Na 47ª edição da maior competição de educação profissional do planeta, a delegação brasileira enfrentou 1.400 competidores de 69 países e deixou França, Taiwan e Índia para trás no ranking de pontos
A WorldSkills 2024 terminou com o Brasil no pódio dos países. Entre os dias 10 e 15 de setembro de 2024, em Lyon, na França, 64 alunos e ex-alunos do SENAI e do SENAC disputaram 56 das 59 modalidades do mundial das profissões técnicas e fecharam a competição com 8 medalhas, segundo o Portal da Indústria: 1 de ouro, 4 de prata e 3 de bronze.
No ranking geral de soma de pontos, segundo a CNI, o Brasil terminou em 2º lugar, atrás apenas da China e à frente de França, Taiwan e Índia. Além das medalhas do pódio, 27 brasileiros levaram medalhas de excelência em 23 ocupações, o reconhecimento dado a quem pontua acima da média mundial da sua profissão.
O tamanho da disputa: 1.400 competidores de 69 países
A WorldSkills é o equivalente a uma olimpíada, só que de profissões. A cada 2 anos, os melhores jovens profissionais do planeta se enfrentam em provas práticas cronometradas de soldagem, mecatrônica, confeitaria, robótica, eletricidade e dezenas de outras ocupações, julgados por bancas internacionais com critérios milimétricos.
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A WorldSkills 2024, 47ª edição da história, reuniu em Lyon 1.400 competidores de 69 países, segundo o Portal da Indústria. O Brasil desembarcou com uma força-tarefa de cerca de 170 pessoas: 64 competidores, 57 especialistas técnicos e 36 intérpretes, uma estrutura de seleção nacional montada para brigar de igual para igual com potências industriais.
O ouro saiu do salão: a campeã mundial do Brasil
O único ouro brasileiro da edição tem nome, sobrenome e endereço: Bruna Pimentel Martins, do Rio de Janeiro, campeã mundial na modalidade Cabeleireiro, segundo o Portal da Indústria. Diante do resultado, a reação dela resumiu o tamanho do feito: “Quando eu vi o resultado eu fiquei, ‘eu não acredito’!”
Vale dimensionar o que esse título significa. Numa prova em que cada detalhe técnico de corte, coloração e acabamento é pontuado por jurados de vários países, a jovem carioca superou as melhores profissionais de potências como França, Coreia do Sul e Japão dentro da especialidade, provando que alta performance técnica não mora só nas fábricas.
As 4 pratas: da fresadora CNC ao cuidado de pacientes

A prata brasileira veio de onde o país tem tradição industrial. Segundo o Portal da Indústria, André Luis Dono, de São Paulo, ficou em 2º do mundo em Fresagem a CNC, e João Lucas Gomes Guimarães, também de São Paulo, repetiu a posição em Tornearia a CNC, as duas modalidades que medem a elite mundial da usinagem de precisão, base de toda a indústria metalmecânica.
Completaram a lista de pratas Victor Rodrigo de Freitas Ferreira, de Minas Gerais, em Tecnologia em Design Industrial, e Estéfany Mariana dos Santos Marengoni, do Paraná, em Cuidados de Saúde. Quatro estados diferentes, quatro áreas distintas, uma mesma régua: o topo do mundo.
Os bronzes e as 27 medalhas de excelência
O pódio brasileiro fechou com 3 bronzes, segundo o Portal da Indústria: João Luiz Diniz Carvalho (MG) em Mecânica Industrial, Nathan Crepaldi Rodrigues (SP) em Optoeletrônica e Samuel França dos Santos (SP) em Logística e Envios Internacionais.
Tão revelador quanto o pódio é o pelotão logo atrás dele. Foram 27 medalhas de excelência em 23 ocupações diferentes, o selo dado a quem performa acima da média mundial. Traduzindo: em quase metade das modalidades que disputou, o Brasil colocou gente entre os melhores do planeta, de mecatrônica a serviços de restaurante.
Essa distribuição importa mais do que parece. Um país pode ter sorte com um talento isolado numa modalidade; nenhum país espalha desempenho acima da média por 23 ocupações sem um sistema de formação sólido por trás. É a diferença entre ganhar na loteria e ter uma linha de produção de excelência funcionando em série, turma após turma.
Só a China na frente: o placar final da WorldSkills 2024

No placar final por soma de pontos, segundo a CNI, a ordem ficou assim: China em 1º, Brasil em 2º, seguidos por França, Taiwan e Índia. O detalhe que dá peso ao resultado: o Brasil bateu a própria anfitriã França dentro de casa e deixou para trás economias com tradição secular de formação técnica.
Para um país que ainda luta contra o estigma de que ensino técnico é plano B, terminar um mundial de profissões na frente de quase todo o planeta industrializado é um recado e tanto sobre a qualidade da educação profissional brasileira quando ela recebe estrutura de verdade.
Uma máquina de formar campeões desde 1983
O resultado de Lyon não caiu do céu. Segundo a CNI, o Brasil disputa a WorldSkills desde 1983 e vem empilhando campanhas de elite: em Kazan 2019, por exemplo, o país terminou em 3º lugar geral, com 13 medalhas, sendo 2 de ouro, 5 de prata e 6 de bronze, além de 28 certificados de excelência.
Quatro décadas de participação transformaram a seleção brasileira das profissões numa das mais respeitadas do torneio, com um sistema próprio de seletivas estaduais e nacionais que filtra, entre milhões de alunos da rede SENAI e SENAC, os 60 e poucos nomes que vestem a camisa do país.
O que isso diz sobre o mercado de trabalho técnico
Por trás das medalhas existe uma tese econômica. Gustavo Leal, diretor geral do SENAI e delegado oficial do Brasil na competição, resumiu o ponto: os maiores méritos da competição são mostrar aos jovens o caminho da educação profissional e provar que um ensino conectado à empresa e ao mercado de trabalho transforma vidas, segundo o Portal da Indústria.
A conta fecha com o que a indústria brasileira vive hoje: falta gente qualificada em usinagem, mecânica, eletricidade e automação, exatamente as áreas em que o país acabou de subir ao pódio mundial. Cada medalha dessas é um outdoor para as carreiras técnicas que pagam bem e seguem com vagas abertas.
O caminho de quem quer chegar lá
A esteira que leva um aluno de curso técnico ao mundial passa por competições internas, seletivas estaduais e uma seletiva nacional, sempre dentro da rede de ensino profissionalizante. O competidor treina por anos com especialistas dedicados, no mesmo formato de um atleta olímpico, até representar o país.
O detalhe que costuma passar despercebido é que esse treinamento não forma só medalhista: forma instrutor, técnico de fábrica e empreendedor. Boa parte dos ex-competidores volta para a rede como especialista, multiplicando o padrão internacional de qualidade entre milhares de novos alunos. É um ciclo que se retroalimenta a cada edição do torneio.
Para o jovem que está escolhendo carreira agora, a mensagem de Lyon é direta: a formação técnica virou rota de elite, com pódio mundial, emprego garantido nas áreas industriais e salários que disputam com carreiras universitárias tradicionais.
O que fica depois de Lyon
O 2º lugar na WorldSkills 2024 recoloca o Brasil na briga pelo topo que já ocupou em edições anteriores e joga pressão sobre a próxima geração de competidores, que já começa suas seletivas mirando a edição seguinte do torneio. A régua da WorldSkills 2024 está definida: só a China ficou na frente.
E fica a provocação para o leitor: se o ensino técnico brasileiro compete de igual pra igual com o mundo inteiro, por que ele ainda é tratado como segunda opção por aqui? Conta pra gente nos comentários se você faria, ou já fez, um curso técnico industrial.
