Depois de 10 meses de quarentena em Brasília, as mudas doadas pelo país do Golfo foram entregues a 4 municípios do semiárido baiano, e uma segunda remessa de 10 mil tamareiras já está na fila
A produção de tâmaras no Brasil saiu do papel com um padrinho improvável: os Emirados Árabes Unidos. Em julho de 2025, a Embrapa entregou as primeiras 110 mudas de tamareira doadas pelo país do Golfo, que haviam desembarcado no Brasil em setembro de 2024 e passaram cerca de 10 meses em quarentena em Brasília, segundo a Embrapa. Do lote, 100 mudas seguiram para o interior da Bahia e 10 foram plantadas nos jardins do Palácio da Alvorada.
Segundo a Agência Sertão, o projeto está amarrado a um acordo de US$ 4 milhões ao longo de 5 anos com transferência de tecnologia, capacitação de agricultores e assistência técnica, costurado com a Fundação Zayed e a Al Foah Company, dos Emirados. A meta declarada é transformar o interior da Bahia num polo de produção de tâmaras, fruta que o Brasil hoje compra quase toda de fora.
De Abu Dhabi ao sertão: o caminho das 110 mudas
A operação começou com um gesto diplomático raro no agronegócio: os Emirados Árabes Unidos doaram ao Brasil 110 mudas de tamareira de 12 variedades diferentes, segundo a Embrapa. Não é um presente qualquer. A tamareira é o coração da agricultura dos países desérticos, e as variedades comerciais de elite são guardadas como patrimônio estratégico.
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As plantas desembarcaram em setembro de 2024 e foram direto para a Estação Quarentenária da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, no Distrito Federal, a porta de entrada oficial de material vegetal vivo no país. Nenhuma muda estrangeira toca o solo brasileiro sem passar por esse funil sanitário, desenhado para impedir a entrada de pragas exóticas capazes de devastar lavouras inteiras.
Dez meses de quarentena: a alfândega invisível do agro brasileiro

Durante cerca de 10 meses, as tamareiras ficaram sob análise no centro da Embrapa em Brasília, passando por baterias completas de exames sanitários antes da liberação, segundo a Embrapa. O trabalho envolveu pesquisadores como Eloisa Belleza e Norton Polo Benito, que responderam pela sanidade do lote.
Essa etapa é invisível para o consumidor, mas é ela que protege um setor que sustenta boa parte da economia nacional. Uma única praga exótica escondida numa muda importada pode custar bilhões em perdas agrícolas, e é exatamente por isso que a fruta símbolo do deserto passou quase um ano em observação antes de conhecer o sertão.
Quatro municípios baianos e uma surpresa no Palácio da Alvorada
Liberadas da quarentena, as mudas ganharam endereço. Segundo a Embrapa, as 100 tamareiras destinadas à Bahia foram distribuídas entre os municípios de Riachão das Neves, São Gabriel, Presidente Dutra e Ipecaetá, priorizando num primeiro momento produtores com infraestrutura tecnológica já instalada e, na sequência, agricultores familiares.
As outras 10 mudas tiveram destino inusitado: os jardins do Palácio da Alvorada, em Brasília, plantadas sob os cuidados da administração da residência oficial. A fruta que atravessou o mundo em contêiner climatizado agora cresce a poucos metros do presidente da República, um cartão de visitas vivo da parceria com os Emirados.
O acordo de US$ 4 milhões e a promessa de uma indústria

O plantio é só a primeira peça de um arranjo maior. Segundo a Agência Sertão, o acordo entre a Bahia e os Emirados prevê US$ 4 milhões ao longo de 5 anos, cobrindo transferência de tecnologia, capacitação de agricultores e assistência técnica, com participação da Fundação Zayed e da Al Foah Company, gigante emiradense do setor de tâmaras.
O pacote inclui ainda a proposta de instalação de uma indústria de processamento da fruta em solo baiano, com potencial para abastecer o mercado latino-americano e, no futuro, o norte-americano. O secretário da Agricultura da Bahia, Pablo Barrozo, e o diretor-geral da Agência de Defesa Agropecuária da Bahia, Paulo Sérgio Menezes, conduzem as tratativas do lado brasileiro. A formalização do acordo foi desenhada para acontecer durante a COP 30, em Belém, colocando a tâmara na vitrine da maior conferência climática do planeta.
O tamanho do mercado: importações que cresceram 450%
O apetite brasileiro pela fruta explica a pressa. Segundo a Agência Sertão, o consumo de tâmaras no país saltou 450% na última década, saindo de 776 toneladas para cerca de 4,3 mil toneladas por ano, volume hoje atendido quase inteiramente por importações.
Cada quilo de tâmara vendido no mercado brasileiro é, na prática, um quilo importado, o que faz da fruta um alvo perfeito para substituição de importações. Se uma fração do semiárido baiano entrar em produção comercial, o dinheiro que hoje viaja para o Oriente Médio e o norte da África passa a circular na economia do interior nordestino.
O que a tamareira exige e o que ela entrega
A ficha técnica da cultura ajuda a entender o entusiasmo. Segundo a Agência Sertão, a tamareira pode alcançar até 30 metros de altura, começa a produzir entre 4 e 6 anos após o plantio e, madura, entrega até 70 kg de frutos por planta a cada ano.
É uma cultura de ciclo longo, o oposto da soja e do milho que dominam o calendário do agro nacional. Em compensação, uma tamareira bem manejada produz por décadas, transformando o pomar num ativo de longuíssimo prazo. Para o produtor do semiárido, acostumado a culturas de sobrevivência, é uma mudança completa de lógica econômica.
Por que o sertão baiano é o endereço certo
A escolha da Bahia não foi sorteio. O clima seco, a luminosidade intensa e as longas estiagens do semiárido baiano reproduzem, em versão tropical, as condições em que a tamareira prosperou por milênios no Oriente Médio. O que sempre foi tratado como maldição climática do sertão vira, nesse projeto, exatamente a vantagem competitiva.
A lógica é a mesma que transformou o Vale do São Francisco num polo mundial de fruticultura irrigada: casar uma cultura de alto valor com um clima que o resto do país não tem. A produção de tâmaras entra nessa prateleira de apostas de alto valor por hectare, ao lado de uva, manga e outras frutas de exportação.
A segunda remessa: 10 mil mudas na fila
O lote de 110 plantas é um piloto. Segundo a Embrapa, uma segunda remessa com 10 mil mudas de tamareira já está em análise pelo Ministério da Agricultura, aguardando o aval sanitário para repetir o rito de quarentena e distribuição.
É essa segunda leva que separa o experimento simbólico da lavoura comercial de verdade. Dez mil tamareiras plantadas em escala, com pacote tecnológico emiradense e assistência técnica estruturada, formam a base mínima de um polo produtor capaz de disputar as gôndolas hoje ocupadas pela fruta importada.
O que falta para a produção de tâmaras chegar à mesa brasileira
Entre a muda no chão e a fruta na feira existem anos de manejo, irrigação, polinização e aprendizado. A produção de tâmaras em escala comercial no Brasil só deve aparecer quando as primeiras plantas atingirem a maturidade, a partir da segunda metade da década, e o sucesso vai depender de o pacote técnico árabe se adaptar ao solo e ao regime de chuvas do sertão.
Enquanto isso, o projeto segue somando peças: acordo bilionário em reais na ponta industrial, mudas em quarentena, municípios preparando o solo e uma vitrine diplomática montada. Se o deserto árabe transformou a tâmara em império econômico, o que impede o semiárido brasileiro de repetir a receita? Deixa nos comentários: você apostaria na tâmara do sertão?
