A Albany International, empresa americana com faturamento de US$ 1,18 bilhão em 2025, mantém fábrica em Indaial às margens da BR-470, onde produz feltros técnicos que revestem máquinas de papel de gigantes como Klabin, Suzano e Bracell, tecidos industriais invisíveis ao consumidor mas essenciais para fabricar desde papel higiênico até papelão.
A fábrica mais discreta da BR-470 em Santa Catarina não tem placas luminosas, não exibe filas de caminhões e não anuncia promoções para atrair clientes. A construção de tijolinhos em Indaial, a poucos quilômetros de Blumenau, abriga uma das operações industriais mais estratégicas do país: a unidade da Albany International que produz feltros e mantas de altíssima precisão utilizados por máquinas de papel em todo o Brasil e na América do Sul. A empresa americana, de capital aberto e sediada em New Hampshire, é líder global no segmento que ela mesma batizou de Machine Clothing, expressão que se traduz literalmente como “roupas para máquinas”, e seu faturamento anual chegou a US$ 1,18 bilhão em 2025, equivalente a aproximadamente R$ 6,7 bilhões.
O que torna a fábrica em Indaial particularmente relevante é o que sai de dentro dela. Os feltros e mantas técnicas produzidos na unidade catarinense são componentes que revestem as enormes máquinas industriais usadas por papeleiras para formar, prensar e secar folhas de papel em alta velocidade, processo que sem esses tecidos de engenharia simplesmente não funciona. Cada caixa de papelão, cada caderno, cada rolo de papel higiênico que o consumidor brasileiro utiliza passou, em algum momento da cadeia produtiva, por uma máquina que só opera porque está vestida com material como o que a fábrica da Albany produz em Santa Catarina.
O que a fábrica da Albany produz em Indaial e por que ninguém sabe

O segmento Machine Clothing é o negócio mais tradicional da Albany e responde por parcela significativa de sua receita global. A fábrica catarinense fabrica feltros técnicos que precisam suportar temperaturas extremas, pressão contínua e atrito intenso durante horas seguidas de operação dentro das máquinas de papel, resistência que exige engenharia de materiais comparável à de componentes aeroespaciais. Cada manta é inspecionada milimetricamente antes de sair da unidade, porque qualquer falha no tecido pode comprometer toneladas de produção na papeleira que o utiliza.
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A razão pela qual o brasileiro médio nunca ouviu falar da Albany está no modelo de negócio. A empresa opera exclusivamente no formato B2B (business to business), vendendo para indústrias e não para consumidores finais, o que significa que seu produto nunca aparece numa prateleira de supermercado nem estampa propaganda em horário nobre. o feltro industrial se incorpora à máquina, não ao produto da prateleira. O consumidor enxerga a caixa de papelão da encomenda, a folha de sulfite da impressora e o caderno escolar do filho, mas não tem ideia de que um feltro fabricado numa fábrica discreta de Indaial participou da criação de cada um desses itens.
Por que a Albany escolheu Santa Catarina para sua fábrica no Brasil

A localização na BR-470 não foi escolha aleatória. A fábrica de Indaial fica a aproximadamente 160 quilômetros de uma das maiores plantas de celulose da América Latina, e a Albany se instalou em Santa Catarina prioritariamente para atender a Klabin, que opera em Otacílio Costa a máquina PM 27, um dos maiores e mais modernos equipamentos do mundo para produção de papéis para embalagens. Estar perto do principal cliente reduz custo logístico, acelera entregas e permite suporte técnico presencial quando as máquinas exigem troca ou ajuste dos feltros.
Além da Klabin, a fábrica catarinense abastece outras gigantes do setor papeleiro no Brasil e no continente. Suzano e Bracell figuram entre os clientes atendidos pela unidade de Indaial, que funciona como centro de distribuição regional para toda a América do Sul. A decisão de concentrar a operação em Santa Catarina reflete uma estratégia de proximidade com o mercado consumidor industrial, posicionamento que transforma a fábrica discreta da BR-470 em peça central do xadrez corporativo de uma empresa que fatura bilhões operando longe dos holofotes.
O outro lado bilionário da Albany que vai além da fábrica de SC
A produção de tecidos industriais é apenas metade do negócio da Albany. O segmento Albany Engineered Composites (AEC) fabrica componentes estruturais em materiais compósitos avançados destinados à indústria aeroespacial, incluindo peças que integram motores de aeronaves da Boeing e da Airbus, atividade que coloca a empresa no mesmo ecossistema de fornecedores que abastecem as maiores fabricantes de aviões do planeta. É nesse braço que estão os materiais de maior valor agregado e a fronteira tecnológica mais avançada da companhia.
A combinação de tecidos para papel e compósitos para aviões pode parecer improvável, mas faz sentido industrial. Ambas as divisões trabalham com engenharia de materiais de alta performance que precisam resistir a condições extremas, seja a temperatura de uma secadora industrial de papel ou a pressão de um motor a jato. Apesar do faturamento robusto, a Albany registrou resultado líquido negativo de US$ 57 milhões em 2025, puxado por custos excessivos e dificuldades em contratos aeroespaciais, problema que a diretoria afirmou estar controlando para 2026. A fábrica de Indaial, vinculada ao segmento de tecidos industriais, opera em terreno mais estável que o braço aeroespacial.
O que a fábrica invisível de SC revela sobre a economia que ninguém vê
A Albany International é o tipo de empresa que sustenta cadeias produtivas inteiras sem que ninguém perceba. Sem os feltros que saem da fábrica de Indaial, as máquinas de papel param, e quando máquinas de papel param, o papelão das embalagens não é produzido, os cadernos não chegam às papelarias e até mesmo os pacotes da Amazon deixam de ser despachados. A invisibilidade do produto não diminui sua importância; ao contrário, torna a empresa ainda mais estratégica justamente porque sua ausência seria notada por todos.
Para quem passa pela BR-470 e vê apenas uma construção de tijolinhos sem nenhum sinal externo de grandeza, a fábrica da Albany é lembrete de que a economia funciona sobre camadas que o olho não alcança. Uma empresa de R$ 6,7 bilhões operando em silêncio numa cidade de Santa Catarina, produzindo algo que ninguém vê mas que todos usam, é a definição mais precisa do que significa ser essencial sem ser conhecido.
E você, já tinha ouvido falar da Albany International? Sabia que uma fábrica em SC produz componentes usados por papeleiras de todo o continente? Deixe sua opinião nos comentários.

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