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Feito de terra local, um pouco de cimento e muita pressão, o tijolo ecológico de solo-cimento se encaixa como peça de montar, dispensa argamassa entre as fiadas e não precisa de forno, cortando o tempo de obra, o entulho e a emissão de carbono na construção popular brasileira

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 29/05/2026 às 15:13
Atualizado em 29/05/2026 às 15:17
O tijolo ecológico de solo-cimento se encaixa como peça de montar, dispensa argamassa e forno, corta custo e carbono, mas exige cuidado com solo, umidade e normas.
O tijolo ecológico de solo-cimento se encaixa como peça de montar, dispensa argamassa e forno, corta custo e carbono, mas exige cuidado com solo, umidade e normas.
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A peça tem encaixe de macho e fêmea, como uma peça de Lego, e por isso empilha sem precisar de cimento entre as fiadas. Como cura ao ar livre, sem queima, evita o corte de árvores e a fumaça dos fornos. Em obras bem executadas, o material pode reduzir o custo em até 40% onde o solo é adequado.

Feito de terra local, um pouco de cimento e muita pressão, o tijolo ecológico de solo-cimento vem ganhando espaço na construção popular brasileira. Ele se encaixa como peça de montar, dispensa a argamassa entre as fiadas e não precisa de forno para ser fabricado, cortando ao mesmo tempo o tempo de obra, o entulho gerado e a emissão de carbono na comparação com o tijolo cerâmico tradicional.

Também conhecido como bloco de terra comprimida, ou BTC, o produto é uma mistura de terra peneirada, uma pequena proporção de cimento Portland, geralmente entre 8% e 12%, e água, compactada sob alta pressão em prensas manuais ou hidráulicas. O resultado é um bloco denso, com dimensões precisas, que se tornou uma alternativa cada vez mais atraente em um país com enorme demanda por moradia de baixo custo.

Como o tijolo de solo-cimento é fabricado

O tijolo ecológico de solo-cimento se encaixa como peça de montar, dispensa argamassa e forno, corta custo e carbono, mas exige cuidado com solo, umidade e normas.
A grande diferença em relação ao tijolo cerâmico comum começa na fabricação. 

Enquanto o tijolo tradicional vai ao forno e depende da queima de lenha ou gás, o de solo-cimento não passa por queima alguma: a cura acontece ao ar livre, pela hidratação do cimento, em um processo que leva de 7 a 28 dias. Isso elimina o consumo de combustível no processo produtivo e reduz bastante a emissão de carbono por unidade.

O impacto ambiental positivo é expressivo. Segundo estimativas da Associação Nacional da Indústria do Tijolo Ecológico, a Aniteco, a produção de mil unidades pode poupar de sete a doze árvores de médio porte em comparação ao tijolo cerâmico tradicional. É justamente essa pegada mais leve que dá ao produto o apelido de tijolo ecológico, embora o cimento usado na mistura ainda tenha sua própria pegada de carbono, o que exige cautela ao chamá-lo de totalmente limpo.

O encaixe que dispensa a argamassa

Um dos maiores atrativos do sistema é a forma de assentamento. Os blocos modulares são produzidos com saliências e reentrâncias, o chamado sistema macho e fêmea, que trava cada fiada sobre a anterior. O encaixe funciona como uma peça de montar, com travamento geométrico, e não químico, dispensando a argamassa entre as peças e acelerando muito a execução das paredes.

Com isso, a argamassa passa a ser usada apenas em pontos específicos, como fundação, vergas, contravergas e encontros estruturais. Obras que adotam o sistema relatam redução de até 70% no consumo de argamassa em relação à alvenaria convencional, com queda proporcional no volume de entulho gerado no canteiro. Outra vantagem é que os furos verticais dos blocos facilitam a passagem de tubulações e o preenchimento de colunas, organizando a parte hidráulica e elétrica.

Por que ele isola melhor o calor

O conforto térmico é outro ponto forte. A densidade e a espessura típica dos blocos de solo-cimento, em torno de 14 a 15 centímetros, dão à parede uma massa térmica maior que a do tijolo cerâmico de oito furos equivalente. Paredes com alta massa térmica absorvem o calor externo durante o dia e o liberam lentamente à noite, amortecendo as variações de temperatura dentro de casa.

Em climas quentes, como os do Nordeste e do Centro-Oeste, esse comportamento ajuda a reduzir a dependência de ventilação e ar-condicionado, o que pode significar contas de energia mais baixas. Para famílias de baixa renda, esse é um benefício direto e relevante, já que o gasto com climatização pesa no orçamento doméstico, especialmente em regiões de calor intenso durante boa parte do ano.

As limitações que o mercado ainda enfrenta

Apesar das vantagens, é importante não tratar o material como solução perfeita. A principal restrição é o controle de qualidade do solo: nem toda terra serve, e solos com alto teor de argila expansiva ou de matéria orgânica comprometem a resistência do bloco, exigindo correção ou substituição do material. Isso demanda ensaios simples antes da produção, uma etapa que construtores informais costumam pular, gerando peças frágeis.

Há outros pontos de atenção. Blocos sem revestimento têm desempenho reduzido em regiões muito chuvosas, sendo recomendável o revestimento externo com argamassa impermeabilizante em zonas úmidas. As prensas hidráulicas de qualidade custam entre R$ 8 mil e R$ 25 mil, o que exige escala de produção para compensar o investimento. E a normatização, embora exista, ainda enfrenta fiscalização limitada em obras informais, o que gera variação de qualidade no mercado.

O que dizem as normas técnicas

O tijolo de solo-cimento é regulado por um conjunto de normas da Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT. Entre elas estão a NBR 8491 e a NBR 8492, voltadas ao tijolo maciço e aos ensaios de resistência e absorção de água, a NBR 10833, sobre a fabricação com prensa, e a NBR 10834, que trata dos blocos de solo-cimento sem função estrutural.

Esse detalhe é importante e merece cautela: parte do material disponível no mercado é destinada à vedação, e não necessariamente à estrutura. O uso do solo-cimento em paredes que sustentam a edificação depende de projeto específico, de blocos adequados e do cumprimento rigoroso das normas, e não deve ser presumido automaticamente. Por isso, contar com acompanhamento técnico e exigir ensaios de qualidade é fundamental para garantir segurança, sobretudo em construções de mais de um pavimento.

O potencial diante do déficit habitacional

O cenário brasileiro favorece a expansão dessa tecnologia. O país tem um déficit habitacional superior a 8 milhões de moradias, concentrado em famílias de baixa renda que muitas vezes constroem de forma incremental, adicionando cômodos ao longo dos anos. O tijolo de solo-cimento se encaixa bem nesse perfil, já que pode ser produzido no próprio terreno com solo local e não exige mão de obra altamente especializada para o assentamento.

Em regiões onde o solo é adequado, o material pode reduzir o custo total de obra em até 40% em relação à alvenaria convencional, segundo estimativas do setor. A produção pode ainda ser viabilizada por mutirões e organizações comunitárias que adquirem a prensa de forma coletiva, fortalecendo a autoconstrução assistida. Não à toa, o tema dialoga diretamente com políticas habitacionais e com a agenda de construção sustentável no Brasil.

Por que essa pauta importa para o leitor do CPG

Para quem acompanha construção civil, energia e meio ambiente, o tijolo ecológico é um exemplo concreto de inovação com impacto ambiental. Ao dispensar a queima em fornos, ele reduz emissões e o desmatamento associados à produção de materiais de construção, dialogando diretamente com a pauta da descarbonização e da construção de baixo carbono, cada vez mais relevante no setor.

A construção civil é uma das maiores consumidoras de recursos naturais e uma fonte significativa de emissões no mundo. Soluções como o solo-cimento, ao lado de outras tecnologias sustentáveis, fazem parte de um movimento mais amplo de repensar como construímos, equilibrando custo, desempenho e responsabilidade ambiental. Para o mercado brasileiro, com seu enorme déficit de moradias, esse equilíbrio é especialmente estratégico.

O tijolo ecológico de solo-cimento não é uma novidade absoluta, mas vem ganhando tração por razões práticas e econômicas difíceis de ignorar. Ele corta custos, reduz entulho, isola melhor o calor e diminui a emissão de carbono, ao mesmo tempo em que exige cuidado com a qualidade do solo, com a umidade e com o cumprimento das normas técnicas. Bem aplicado, com acompanhamento adequado, pode ser uma peça importante no enfrentamento do déficit habitacional brasileiro e na construção de um futuro mais sustentável.

E você, construiria ou reformaria a sua casa com tijolo ecológico de solo-cimento? Já conhecia esse sistema que se encaixa como peça de montar e dispensa argamassa? Deixe seu comentário, conte se confiaria nessa tecnologia e compartilhe a matéria com quem se interessa por construção, sustentabilidade e economia na obra.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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