1. Início
  2. Construção
  3. Para fazer a água do São Francisco vencer o trecho mais difícil da transposição o Brasil furou 6,5 km de rocha e criou o Túnel Major Sales capaz de empurrar 20 mil litros de água a cada segundo, alcançando o oeste potiguar no meio do semiárido
Faça um comentário 6 min de leitura

Para fazer a água do São Francisco vencer o trecho mais difícil da transposição o Brasil furou 6,5 km de rocha e criou o Túnel Major Sales capaz de empurrar 20 mil litros de água a cada segundo, alcançando o oeste potiguar no meio do semiárido

Imagem de perfil do autor Maria Heloisa Barbosa Borges
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 01/07/2026 às 22:15 Atualizado em 01/07/2026 às 22:17
Túnel Major Sales: o Brasil furou 6,5 km de rocha para a água do São Francisco chegar ao oeste potiguar a 20 mil litros por segundo.
Túnel Major Sales: o Brasil furou 6,5 km de rocha para a água do São Francisco chegar ao oeste potiguar a 20 mil litros por segundo.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

A obra que destrava a chegada da água transposta ao Rio Grande do Norte foi concluída em 2026 e tem inauguração oficial em julho, vencendo o ponto mais complexo do Ramal do Apodi

O Túnel Major Sales resolve um problema que parecia insolúvel: como fazer a água transposta do Rio São Francisco atravessar um maciço rochoso e chegar ao oeste do Rio Grande do Norte. A resposta foi escavar 6,5 quilômetros de túnel dentro da rocha, uma estrutura capaz de conduzir até 20 metros cúbicos de água por segundo, o equivalente a 20 mil litros a cada segundo, rumo ao sertão potiguar.

A obra venceu o trecho mais complexo do ramal e teve conclusão em 2026, com inauguração oficial marcada para julho, em Luís Gomes (RN). É engenharia pesada a serviço da coisa mais básica que existe: água para quem sempre conviveu com a seca.

O trecho que parecia impossível

Todo grande projeto hídrico tem um ponto que trava tudo, e nesse ramal esse ponto era a travessia de um relevo acidentado que separava a água já transposta do seu destino final. Sem vencer esse obstáculo, o restante da obra não entregava resultado a ninguém.

A solução não foi contornar a montanha, foi atravessá-la por dentro. Em vez de longos desvios superficiais, os engenheiros optaram por perfurar a rocha e criar um caminho subterrâneo direto para a água. É o tipo de decisão que encarece e complica a obra no curto prazo, mas resolve o gargalo de forma definitiva.

Segundo o Palácio do Planalto, o Túnel Major Sales é parte da estrutura que leva as águas do Rio São Francisco ao oeste do Rio Grande do Norte por esse ramal. Ao furar o trecho crítico, a obra abre caminho para que a água finalmente avance na direção potiguar.

6,5 km de rocha para a água atravessar

Galeria escavada na rocha conduz a água transposta protegida do relevo e do calor
Galeria escavada na rocha conduz a água transposta protegida do relevo e do calor

Os números do túnel dão a dimensão do feito. São 6,5 quilômetros de extensão escavados para criar um canal subterrâneo por onde a água corre protegida da evaporação e do relevo. A capacidade de transporte chega a 20 metros cúbicos por segundo, uma vazão robusta para um ramal de abastecimento no semiárido.

Para ter noção do volume, esses 20 mil litros a cada segundo, despejados de uma vez, encheriam uma caixa d’água doméstica comum quase instantaneamente, e sustentam o abastecimento de dezenas de municípios ao longo do trajeto. É água em escala de rio, canalizada por dentro de uma serra.

Fazer isso em rocha exige perfuração, contenção, revestimento e controle geotécnico rigoroso, tudo em uma região de acesso difícil. Não é a parte glamourosa da transposição, mas é a que decide se a água chega ou não ao ponto final.

O que é o Túnel Major Sales e onde fica

Ele integra um dos braços do Projeto de Integração do Rio São Francisco, o PISF, popularmente conhecido como transposição. A inauguração oficial da estrutura acontece em julho de 2026, em Luís Gomes, no Rio Grande do Norte, na fronteira entre a Paraíba e o estado potiguar.

Sua função é precisa: ser a passagem que conecta o que já foi construído à região ainda não atendida. Sem o túnel, a água transposta esbarraria no relevo e não completaria o percurso até o oeste do Rio Grande do Norte.

É por isso que uma obra relativamente curta, de 6,5 km, tem peso desproporcional ao seu tamanho. Ela é a chave que abre a porta para todo um trecho do abastecimento regional.

Como a água do São Francisco chega ao oeste potiguar

A lógica da transposição é levar água de onde há para onde falta. O Rio São Francisco, perene e caudaloso, cede uma fração pequena da sua vazão, que é captada, bombeada e conduzida por canais, estações e agora túneis até os pontos secos do interior nordestino.

O Ramal do Apodi é o segmento que puxa essa água na direção do Rio Grande do Norte. Com 115,5 quilômetros de extensão, ele carrega a água transposta ao longo do sertão, e esse túnel é o elo que faltava para vencer o trecho mais duro desse caminho.

Quando a água atravessa o túnel, ela deixa de ser promessa e vira abastecimento real, alcançando reservatórios e sistemas que distribuem o recurso para cidades e comunidades que historicamente dependeram de carro-pipa.

750 mil pessoas em 54 municípios

O impacto humano é o que dá sentido a toda a engenharia. O Ramal do Apodi deve beneficiar cerca de 750 mil pessoas em 54 municípios dos estados do Rio Grande do Norte, da Paraíba e do Ceará, ampliando a segurança hídrica de uma das regiões mais castigadas pela estiagem no país.

Para quem vive no semiárido nordestino, água encanada e confiável não é conforto, é transformação de vida. Significa menos dependência de chuva, menos gasto com caminhão-pipa, mais saúde, mais atividade econômica e mais permanência das famílias na própria terra.

Conforme o Jornal Grande Bahia, a conclusão do Túnel Major Sales marca um avanço decisivo para a segurança hídrica e o desenvolvimento do semiárido, exatamente por destravar a chegada da água a essas populações.

Uma obra que atravessa três estados

A água que passa pelo túnel não respeita fronteiras estaduais, e isso é proposital. O traçado do ramal costura Rio Grande do Norte, Paraíba e Ceará, num arranjo em que a infraestrutura de um estado serve à população de outro.

Essa integração é a essência do PISF: tratar o abastecimento do Nordeste como um sistema único, e não como obras isoladas de cada município ou estado. O rio artificial, feito de canais e túneis, faz o que a geografia natural não fez, ligar a bacia do São Francisco ao sertão distante.

O desafio de coordenar uma obra que cruza estados, com licenciamento, orçamento e gestão compartilhados, é enorme, e por isso cada trecho concluído tem valor estratégico para o conjunto.

Por que isso importa no semiárido

No sertão nordestino, a chegada da água transposta muda a rotina de cidades inteiras
No sertão nordestino, a chegada da água transposta muda a rotina de cidades inteiras

O Nordeste convive há séculos com a seca como fator estruturante da vida e da economia. Levar água de forma perene a regiões que só tinham a chuva é mudar a equação básica do desenvolvimento local, e é isso que a transposição tenta fazer em grande escala.

A obra entra nessa história como uma peça técnica decisiva. Sozinha, ela não resolve o problema hídrico do Nordeste, mas sem esse trecho o sistema inteiro ficaria incompleto. Grandes obras hídricas são assim: dependem do elo mais difícil para funcionar.

Num cenário de mudanças climáticas e secas mais intensas, garantir infraestrutura de água deixa de ser obra de governo e vira questão de sobrevivência regional. Cada metro de túnel é seguro contra o próximo período de estiagem.

O que falta e os próximos passos

Concluir o túnel não encerra a obra, mas destrava a etapa mais difícil do ramal. A partir dele, o foco passa a ser completar o restante do ramal e conectar a água aos sistemas locais de distribuição, para que ela efetivamente chegue às torneiras.

A inauguração oficial da estrutura, em julho de 2026, é um marco político e simbólico, mas o trabalho de integração hídrica continua nos trechos seguintes. A água que atravessa a serra ainda precisa percorrer o último quilômetro até quem dela depende.

O caso mostra o tamanho do esforço de engenharia que existe por trás de algo tão simples quanto abrir a torneira no sertão. Se foi preciso furar 6,5 km de rocha para a água do São Francisco vencer uma única serra, quanto de engenharia invisível ainda separa o Nordeste de uma segurança de água completa?

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x