Projeto hidrelétrico de 6 GW, suspenso desde 2011, pode ser concluído em oito anos, reacendendo debates sobre energia, exportação para a China, comunidades locais, inundações e riscos sísmicos no estado de Kachin, norte de Myanmar
Segundo matéria da Reuters, a barragem de Myitsone, projeto hidrelétrico de US$ 3,6 bilhões suspenso desde 2011 em Myanmar, pode ser concluída em cerca de oito anos pelo novo governo do país. A obra, planejada para o estado de Kachin, voltou ao centro das discussões após visita de Min Aung Hlaing à China.
Barragem de Myitsone voltaria após paralisação iniciada em 2011
O governo de Myanmar trabalha para retomar a construção da barragem de Myitsone, no norte do país, em uma região marcada por guerra civil e forte disputa política.
Duas fontes com conhecimento das declarações de Khet Htein Nan, chefe da administração estadual de Kachin, afirmaram em artigo da Reuters que o projeto pode ser concluído em aproximadamente oito anos.
-
Uma das maiores fabricantes de eletrodomésticos do mundo fechou fábrica na Argentina, transferiu produção para o Brasil e agora avança em nova reestruturação na América Latina ao encerrar unidade no México, realocar refrigeradores e gastar até US$ 165 milhões no processo
-
Empresa estrangeira coloca R$ 6,8 bilhões na mesa para construir primeiro túnel no Brasil capaz de passar dentro do mar, mas tem um problema: reviravolta envolve contrato de R$ 72,8 milhões alvo do MPF.
-
Megaprojeto do século da China impressiona o mundo ao levar água do sul úmido para o norte árido, com a maior rede de transposição do planeta e planos ainda mais ousados no Planalto Tibetano, entre túneis gigantes e altitudes de até 4.000 metros
-
Petrobras muda estado de patamar com plano ousado de R$ 12 bilhões para construir 42 embarcações e gerar mais de 5 mil empregos
As falas ocorreram depois que Min Aung Hlaing, chefe da junta militar que se tornou presidente, retornou de uma visita à China no mês passado. A retomada do projeto foi um dos temas discutidos durante a viagem.
Htet Paing Htoo, membro do parlamento do estado de Kachin, disse à Reuters que as obras devem começar em breve.
Segundo ele, um comunicado oficial será divulgado, e o próprio presidente já afirmou que as atividades serão retomadas.
O projeto foi suspenso em 2011, após uma rara manifestação pública de indignação contra a construção. A paralisação desagradou a China, interessada há anos na implantação da hidrelétrica.

Barragem de 6 GW poderia suprir mais da metade da demanda elétrica
A barragem de Myitsone teria capacidade de 6 gigawatts. Esse volume colocaria o empreendimento entre os maiores projetos hidrelétricos do Sudeste Asiático.
Ainda assim, a capacidade ficaria abaixo de usinas como a Barragem das Três Gargantas, na China, que tem 22,5 GW de capacidade instalada.
Uma porta-voz do gabinete presidencial afirmou que o projeto poderia fornecer mais da metade dos 10 GW de energia necessários para Myanmar, país que enfrenta grave escassez de eletricidade.
O plano original previa exportar 90% da energia gerada para a China. A Reuters informou que não conseguiu determinar se esse acordo inicial foi renegociado.
Além da escala energética, o custo também ganhou peso na discussão. O projeto foi estimado originalmente em US$ 3,6 bilhões, mas sua revitalização poderia chegar a US$ 11,5 bilhões.
Essa estimativa considera o custo médio mais recente da Agência Internacional de Energia Renovável para projetos hidrelétricos na Ásia, fora da China e da Índia, de US$ 1.914 por quilowatt.
Inundações, deslocamentos e risco sísmico seguem no centro da disputa
A possível retomada ocorre em meio a preocupações ambientais e sociais. Uma das principais críticas envolve o alagamento de uma área aproximadamente do tamanho de Singapura.
Comunidades locais também manifestaram preocupação com inundações e deslocamentos. A porta-voz Khaing Khaing Soe disse que o governo está avaliando essas questões em detalhes.
Segundo ela, as autoridades analisam a extensão dos benefícios em comparação com os impactos negativos, para tentar encontrar um equilíbrio.
Outro ponto sensível é o risco sísmico. Um terremoto de magnitude 7,7 atingiu o centro de Myanmar em março passado e matou milhares de pessoas, aumentando a preocupação com uma grande barragem em região sismicamente ativa.
A estrutura teria 152 metros de altura e se estenderia por 152 metros na confluência dos rios Mali e Nmai.
Em reunião realizada em 23 de junho, Khet Htein Nan afirmou, segundo uma fonte, que a China estaria pronta para enfrentar problemas ambientais com novas tecnologias.

Governo busca apoio, mas resistência de grupos civis continua
As discussões internas sobre a barragem ocorreram em Myitkyina, capital do estado de Kachin, a cerca de 37 km do local previsto para a construção.
Uma terceira fonte afirmou que, em reunião de 22 de junho, o ministro-chefe disse que o Projeto Myitsone deveria ser considerado uma “conquista histórica”.
O esforço de retomada acontece durante a guerra civil desencadeada pelo golpe de Estado de 2021, quando os militares depuseram o governo eleito de Aung San Suu Kyi, vencedora do Prêmio Nobel da Paz e também contrária à barragem.
Após a visita do ex-vice-chefe militar Soe Win a Myitkyina, em dezembro, pelo menos 26 reuniões públicas no estado de Kachin apoiaram o projeto, segundo dois membros de um comitê apoiado pelo governo.
Um deles, Naw Khon, disse que o objetivo é fornecer informações precisas ao público e permitir que as pessoas tomem suas próprias decisões.
A oposição, porém, segue ativa. Em 5 de maio, 49 grupos da sociedade civil pediram a paralisação total do projeto.
Em declaração conjunta, afirmaram que a obra não oferece benefício ao público e causaria destruição, perda de vidas, casas e propriedades.
Esta matéria foi elaborada com base em informações da Reuters, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.

