Tecnologia chinesa do BUD, o bonde urbano digital, coloca o trem sem trilhos no radar de sete capitais brasileiras e atrai olhares da América Latina
O trem sem trilhos, aquele veículo que vive viralizando nas redes sociais por dispensar trilhos físicos e rodar direto no asfalto, deixou de ser apenas curiosidade de internet para virar projeto concreto no Paraná. Guiado por trilhos virtuais, com pneus de borracha e cara de VLT moderno, o sistema promete unir alta capacidade, tecnologia ferroviária e operação sobre o asfalto em uma combinação que mexe com o imaginário de quem depende do transporte coletivo todos os dias.
Agora em fase de montagem e testes no estado, o modelo batizado de BUD, o bonde urbano digital, já despertou um interesse enorme de outras regiões. Ao menos sete capitais brasileiras procuraram o governo paranaense para conhecer de perto o trem sem trilhos, enquanto cidades e governos da Argentina, Costa Rica, Colômbia e Chile também querem entender como essa solução pode ser aplicada fora do Brasil.
O que é o trem sem trilhos
O chamado ART, sigla em inglês para Autonomous Rail Rapid Transit, é a base tecnológica do trem sem trilhos que chega ao Paraná. Embora muita gente olhe para o veículo e diga que “é só um ônibus”, a proposta vai além: ele roda sobre pneus de borracha, no asfalto, mas segue um traçado virtual como se estivesse preso a trilhos invisíveis, combinando características de ônibus, VLT e sistemas ferroviários modernos.
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O veículo foi desenvolvido pela chinesa CRRC, gigante mundial na fabricação de trens, e é encarado como uma aposta de inovação, sofisticação, sustentabilidade e baixo custo operacional em comparação com linhas de VLT tradicionais. Ele possui cerca de 30 metros de comprimento, três eixos e capacidade para transportar até 280 passageiros, podendo atingir velocidades de até 70 km/h, o que o coloca no patamar de corredores de alta capacidade.
Na parte tecnológica, o trem sem trilhos utiliza recursos de detecção ferroviária, controle coordenado de eixos e rastreamento automático. Isso aproxima o sistema da confiabilidade dos trens em relação a horários de partida e chegada, algo que os ônibus convencionais ainda lutam para alcançar. Por isso, especialistas apontam que ele não pode ser “rebaixado” ao status de simples ônibus: o BUD acaba ficando no meio do caminho entre um ônibus articulado e um VLT moderno, criando praticamente uma nova categoria de veículo leve sobre pneus.
Paraná sai na frente com o BUD
No Brasil, quem decidiu sair na frente foi o governo do Paraná, que está implantando o trem sem trilhos em um trecho que vai ligar Pinhais a Piraquara, na região metropolitana de Curitiba. O projeto é conduzido pela Agência de Assuntos Metropolitanos do Paraná (AMEP) e foi apresentado oficialmente em setembro, com previsão de início dos testes em novembro, em uma espécie de “projeto vitrine” para o país e para a América do Sul.
Segundo o governador Ratinho Júnior, trazer o sistema para o estado é motivo de comemoração, já que se trata de uma inovação para o transporte público da América do Sul, pensada para aumentar a comodidade e a qualidade de vida dos trabalhadores e de quem usa o transporte coletivo diariamente. A fase atual é de montagem do veículo e preparação da infraestrutura necessária, etapa que tem atraído delegações de diferentes estados curiosas para ver de perto o funcionamento do trem sem trilhos no ambiente real.
Gilson Santos, diretor-presidente da AMEP, reforça que a expectativa é iniciar em breve os testes antes da operação com o público. A cada nova visita técnica, cresce a sensação de que o BUD pode inaugurar uma nova forma de planejar corredores de transporte: sem necessidade de trilhos físicos, mas com organização, alta capacidade e controle típico de sistemas ferroviários.
Sete capitais brasileiras de olho no trem sem trilhos
O movimento em torno do trem sem trilhos não ficou restrito ao Paraná. De acordo com o governo estadual, Florianópolis, São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Cuiabá já procuraram o estado para saber mais detalhes do sistema. Cada uma dessas cidades carrega, há anos, discussões sobre VLT, BRT e alternativas para aliviar corredores lotados e redes de ônibus pressionadas.
Florianópolis estuda projetos de VLT ou BRT para enfrentar a mobilidade complicada da região insular e continental. São Paulo, por sua vez, tem histórico de corredores de ônibus e projetos de VLT em discussão, o que faz o trem sem trilhos entrar como uma solução possível em avenidas já saturadas, mas sem espaço ou orçamento imediato para trilhos convencionais. Brasília, Belo Horizonte e Rio de Janeiro também analisam diferentes modelos de corredores estruturados, com o Rio cogitando, inclusive, transformações mais profundas na rede de BRT.
Cuiabá chama atenção por um motivo especial. A capital mato-grossense viveu o trauma de um projeto de VLT que nunca saiu plenamente do papel e se viu envolvido em denúncias e problemas de execução. Para cidades com esse histórico, conhecer o trem sem trilhos pode significar uma nova chance de apostar em transporte de alta capacidade com menos obras pesadas, já que o sistema opera diretamente no asfalto e dispensa a construção de trilhos tradicionais.
Interesse internacional e impacto na mobilidade
O radar do trem sem trilhos já ultrapassou as fronteiras brasileiras. Cidades argentinas como Buenos Aires e Córdoba, além de representantes da Costa Rica, Colômbia e Chile, também demonstraram interesse no modelo implantado no Paraná. A visita dessas delegações mostra que a combinação de tecnologia chinesa com um corredor brasileiro em escala real virou um laboratório a céu aberto para a região.
Ao mesmo tempo, o sistema reacende um debate clássico: afinal, isso é trem, ônibus ou VLT? Para muitos usuários, o visual lembra um veículo articulado mais sofisticado. Para especialistas, o fato de ter truque ferroviário, sistema de controle semelhante ao dos trens e operação guiada por trilhos virtuais pesa na hora de classificá-lo. Na prática, o trem sem trilhos nasce como um híbrido, que tenta juntar o melhor de três mundos: a confiabilidade do trem, a flexibilidade do ônibus e o visual moderno do VLT.
Se os testes no Paraná forem bem-sucedidos, o trem sem trilhos pode ganhar força como opção para corredores estruturados em grandes cidades brasileiras e latino-americanas, especialmente onde há planos de VLT ou BRT travados por custo, prazos ou questões políticas. Um veículo de 280 lugares, guiado por tecnologia avançada e rodando direto no asfalto, muda o patamar da conversa sobre transporte coletivo, principalmente em um cenário em que mobilidade, meio ambiente e eficiência urbana estão cada vez mais conectados.
E você, se tivesse a chance de escolher na sua cidade, apostaria em um trem sem trilhos como alternativa ao ônibus e ao metrô tradicionais?


Não vi nenhum Representante do nordeste se manifestar sobre essa tecnologia