Reforma conduzida no Jardim Colombo expõe como soluções simples de arquitetura podem mudar a rotina de moradores em casas extremamente pequenas, onde falta estrutura básica para dormir, cozinhar e usar banheiro com privacidade.
Francisco da Silva, conhecido como Tiquinho, morava em um espaço de apenas 4 m² no Jardim Colombo, no Complexo Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.
Sem banheiro, cozinha, água encanada ou geladeira, ele dormia em uma cama improvisada próxima ao teto, acessada pela parede.
A situação mudou após uma reforma conduzida pelo projeto Fazendo o Lar, iniciativa do Instituto Fazendinhando, presidido pela arquiteta Ester Carro, nascida e criada na comunidade.
-
Cidade de 4.000 anos cresceu, ficou mais rica e reduziu a desigualdade entre moradores, revela estudo que encontrou casas cada vez mais parecidas, ausência de palácios e investimentos coletivos em drenagem, ruas organizadas e comércio
-
Folha perdida do Palimpsesto de Arquimedes reaparece em museu da França após décadas desaparecida e pode revelar, com raios X e imagens multiespectrais, cálculos matemáticos escondidos há séculos sob uma pintura adicionada ao manuscrito no século XX
-
Benefícios para professores: medida anunciada pelo MEC libera benefícios para aquisição de smartphones, notebooks e tablets destinados a professores, fortalecendo a inclusão tecnológica, incentivando a qualificação profissional e ampliando o acesso a ferramentas digitais de aprendizagem
-
Mulher vive há seis meses em aeroporto do Brasil após perder passaporte e passagem; aos 56 anos, imigrante enfrenta uma espera angustiante para tentar rever o filho de 15 anos.
A intervenção ampliou a moradia para 11 m² e incluiu banheiro, pia de cozinha, frigobar, cama suspensa, móveis com nichos e uma escada sob medida.
Segundo reportagem do NeoFeed publicada em 21 de abril de 2025, a obra foi viabilizada com R$ 10 mil arrecadados em campanha pela internet e executada com apoio de moradores.
Casa de 4 m² em Paraisópolis virou símbolo de reforma em moradia precária
O caso de Tiquinho ganhou repercussão nas redes como a “menor casa do Brasil”.
Antes da reforma, o morador não tinha estrutura básica para atividades cotidianas, como tomar banho com privacidade, cozinhar ou armazenar alimentos.
A página do Fazendinhando dedicada ao projeto informa que ele vivia em uma casa de 4 m², com cama suspensa no teto, sem água encanada e sem geladeira.
Para adaptar o espaço, Ester Carro desenhou soluções de uso múltiplo.
A escada de acesso à cama também passou a funcionar como móvel de armazenamento, enquanto a área reformada recebeu revestimento, piso, azulejo, pintura e um pequeno jardim feito pelo próprio morador.

Em entrevista ao NeoFeed, a arquiteta definiu a obra como “um dos meus maiores desafios”.
A reforma reorganizou o uso interno da moradia para separar, dentro de uma área reduzida, funções como descanso, higiene, alimentação e circulação.
Com a mudança, o imóvel deixou de ser um cômodo sem banheiro e sem acesso à água para ter infraestrutura básica e mobiliário planejado conforme as limitações do espaço.
Quem é Ester Carro, arquiteta criada no Jardim Colombo
Ester Carro nasceu e cresceu no Jardim Colombo, um dos núcleos do Complexo Paraisópolis.
A comunidade fica ao lado do Morumbi, bairro da zona sul de São Paulo conhecido pela presença de condomínios de alto padrão, mansões, ruas asfaltadas e áreas arborizadas.
A trajetória da arquiteta é ligada a esse contraste urbano, relatado por ela em entrevistas e textos publicados sobre o trabalho do Fazendinhando.
Filha de pedreiro e neta de marceneiro, Ester teve contato com a construção civil antes de ingressar na arquitetura.
O pai, Ivanildo de Oliveira, também líder comunitário, costumava levá-la a reuniões sobre projetos públicos na favela.
Ao NeoFeed, ela disse que passou a ver a arquitetura e o urbanismo como ferramentas de transformação social ao compreender o impacto dessas áreas na vida dos moradores.
A entrada na faculdade trouxe outro desafio relatado pela arquiteta.
Segundo Ester, ela era a única aluna da turma que morava em uma favela e, naquele período, havia pouca discussão sobre arquitetura social ou empreendedorismo de impacto no curso.
Atualmente, ela preside o Instituto Fazendinhando, organização que se define como um instituto de transformação territorial, cultural e socioambiental.
De acordo com o Fazendinhando, Ester é arquiteta e ativista, foi destaque na lista Forbes Under 30 de 2023 na categoria design, é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, mestre em Planejamento Urbano pela FIAM-FAAM e especialista em Urbanismo Social pelo Insper e em Habitação e Cidade pela Escola da Cidade.
Paraisópolis está entre as maiores favelas do Brasil
O Complexo Paraisópolis aparece entre os maiores territórios de favela do Brasil.
Segundo dados do Censo 2022 divulgados pelo IBGE, Paraisópolis tinha 58.527 moradores e era a terceira favela ou comunidade urbana mais populosa do país, atrás da Rocinha, no Rio de Janeiro, e de Sol Nascente, em Brasília.
O mesmo levantamento identificou 12.348 favelas e comunidades urbanas no Brasil, onde viviam 16.390.790 pessoas, o equivalente a 8,1% da população do país.
Esses dados contextualizam o alcance do déficit de infraestrutura urbana e habitacional em áreas desse tipo, embora cada território tenha características próprias.
No Jardim Colombo, relatos publicados por Ester e pelo Fazendinhando apontam a presença de moradias pequenas, vielas estreitas e imóveis adaptados conforme a necessidade das famílias.
Em texto publicado pela revista Piseagrama, a arquiteta afirmou que nasceu no Jardim Colombo e descreveu a diferença entre a comunidade e o entorno do Morumbi.
Do lixão ao Parque Fazendinha no Jardim Colombo
Antes de ganhar visibilidade com reformas de casas, Ester esteve à frente da transformação de uma área de cerca de mil metros quadrados usada como lixão no Jardim Colombo.
O espaço passou a ser convertido no Parque Fazendinha, com participação de moradores em mutirões e ações coletivas.
A área ficava em um dos poucos espaços livres do território, segundo relato publicado por Ester na Piseagrama.
No texto, a arquiteta afirmou que o local estava tomado por lixo e que a retirada dos resíduos envolveu mobilização comunitária e cobrança junto ao poder público.
Depois da intervenção, o espaço passou a receber atividades de convivência, lazer e cultura.
A partir dessa experiência, outras demandas chegaram ao instituto.
Uma delas foi a melhoria de moradias precárias, organizada no projeto Fazendo o Lar.
Segundo o NeoFeed, a iniciativa já havia transformado 360 ambientes até a publicação da reportagem, com apoio de doações, voluntários, mutirões e parceiros privados.
Mulheres da comunidade são capacitadas para obras
Outro desdobramento do trabalho no Jardim Colombo foi o Fazendeiras, projeto voltado à capacitação de mulheres da comunidade para atuar na construção civil.
A iniciativa foi criada em um contexto de desemprego, baixa escolaridade e aumento da vulnerabilidade social durante a pandemia, conforme relatado pelo NeoFeed.
Os cursos são oferecidos por moradores que já trabalham como pedreiros, azulejistas e profissionais da área, além de parceiros como Tintas Coral e Senai.
Até a publicação da reportagem, cerca de 400 mulheres haviam passado pela formação.
Entre elas está Tainá, que entrou no projeto após ver uma vaga para curso de azulejista divulgada por Ester em um grupo da comunidade.
Depois, também fez formações em pintura, elétrica e instalação de piso vinílico.
Com a experiência, passou a atuar nas reformas do Jardim Colombo e se tornou coordenadora do Fazendeiras.
Reforma de casa sem banheiro completo também está na fila
A fila de reformas também inclui o caso de Daniela Aparecida Cesário, identificada pelo NeoFeed como desempregada e mãe de cinco filhos.
Ela morava na parte de cima da casa da irmã, em um espaço de três cômodos sem banheiro completo.
A filha mais velha chegou a fazer um empréstimo para tentar construir a estrutura, mas o dinheiro só permitiu instalar a privada, sem torneira ou descarga.
“Sem torneira, sem descarga, sem nada”, disse Taína, filha de Daniela, ao relatar a situação ao NeoFeed.
Segundo ela, a reforma permitiria que a mãe e os irmãos passassem a usar um banheiro dentro da própria casa, sem depender da estrutura de outras pessoas.
No Jardim Colombo, os projetos conduzidos por Ester Carro reúnem arquitetura, mutirão, doações e capacitação local para enfrentar problemas concretos de moradia.
Nos casos relatados pelo Fazendinhando e pelo NeoFeed, as intervenções envolvem ambientes pequenos, ausência de banheiro, falta de água, pouca ventilação e necessidade de móveis adaptados ao tamanho dos imóveis.
Em casas como a de Tiquinho, soluções como cama suspensa, pia, banheiro e escada planejada alteram o uso cotidiano do espaço.
A experiência também mostra como reformas de pequena escala podem atender necessidades básicas que permanecem fora do alcance de parte dos moradores de comunidades urbanas.

