial voltado ao comércio de carne e leite.
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O plano fracassou, os rebanhos foram abandonados e passaram a se reproduzir livremente dentro de unidades de conservação.
Atualmente, os animais circulam entre a Reserva Biológica Guaporé, a Reserva Extrativista Pedras Negras e a Reserva de Fauna Pau D Óleo, em uma região isolada do oeste de Rondônia.
É um mosaico de conservação considerado único, onde campos alagados, florestas e áreas de transição abrigam espécies endêmicas, muitas delas só registradas ali, segundo técnicos do ICMBio.
Relatórios recentes apontam que mais de 4 mil búfalos já vivem em condição selvagem na região, sem qualquer controle sanitário ou de manejo.
Sem predadores naturais, os búfalos invasores se expandem sobre áreas de várzea, lagos e campos naturais, disputando espaço com espécies nativas e alterando a dinâmica de água e solo em um território pensado justamente para proteger ambientes alagados.
O que o teste com 500 búfalos pretende medir no Vale do Guaporé
Diante da impossibilidade logística de retirar os animais vivos ou mortos para abate sanitário fora da área, o ICMBio desenhou uma pesquisa em três frentes.
O próprio instituto coordena a gestão da área e a logística do controle, uma empresa especializada se voluntariou para executar o abate em campo e pesquisadores da Universidade Federal de Rondônia vão analisar a sanidade de parte dos animais abatidos.
O plano é eliminar cerca de 500 búfalos, o equivalente a 10 por cento do rebanho atual, e acompanhar em detalhe como o ambiente reage.
Os pesquisadores querem saber como chegar aos animais, qual a capacidade real de abate em área remota e o que acontece quando as carcaças são deixadas no local, já que não há estrutura para remoção em larga escala.
Desde o início de 2025, o ICMBio coleta amostras de água nas mesmas áreas, antes da campanha de controle, para comparar qualidade hídrica antes e depois do abate.
Na etapa seguinte, câmeras serão instaladas em uma parte das carcaças para identificar quais animais se alimentam delas, se isso beneficia ou prejudica espécies nativas e se há risco de efeito cascata sobre a fauna local.
Cervo do pantanal encurralado pelos búfalos invasores
Entre as espécies mais afetadas pelos búfalos invasores está o cervo do pantanal, listado como vulnerável à extinção.
Em dez dias de trabalho com drones e caminhadas na região, analistas do ICMBio não registraram cervos dividindo espaço com os búfalos, o que indica segregação forçada de habitat.
Os animais asiáticos podem chegar perto de dois metros de altura e pesar mais de meia tonelada. Com esse porte, pisoteiam e destroem a vegetação baixa que serve de alimento ao cervo do pantanal, deslocando o herbívoro nativo para pequenas áreas remanescentes.
O resultado é confinamento dos cervos em bolsões isolados, com menor disponibilidade de comida e maior vulnerabilidade a doenças e caça.
A presença dos búfalos invasores também funciona como vetor de caça.
Fiscalizações já flagraram caçadores que entram nas reservas atrás de búfalo e acabam abatendo outras espécies, como cervos, jacarés e tatus.
A concentração de animais de grande porte atrai armas, munição e redes de caça ilegal para dentro de unidades que deveriam ser de proteção integral.
Caminhos de búfalo viram canais de drenagem e secam campos alagados
Um traço de comportamento do búfalo tem efeito direto sobre a hidrologia da região. Os rebanhos se deslocam em filas, abrindo trilhas profundas no solo úmido.
Com o tempo, essas trilhas se transformam em canais que desviam a água de seu curso natural, drenando lagoas e áreas úmidas que deveriam permanecer alagadas ao longo do ano.
Os campos naturalmente alagados da Reserva Biológica Guaporé, criados para proteger justamente esse tipo de ambiente, passam a perder água por esses “corredores” abertos pelos búfalos invasores.
A água que antes formava lâminas rasas e lagoas sazonais escapa para pontos mais baixos, deixando para trás superfícies ressecadas e mais suscetíveis a fogo e erosão.
Outro impacto grave é a compactação intensa do solo, principalmente em áreas próximas a lagos. Técnicos já identificaram trechos em que a superfície afundou cerca de um metro, expondo raízes de árvores que acabam morrendo.
No lugar da mata, sobra vegetação rasteira ou mesmo solo nu, alterando de forma estrutural a paisagem que a unidade de conservação deveria manter.
Buritizais transformados em cemitério e incêndio que queimou até o solo
Em visita recente, equipes de campo registraram um verdadeiro “cemitério” de buritis.
Essas palmeiras, adaptadas a áreas permanentemente úmidas, perderam a capacidade de reter água por causa dos búfalos, que compactam o solo, abrem canais de drenagem e esmagam as mudas, impedindo a regeneração natural do buritizal.
O resultado é uma combinação de solo mais seco, raízes expostas e acúmulo de matéria orgânica morta.
Em 2024, a região registrou pela primeira vez um incêndio suficientemente intenso para queimar até o solo, algo incomum em ambientes originalmente alagados.
Sem reduzir a pressão dos búfalos invasores, analistas estimam que a recuperação plena desse tipo de área poderia levar de 70 a 100 anos, se é que voltará ao estado original.
Além da perda de buritizais, a presença de carcaças de fauna abatida de forma ilegal reforça a percepção de que o rebanho exótico facilita a entrada de caçadores.
No mesmo espaço em que se busca proteger espécies endêmicas e migratórias, a combinação de solo degradado, água desviada e caça pressiona ainda mais a fauna nativa.
MPF, Justiça Federal e o plano maior para erradicar o búfalo asiático
A pesquisa piloto ocorre em paralelo a uma Ação Civil Pública do Ministério Público Federal que pretende obrigar ICMBio e governo de Rondônia a adotar medidas urgentes de controle do búfalo asiático.
Em 24 de novembro de 2025, o juiz Frank Eugênio Zakalhuk reconheceu a gravidade da situação e o risco de agravamento com o crescimento acelerado do rebanho.
Em vez de determinar imediatamente o abate em massa, a decisão judicial deu três meses para que ICMBio e Estado apresentem um plano de controle e erradicação dos búfalos invasores, com metodologia científica, avaliação de riscos, medidas de segurança, cronograma, custos e definição do destino dos animais e das carcaças.
O MPF também pediu que o Estado arque com 20 milhões de reais em danos morais coletivos, destinados a ações de reflorestamento nas unidades impactadas.
O próprio ICMBio afirma que a pesquisa de campo não trava o plano exigido pela Justiça e, ao contrário, deve fornecer dados técnicos sobre sanidade, qualidade da água, uso de carcaças por outras espécies e capacidade real de abate em área remota.
A disputa central é se o país aceita conviver com os búfalos invasores como nova espécie dominante nesses campos alagados ou se escolhe priorizar cervos, buritis e rios que motivaram a criação das reservas.
Diante desse cenário de degradação rápida e de teste para abater 500 animais em área isolada, na sua avaliação o Brasil deve avançar para um plano amplo de erradicação dos búfalos invasores do Vale do Guaporé ou buscar outra saída mesmo que isso signifique arriscar a perda definitiva dos cervos e buritizais da região?

O brasil é uma piada, vão gastar para matar búfalos, era só legalizar a caça, vender licenças, um americano pagaria facil de 5000,00 a 10000,00 dólares para caçar um bufalo.