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Filha de catador transforma sucata em indústria de ferro com 120 empregos e desafia o Brasil que recicla só 4% do lixo: a virada que ninguém esperava em Campo Grande

Publicado em 29/12/2025 às 17:39
Em Campo Grande, filha de catador cria indústria de ferro que transforma sucata em reciclagem rentável e mostra como o lixo pode virar emprego e renda.
Em Campo Grande, filha de catador cria indústria de ferro que transforma sucata em reciclagem rentável e mostra como o lixo pode virar emprego e renda.
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Filha de catador transforma sucata em indústria de ferro com 120 empregos e escancara o desperdício de um Brasil que recicla só 4 por cento do lixo nas grandes cidades.

Em Campo Grande, Vanessa Coin saiu do depósito simples do pai catador para comandar uma indústria de ferro criada em 2007, que hoje reaproveita sucata, gera cerca de 120 empregos e expõe um país que em 2023 ainda reciclava apenas 4 por cento do lixo, mesmo com tantos recursos disponíveis.

Em 2007, o Brasil reciclava pouco e seguia enterrando oportunidade, mas a filha de catador transformou sucata em indústria de ferro e mostrou outro caminho em Campo Grande.
Os números aparecem anos depois. Em 2023, levantamento da Abrema com dados do SNIS revelou que o país ainda reciclava só 4 por cento do lixo produzido, enquanto a Aço e Aço crescia na capital sul-mato-grossense usando justamente o que muita gente insiste em jogar fora.

Da rua 14 de Julho ao primeiro depósito de sucata

Antes de virar indústria de ferro com marca própria, a história da família Coin era a história de muitos catadores. Em Campo Grande, Wagner começou recolhendo papelão em ruas como a 14 de Julho e, aos poucos, passou a agregar alumínio, cobre e plástico.

Com mais material chegando, foi preciso contratar um funcionário e colocar Vanessa e o irmão Flávio Coin para trabalharem com o pai, enquanto a esposa abria espaço para empreender com uma lavanderia e no artesanato.

Assim que conseguiram juntar um pouco de dinheiro, a família alugou um terreno, mandou fazer uma cobertura e o transformou em depósito para armazenar os materiais recicláveis.

Naquele tempo, a sucata era prensada e enviada para São Paulo.

Quase não havia locais que assumissem o processamento e a transformação em algo novo em Campo Grande, o que obrigava a família a gastar com logística pesada, usando o próprio caminhão do catador ou veículos fretados para transportar o material até a capital mais populosa do país.

Do quase abandono ao retorno definitivo à reciclagem

O caminho não foi linear. Em um período de adaptação e dificuldade, Wagner chegou a deixar a reciclagem de lado.

Ele passou a trabalhar reformando tratores e também como funcionário de uma loja de autopeças, tentando garantir renda em um momento de incerteza.

Mesmo assim, o conhecimento acumulado no contato diário com os resíduos falava mais alto.

Pouco tempo depois, Wagner voltou ao negócio que entendia bem e que, anos mais tarde, transformaria a vida da família e de dezenas de trabalhadores ligados à sucata.

Quando a sucata virou indústria de ferro em Campo Grande

Da esquerda para a direita: Flávio Coin, Vanessa Coin e o pai Wagner Coin à frente de produtos feitos na indústria da família (Foto: Acervo pessoal)

O ponto de virada veio em 2007. Foi Vanessa quem tomou a decisão estratégica.

Ela decidiu trabalhar somente com o ferro, enxergando naquele material inúmeras possibilidades dentro do mercado de reaproveitamento. Daquele movimento nasceu a Aço e Aço, hoje referência em reciclagem na cidade.

Atualmente, a matéria-prima da empresa vem de leilões de veículos sem condições de rodar e da compra em centros de reciclagem que recolhem desde bicicletas até geladeiras em estado de sucata.

Nas palavras da empresária, “a gente revaloriza todo esse material”, mantendo na economia o que antes iria para o lixo.

Na Aço e Aço, o processo inclui descontaminação, separação de baterias e amortecedores e, por fim, o prensamento.

Tudo vira vergalhão, arame, prego, treliça e coluna de marca própria, produtos que acabam em construções de casas e prédios e até na fabricação de móveis.

A etapa de fundição do ferro ainda exige logística para São Paulo, mas, mesmo com esse custo, o negócio se mantém vantajoso.

Da sucata que atravessava estradas sem destino claro, surgiram insumos essenciais para a construção civil, gerando renda em cadeia.

120 empregos construídos em cima da sucata

O que começou com um catador em Campo Grande hoje é uma estrutura industrial. Vanessa, hoje com 50 anos, é diretora da Aço e Aço e chefia cerca de 120 funcionários ao lado do irmão mais novo, Flávio, de 47 anos.

O pai, Wagner, chegou aos 72 anos e continua frequentando a empresa sempre que pode, mesmo aposentado. A mãe, que também participou do esforço da família, já morreu e é lembrada como a maior saudade dentro dessa trajetória.

Administradora de formação, Vanessa resume o caminho com simplicidade: “A gente veio de uma família humilde que a partir da sucata construiu toda a sua história.”

O que era um depósito improvisado virou pátio industrial, com montanhas de ferro reaproveitado à beira da BR 163 e uma marca consolidada no mercado regional.

Respeito à cadeia da reciclagem do carrinho ao leilão

Mais do que movimentar toneladas de ferro, a diretora reforça que o negócio cresceu apoiado em respeito.

Ela aprendeu a valorizar cada pessoa que faz parte da cadeia da reciclagem, do catador que chega com 1 quilo de latinha ou de ferro ao leiloeiro de órgão público e aos donos de grandes empresas.

“Respeitamos desde a pessoa que traz 1 kg de latinha, 1 kg de ferro para nós, até as pessoas envolvidas num leilão de um órgão público.

Foi o legado que meu pai e meu avô deixaram para nós”, afirma.

Para ela, esse é justamente o diferencial em um setor que depende de cooperação.

“Nosso ramo é como uma engrenagem em que todo mundo acaba ganhando. Temos que nos ajudar. O que um não faz, o outro faz. O propósito todo é não deixar isso ficar como lixo, é transformar, é devolver.”

Mulher na linha de frente da reciclagem pesada

Quando começou a trabalhar com o pai, Vanessa notava um cenário bastante desigual.

O mercado da reciclagem era majoritariamente masculino, com a maior parte do trabalho braçal, sob sol forte, nas mãos de catadores homens. Havia pouquíssimas mulheres na coleta ou na compra e venda de sucata.

Com o tempo, essa realidade foi se transformando.

Hoje, a empresária observa famílias inteiras atuando juntas em cooperativas, misturando homens e mulheres em todas as etapas do processo.

Para ocupar seu espaço, Vanessa precisou desenvolver outra habilidade além da técnica.

Ela aprendeu a ter pulso e voz firmes para que o fato de ser mulher não fosse interpretado como sinal de desconhecimento ou justificativa para tentativas de golpe nas negociações.

“Meu pai sempre me deu muita autonomia, foi um processo muito tranquilo para que eu sempre negociasse diretamente com nossos fornecedores e os clientes.

Ele me deu essa base”, conta, lembrando que essa confiança foi essencial para que conseguisse abrir caminho num segmento de reciclagem pesada e, mais tarde, na gestão de uma indústria de ferro.

Paixão pelo processo industrial e referência em Mato Grosso do Sul

Ao lado da irmã, Flávio também se apaixonou pela rotina da fábrica.

Ele diz que a paixão pelo processo industrial impulsionou o negócio familiar, fazendo com que a Aço e Aço buscasse lugar de destaque entre as empresas de reciclagem no estado.

“Com ela fomos tocando a empresa para cada dia ser uma referência em Mato Grosso do Sul”, resume o irmão, apontando para as fileiras de vergalhões que, um dia, foram carcaças de veículos abandonados em pátios e quintais.

Na área externa da empresa, uma verdadeira “montanha” de sucata domina a paisagem, tendo a BR 163 como cenário ao fundo.

É desse amontoado de ferro descartado que saem matéria-prima e empregos para centenas de famílias.

Estabilidade, pandemia e futuro da reciclagem de ferro

Na visão de Vanessa, a reciclagem é um segmento que, em geral, não vive grandes colapsos. Há altos e baixos, mas com impacto limitado para quem está no dia a dia da sucata.

Ela define o setor como relativamente estável, justamente porque tudo o que vira lixo em algum momento precisa de destino.

A exceção foi o período da pandemia de covid 19. Aqueles anos foram mais difíceis do que o normal porque havia menos produção de sucata.

Com consumo reduzido, sobrou menos matéria-prima para comprar e para vender, criando o que ela chama de “crise de produto”.

Mesmo assim, a empresária olha para frente com otimismo.

Com políticas de resíduos sólidos sendo colocadas em prática e maior conscientização da população sobre reciclagem, o futuro da indústria de ferro baseada em sucata parece promissor na avaliação de Vanessa.

O plano para os próximos anos é investir mais em maquinário para ampliar a transformação dos materiais dentro da própria empresa e se integrar ainda mais à cadeia.

A meta é simples e ambiciosa ao mesmo tempo: retirar mais sucata das ruas, gerar mais empregos e provar que, mesmo em um país que ainda recicla só 4 por cento do lixo, é possível virar o jogo.

E você, olhando para a quantidade de lixo que o Brasil ainda descarta, acredita que histórias como a da Aço e Aço podem mesmo mudar o jeito como o país lida com a reciclagem de ferro?

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Fonte
Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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