Redes de família nascidas no interior, com força no Nordeste e apetite por atacarejo, avançam sobre ativos de multinacionais, mudam o jogo do varejo alimentar e mexem com uma engrenagem que já representa mais de 9% do PIB brasileiro.
Tem uma virada silenciosa acontecendo no varejo alimentar: a família que conhece o “cheiro do estoque” está tomando espaço de multinacional com nome em inglês. E não é força de expressão. O motor dessa reviravolta passa pelo Nordeste, pela expansão do atacarejo e por um setor que, somado, já gira R$ 1,067 trilhão, cerca de 9,12% do PIB brasileiro, segundo dados do Ranking ABRAS 2025.
Não é só disputa de mercado. É disputa de método: de um lado, processo rígido e decisão a quilômetros de distância; do outro, dono em cima, logística no osso e adaptação por bairro.
PIB brasileiro, atacarejo e o tamanho da arena onde a família briga
O varejo alimentar brasileiro não é “mais um segmento”. Ele virou infraestrutura econômica. A própria ABRAS coloca o setor como força motriz: faturamento do conjunto de empresas chega a R$ 1,067 trilhão, equivalente a 9,12% do PIB nacional, com centenas de milhares de lojas atendendo cerca de 30 milhões de consumidores por dia.
-
Imposto de Renda 2026: 9,58 milhões de contribuintes entram no maior lote de restituição já registrado pela Receita Federal, mas um detalhe sobre quem recebe primeiro está despertando atenção em todo o país
-
Itaú muda o jogo do trabalho híbrido, exige mais dias no escritório a partir de 2028 e deixa funcionários de olho no calendário, no trânsito e na nova rotina presencial
-
Com a escassez de mão obra, Japão planeja investir R$ 173 milhões para atrair trabalhadores estrangeiros em setores da Construção Civil, Saúde, Indústria e Comércio
-
Cidade dá salto impressionante, sai da 354ª posição e vira a 4ª mais rica do país, superando grandes capitais com PIB de R$ 134,1 bilhões
Nesse tabuleiro, o atacarejo virou arma de expansão. Ele atende a dona de casa e, ao mesmo tempo, o pequeno comerciante que quer preço e volume. Quando esse formato encaixa com logística própria e gestão local, ele vira rolo compressor
Por que as gigantes globais começaram a perder e por que isso abriu espaço para famílias do interior do Brasil
Durante décadas, o Brasil foi laboratório de gigantes estrangeiras. Só que o país cobra pedágio alto de quem tenta mandar daqui de fora. A volatilidade brasileira destrói planejamento engessado: muda custo, muda demanda, muda margem, muda tudo e rápido.
Walmart: o caso didático da desconexão
A maior varejista do mundo entrou no Brasil em 1995 com a promessa de replicar o modelo “preço baixo todo dia”, mas patinou para entender o consumo local, desde hábitos de compra até negociações com fornecedores regionais.
O final foi saída: em 2018, vendeu 80% da operação para a Advent, que rebatizou como Grupo BIG, e depois esse negócio foi vendido ao Carrefour, transação anunciada em 2021, com expectativa de aprovação até 2022.
O ponto aqui não é só “Walmart saiu”. É o motivo: o Brasil pune quem não domina o detalhe operacional.
Makro vendeu 30 lojas para o Carrefour por R$ 1,95 bilhão
O Makro, pioneiro do atacarejo, seguiu caminho parecido: demorou a reagir ao avanço de concorrentes locais e perdeu competitividade.
A retirada foi em etapas. Em 2020, o Makro vendeu 30 lojas para o Carrefour por R$ 1,95 bilhão.
Depois, em 2023, negociou 16 lojas e 11 postos em São Paulo com o Grupo Muffato, consolidando mais um capítulo de saída de campo e entrega de território para player regional.
Cencosud e o Bretas: quando o Brasil não perdoa erro regional
O empresário Horst Paulmann, da Cencosud, admitiu publicamente em 2015 a dificuldade de entender o Brasil e foi ainda mais direto ao apontar o erro estratégico ligado ao Bretas: “Meu erro foi ir para Minas Gerais e Bretas”, disse ele em assembleia, reconhecendo o custo da aposta.
A Cencosud havia comprado o Bretas em 2010, quando a rede era líder absoluta em Minas. Sob gestão chilena, perdeu terreno.
Em 2025, a operação mineira foi vendida para o Supermercados BH por um valor 47% menor do que o pago 15 anos antes, um retrato do quanto a eficiência local pesa.
Grupo Pão de Açúcar: da joia da coroa ao “turnaround” nas mãos do interior
O capítulo mais dramático foi o do GPA (Grupo Pão de Açúcar). Sob controle do francês Casino, a companhia entrou em espiral de dívidas.
Para aliviar pressão, houve desmonte com venda de ativos relevantes, incluindo movimentos ligados ao Assaí e à extinção do Extra Hiper, com conversão de lojas para atacarejo.
O ato final da virada de poder veio entre agosto e setembro de 2025, quando a família Coelho Diniz, de Governador Valadares, chegou a 24,6% do Grupo Pão de Açúcar, tornou-se a maior acionista e pediu mudanças no conselho, superando o Casino.
No seu material, isso aparece como controle com cinco das nove cadeiras do conselho e a chegada de André Diniz com uma missão descrita como “apertem os cintos”: vender ativos não estratégicos e acelerar corte de despesas, a lógica do “caixa primeiro”.
O salto das regionais: a família comendo pelas beiradas, até virar o prato principal
A virada tem número e tem método.
Há 10 anos, as grandes redes respondiam por cerca de 80% das vendas no Brasil. Hoje, o cenário virou: aproximadamente 50% do mercado está nas mãos de redes regionais e superregionais, que ajustam estoque, preço e logística para a realidade de cada bairro, algo que nenhuma sede em Paris ou Chicago conseguiu copiar.
E 2025 virou o ano-símbolo: “o comando voltou para quem conhece o chão”.
Minas, família e atacarejo: o cheque de R$ 716 milhões que mudou o jogo
Se essa retomada tem um rosto, é Pedro Lourenço (Pedrinho), do Supermercados BH.
A história é varejo raiz: ex-carregador, 22 anos aprendendo na prática o chão de loja, até que em 1996, aos 40 anos, abriu uma pequena mercearia em Santa Luzia (MG). Dali saiu uma das maiores redes do país.
O BH dominou as classes C e D com custo fixo reduzido e operação enxuta. O faturamento saltou de R$ 1,5 bilhão (2010) para R$ 21 bilhões (2024) e o Ranking ABRAS confirma o BH na 4ª posição nacional, com R$ 21,278 bilhões em 2024.
A escala impressiona:
- Mais de 400 lojas, em 109 cidades de Minas e no Espírito Santo;
- Frota própria: 463 caminhões e 96 veículos de suporte;
- Marca própria: 160+ produtos com selo BH, já representando 8% do faturamento;
- Em fevereiro de 2025, o movimento que fechou o ciclo: cheque de R$ 716 milhões para comprar as 54 lojas do Bretas em Minas, além de 8 postos, 1 centro de distribuição e outros ativos, eliminando concorrência estrangeira no estado.
E o “ponto final” simbólico: com fortuna estimada em R$ 7,5 bilhões, Pedrinho comprou 90% da SAF do Cruzeiropor R$ 600 milhões, uma assinatura de poder de quem saiu da descarga de caminhão para o topo.
Nordeste, atacarejo e logística: o império de Ilson Mateus
O maior fenômeno fora do eixo Sul-Sudeste atende pelo nome Ilson Mateus.
Ex-engraxate e torneiro mecânico, tentou garimpo em Serra Pelada e, em 1986, abriu uma mercearia de 50 m² em Balsas (MA).
Enquanto Carrefour e GPA hesitavam em entrar no interior profundo do Maranhão, Pará e Piauí por infraestrutura precária, o Mateus “colonizou” território. O segredo, ali, não é só vender. É fazer chegar.
O grupo construiu malha própria:
- 19 centros de distribuição alimentando um ecossistema que vai de supermercado de bairro ao atacarejo, passando por lojas de eletrodomésticos.
- Crescimento acelerado após o IPO de 2020, quando captou R$ 4,6 bilhões e abriu mais de 100 lojas em 3 anos.
Os números do seu texto são monumentais:
- 3ª maior rede do Brasil, com faturamento de R$ 36,4 bilhões (2024);
- Operação perto de 300 lojas, 40 mil+ empregados;
- Império avaliado em R$ 15 bilhões e fortuna pessoal de R$ 10 bilhões.
E em 2025, veio o selo definitivo do domínio regional: o grupo assumiu 51% do Novo Atacarejo (com aporte e combinação estratégica), abrindo de vez as portas de Pernambuco e Paraíba e integrando mais 30 lojas de uma vez.
Família, atacarejo e São Paulo: Muffato invade o coração econômico
No Paraná, o Grupo Muffato virou a 6ª maior rede do país, com receita de R$ 17,4 bilhões. Sob comando dos irmãos Everton e Emerson Muffato, a rede de Cascavel decidiu que “o Sul era pouco” e foi buscar o maior mercado do Brasil.
A expansão foi cirúrgica:
- Comprou 16 lojas do Makro em São Paulo e converteu em tempo recorde para a bandeira Max Atacadista.
- Verticalização obsessiva: vai de postos de combustível a rede própria de televisão, formando um ecossistema.
- Terceira geração já envolvida na gestão de 116 lojas, transformando continuidade em ativo.
E aí veio a jogada que pegou o mercado de surpresa: via fundos Snapper Rocks (e WHG Apache), os Muffato montaram uma posição de cerca de 10% no Assaí.
A Sendas Distribuidora comunicou esse movimento ao mercado, com participação relevante e parte via operações que ampliam exposição econômica.
A lógica é a mesma do seu texto: expertise operacional. O grupo identificou preço descontado e comprou fatia relevante de um concorrente direto, mostrando que regional com caixa forte não precisa “brigar” com gigante: pode virar sócio grande dele.
Santa Catarina: a família Coque e o Komprão virando potência
Em Santa Catarina, a história é de cinco irmãos que começaram como feirantes nos anos 80 e transformaram a rede em potência.
O salto é brutal:
- Em 2012, faturava R$ 288 milhões;
- Doze anos depois, fechou 2024 com R$ 10,3 bilhões (crescimento de 3.400%), colocando o grupo no mapa das 10 maiores potências do país.
O “pulo do gato” foi a criação do Komprão (atacarejo), em 2016, capturando demanda reprimida por atacarejo com agilidade de bairro.
O grupo investiu mais de R$ 150 milhões na última onda de inaugurações no sul do estado e, no seu texto, aparece também como investimento total de R$ 500 milhões para colocar a rede catarinense no mapa das 10 maiores.
Diferencial: margem. Em vez de crescer queimando caixa, apostou em omnicanal e tecnologia, mantendo baixo endividamento e rentabilidade alta. Hoje: 91 lojas, 10 mil colaboradores e liderança estadual, superando redes tradicionais.
GPA nas mãos da família: Coelho Diniz e a chance de “consertar” um ícone
O movimento que melhor define a nova era veio de Governador Valadares: a família Coelho Diniz virou maior acionista do GPA com 24,6%, deslocando os franceses do Casino e buscando remodelar o conselho.
A pergunta óbvia é: por que comprar um gigante que fatura R$ 18 bilhões, mas vinha sendo visto como ineficiente?
No seu texto, a resposta é oportunidade:
- O Casino precisava vender ativos “a qualquer preço”;
- O GPA estava barato;
- Os Coelho Diniz enxergaram turnaround.
E aí entra a especialidade deles: gerar caixa e cortar custo.
- O grupo fatura R$ 3 bilhões por ano com apenas 22 supermercados no interior de Minas;
- Diversificou com império discreto em agro, logística e mercado imobiliário;
- Com média de R$ 136 milhões por loja, enxergam “gordura” para queimar.
É a volta do “olho do dono” em versão conselho de administração.
O que explica a vitória das famílias do interior sobre as globais
O fio condutor é simples e cruel: no varejo alimentar, a margem é centavo. E centavo não respeita organograma internacional.
As famílias regionais avançaram porque:
- Adaptam estoque e preço por bairro, não por país;
- Negociam com fornecedor local sem liturgia;
- Montam logística própria para não depender de terceiros;
- Usam atacarejo para ganhar escala sem perder giro;
- Compram ativos de multinacionais em retirada (ou em necessidade de caixa).
Enquanto isso, modelos globais sofreram com distância, rigidez e demora de reação e o Brasil, quando sente fraqueza, cobra.
E agora: vão continuar crescendo ou vão virar “grandes demais”?
A provocação final faz sentido: crescer demais pode empurrar qualquer um para o mesmo erro das multinacionais, virar máquina pesada, lenta e distante do balcão.
Só que existe uma diferença: essas empresas cresceram com cultura de operação, não de slide. Se mantiverem disciplina de caixa, logística forte e gestão colada no cliente, a tendência é continuar avançando.
Se perderem o chão de loja, a história cobra.
E você: acha que o atacarejo brasileiro vai consolidar um novo equilíbrio no PIB brasileiro? Comenta sua visão e compartilhe este artigo com alguém que acompanha negócios no Brasil.
