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3.000 militares, 10 países e fuzileiros dos EUA e da China treinando lado a lado no cerrado de Goiás: a Operação Formosa virou o maior exercício terrestre da Marinha, até ser cancelada pela 1ª vez desde 1988

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 02/07/2026 às 23:36 Atualizado em 02/07/2026 às 23:40
Operação Formosa reuniu 3.000 militares e 10 países no cerrado de Goiás, com EUA e China juntos, e foi cancelada pela 1ª vez desde 1988
Operação Formosa reuniu 3.000 militares e 10 países no cerrado de Goiás, com EUA e China juntos, e foi cancelada pela 1ª vez desde 1988
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Blindados M60, foguetes ASTROS e caças decolando longe do mar transformaram Formosa (GO) num campo de guerra simulada por décadas, mas em agosto de 2025 o orçamento, a COP 30 e a crise com os Estados Unidos derrubaram a edição do ano

A Operação Formosa colocou o cerrado goiano no mapa militar do planeta. Em setembro de 2024, entre os dias 4 e 17, cerca de 3.000 militares de 10 países ocuparam o Campo de Instruções de Formosa, em Goiás, no maior exercício terrestre da Marinha do Brasil, segundo a DefesaNet. Menos de um ano depois, em agosto de 2025, veio o impensável: a edição seguinte foi cancelada, quebrando uma sequência que vinha desde 1988.

Segundo o Poder Naval, o cancelamento anunciado em 20 de agosto de 2025 combinou restrições orçamentárias, a priorização da Operação Atlas ao lado do Exército e da Força Aérea, a reserva de recursos para a COP 30 em Belém e a crise diplomática com os Estados Unidos, que já havia retirado seus fuzileiros navais do exercício.

Um pedaço de guerra no meio do cerrado

Desde 1988, todos os anos, a Marinha do Brasil faz algo que parece contradição em termos: leva sua força de assalto anfíbio para o coração seco do Planalto Central, a centenas de quilômetros da praia mais próxima. O Campo de Instruções de Formosa, em Goiás, virou o endereço onde os fuzileiros navais brasileiros ensaiam a guerra em escala real, com espaço para manobrar blindados, disparar artilharia de verdade e coordenar aviação de combate.

A lógica é simples: nenhum quartel à beira-mar oferece área livre suficiente para movimentar milhares de homens e dezenas de viaturas com munição real. O cerrado oferece. E foi assim que a operação se consolidou, segundo o Poder Naval, como o maior exercício terrestre da Marinha no Planalto Central, repetido sem interrupção por mais de três décadas.

A edição que juntou EUA e China no mesmo campo

A edição de setembro de 2024 elevou o exercício a outro patamar. Segundo a DefesaNet, além dos cerca de 3.000 militares brasileiros, a operação recebeu representantes de 10 países, incluindo África do Sul, Argentina, França, Itália, México, Nigéria, Paquistão e República do Congo.

O detalhe que fez a edição entrar para a história está em dois nomes da lista: fuzileiros navais dos Estados Unidos e da China participaram juntos da parte operativa do exercício, um encontro raríssimo entre as duas maiores potências militares do mundo dentro de um treinamento no interior do Brasil. Enquanto Washington e Pequim se encaravam em todos os tabuleiros geopolíticos, seus fuzileiros dividiam o mesmo cerrado goiano sob coordenação brasileira.

O arsenal que desfila em Goiás

Blindados e viaturas militares levantam poeira em campo de instrução no cerrado durante exercício de grande porte.
Blindados e viaturas militares levantam poeira em campo de instrução no cerrado durante exercício de grande porte.

A lista de equipamentos da edição de 2024, segundo a DefesaNet, parece inventário de guerra de verdade. No chão, os carros de combate M60, os blindados JLTV e Piranha, o Carro Lagarta Anfíbio e os caminhões UNIMOG. Na artilharia, o sistema ASTROS, a artilharia de foguetes capaz de saturar áreas inteiras a dezenas de quilômetros de distância.

No ar, a coisa impressiona ainda mais: caças AF-1 Skyhawk da Marinha, o cargueiro KC-390 Millennium e os turboélices de ataque A-29 Super Tucano da Força Aérea, além da aeronave de vigilância R-99. É a rara ocasião em que o poder aéreo e o poder terrestre das Forças Armadas brasileiras operam integrados, com munição real, num único cenário tático.

Fogo real e guerra química: o que se treina de verdade

A Operação Formosa não é desfile. Segundo a DefesaNet, a programação de 2024 incluiu tiro real, atendimento pré-hospitalar tático, orientação e navegação com viatura blindada, controle do espaço aéreo e até reconhecimento de agentes nucleares, químicos, radiológicos e biológicos, o tipo de treinamento que só faz sentido quando se leva a hipótese de conflito a sério.

Cada uma dessas disciplinas exige logística pesada: munição de verdade, combustível, hospitais de campanha, comunicações seguras. É exatamente essa conta que transforma o exercício num evento caro, e que acabaria pesando na decisão de 2025.

Há ainda um efeito colateral valioso que não aparece no orçamento. A Operação Formosa funciona como laboratório de doutrina: é ali que manuais são testados contra a realidade, que oficiais jovens comandam tropas de verdade pela primeira vez e que os erros saem de graça, sem custo em vidas. Exército nenhum aprende guerra em sala de aula, e o cerrado goiano era a sala de simulação mais realista que a força anfíbia brasileira tinha à disposição.

As 113 primeiras mulheres fuzileiras da história

Militares em formação durante treinamento em campo aberto, com viaturas blindadas ao fundo no fim de tarde.
Militares em formação durante treinamento em campo aberto, com viaturas blindadas ao fundo no fim de tarde.

A edição de 2024 carregou ainda um marco silencioso. Segundo a DefesaNet, a primeira turma de mulheres do Corpo de Fuzileiros Navais havia se formado em julho daquele ano, com 113 concluintes, e 91 delas foram apresentadas ao Setor Operativo, o braço que vai a campo em exercícios como o de Formosa.

Depois de mais de dois séculos de tropa exclusivamente masculina, a força anfíbia brasileira passou a contar com mulheres em sua linha operacional no mesmo ano em que realizava sua maior edição multinacional. Dois recordes na mesma temporada.

O cancelamento de 2025: quando o dinheiro falou mais alto

Aí veio agosto de 2025. Segundo o Poder Naval, a Marinha anunciou no dia 20 o cancelamento da edição prevista para setembro, uma decisão sem precedente na série iniciada em 1988. A mobilização já estava em curso, com aproximadamente 2 mil militares, mais de 100 viaturas e 8 helicópteros destacados, quando a ordem mudou.

As razões, segundo o Poder Naval, formam um nó orçamentário e político: a prioridade dada à Operação Atlas, exercício conjunto de Marinha, Exército e Força Aérea, a reserva de recursos para a estrutura da COP 30, marcada para novembro em Belém, e a orientação de prioridades vinda do ministro da Defesa, José Múcio Monteiro.

A retirada dos fuzileiros americanos

Um ingrediente extra tornou o cancelamento ainda mais simbólico. Segundo o Poder Naval, a crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos levou à suspensão da participação americana, com a retirada dos fuzileiros navais dos EUA que atuariam como observadores do exercício.

O mesmo campo de instrução que um ano antes tinha americanos e chineses treinando lado a lado virou retrato do novo tabuleiro geopolítico: a cooperação militar, que parecia blindada contra a política, foi uma das primeiras contas a chegar quando a relação entre os dois governos azedou.

O que entrou no lugar do exercício cancelado

O esforço não foi desperdiçado por completo. A estrutura mobilizada foi absorvida pela Atlas, o exercício conjunto das três Forças que passou a concentrar as atenções e o orçamento, segundo o Poder Naval. Na prática, a Marinha trocou seu exercício-vitrine próprio por uma operação integrada com Exército e Força Aérea no Centro-Oeste.

Para os fuzileiros, a mudança tem um custo invisível: cada ano sem a Formosa é um ano sem o único ambiente onde a força anfíbia treina completa, com fogo real e aviação integrada, e a experiência acumulada em 36 edições ininterruptas não se improvisa de volta.

O que fica para as próximas edições da Operação Formosa

A expectativa do setor de defesa é que a Operação Formosa volte ao calendário quando o caixa permitir, até porque o Campo de Instruções segue lá, pronto, e a tropa também. O histórico joga a favor: nenhuma instituição abandona de graça um exercício que sobreviveu a todas as crises desde 1988.

Fica a pergunta que o cancelamento escancarou: quanto vale, em orçamento público, manter uma força anfíbia treinada em escala real? Se a resposta demorar, o cerrado de Goiás vai seguir em silêncio. Deixa tua opinião nos comentários: cortar exercício militar é economia ou risco?

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Bruno Teles

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