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Pouca gente sabe, mas famílias do interior do Nordeste e outras regiões brasileiras, estão engolindo gigantes globais do atacarejo e já representam quase R$ 1 trilhão de reais no PIB brasileiro

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Escrito por Flavia Marinho Publicado em 01/03/2026 às 21:05
Famílias do interior do Nordeste , Minas Gerais e outras regiões brasileiras, estão engolindo as gigantes globais do atacarejo
Famílias do interior do Nordeste , Minas Gerais e outras regiões brasileiras, estão engolindo as gigantes globais do atacarejo
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Redes de família nascidas no interior, com força no Nordeste e apetite por atacarejo, avançam sobre ativos de multinacionais, mudam o jogo do varejo alimentar e mexem com uma engrenagem que já representa mais de 9% do PIB brasileiro.

Tem uma virada silenciosa acontecendo no varejo alimentar: a família que conhece o “cheiro do estoque” está tomando espaço de multinacional com nome em inglês. E não é força de expressão. O motor dessa reviravolta passa pelo Nordeste, pela expansão do atacarejo e por um setor que, somado, já gira R$ 1,067 trilhão, cerca de 9,12% do PIB brasileiro, segundo dados do Ranking ABRAS 2025

Não é só disputa de mercado. É disputa de método: de um lado, processo rígido e decisão a quilômetros de distância; do outro, dono em cima, logística no osso e adaptação por bairro.

PIB brasileiro, atacarejo e o tamanho da arena onde a família briga

O varejo alimentar brasileiro não é “mais um segmento”. Ele virou infraestrutura econômica. A própria ABRAS coloca o setor como força motriz: faturamento do conjunto de empresas chega a R$ 1,067 trilhão, equivalente a 9,12% do PIB nacional, com centenas de milhares de lojas atendendo cerca de 30 milhões de consumidores por dia

Nesse tabuleiro, o atacarejo virou arma de expansão. Ele atende a dona de casa e, ao mesmo tempo, o pequeno comerciante que quer preço e volume. Quando esse formato encaixa com logística própria e gestão local, ele vira rolo compressor

Por que as gigantes globais começaram a perder e por que isso abriu espaço para famílias do interior do Brasil

Durante décadas, o Brasil foi laboratório de gigantes estrangeiras. Só que o país cobra pedágio alto de quem tenta mandar daqui de fora. A volatilidade brasileira destrói planejamento engessado: muda custo, muda demanda, muda margem, muda tudo e rápido.

Walmart: o caso didático da desconexão

A maior varejista do mundo entrou no Brasil em 1995 com a promessa de replicar o modelo “preço baixo todo dia”, mas patinou para entender o consumo local, desde hábitos de compra até negociações com fornecedores regionais.

O final foi saída: em 2018, vendeu 80% da operação para a Advent, que rebatizou como Grupo BIG, e depois esse negócio foi vendido ao Carrefour, transação anunciada em 2021, com expectativa de aprovação até 2022. 

O ponto aqui não é só “Walmart saiu”. É o motivo: o Brasil pune quem não domina o detalhe operacional.

Makro vendeu 30 lojas para o Carrefour por R$ 1,95 bilhão

Makro, pioneiro do atacarejo, seguiu caminho parecido: demorou a reagir ao avanço de concorrentes locais e perdeu competitividade.

A retirada foi em etapas. Em 2020, o Makro vendeu 30 lojas para o Carrefour por R$ 1,95 bilhão

Depois, em 2023, negociou 16 lojas e 11 postos em São Paulo com o Grupo Muffato, consolidando mais um capítulo de saída de campo e entrega de território para player regional. 

Cencosud e o Bretas: quando o Brasil não perdoa erro regional

O empresário Horst Paulmann, da Cencosud, admitiu publicamente em 2015 a dificuldade de entender o Brasil e foi ainda mais direto ao apontar o erro estratégico ligado ao Bretas: “Meu erro foi ir para Minas Gerais e Bretas”, disse ele em assembleia, reconhecendo o custo da aposta. 

A Cencosud havia comprado o Bretas em 2010, quando a rede era líder absoluta em Minas. Sob gestão chilena, perdeu terreno.

Em 2025, a operação mineira foi vendida para o Supermercados BH por um valor 47% menor do que o pago 15 anos antes, um retrato do quanto a eficiência local pesa. 

Grupo Pão de Açúcar: da joia da coroa ao “turnaround” nas mãos do interior

O capítulo mais dramático foi o do GPA (Grupo Pão de Açúcar). Sob controle do francês Casino, a companhia entrou em espiral de dívidas.

Para aliviar pressão, houve desmonte com venda de ativos relevantes, incluindo movimentos ligados ao Assaí e à extinção do Extra Hiper, com conversão de lojas para atacarejo. 

O ato final da virada de poder veio entre agosto e setembro de 2025, quando a família Coelho Diniz, de Governador Valadares, chegou a 24,6% do Grupo Pão de Açúcar, tornou-se a maior acionista e pediu mudanças no conselho, superando o Casino. 

No seu material, isso aparece como controle com cinco das nove cadeiras do conselho e a chegada de André Diniz com uma missão descrita como “apertem os cintos”: vender ativos não estratégicos e acelerar corte de despesas, a lógica do “caixa primeiro”.

O salto das regionais: a família comendo pelas beiradas, até virar o prato principal

A virada tem número e tem método.

Há 10 anos, as grandes redes respondiam por cerca de 80% das vendas no Brasil. Hoje, o cenário virou: aproximadamente 50% do mercado está nas mãos de redes regionais e superregionais, que ajustam estoque, preço e logística para a realidade de cada bairro, algo que nenhuma sede em Paris ou Chicago conseguiu copiar.

E 2025 virou o ano-símbolo: “o comando voltou para quem conhece o chão”.

Minas, família e atacarejo: o cheque de R$ 716 milhões que mudou o jogo

Se essa retomada tem um rosto, é Pedro Lourenço (Pedrinho), do Supermercados BH.

A história é varejo raiz: ex-carregador, 22 anos aprendendo na prática o chão de loja, até que em 1996, aos 40 anos, abriu uma pequena mercearia em Santa Luzia (MG). Dali saiu uma das maiores redes do país.

O BH dominou as classes C e D com custo fixo reduzido e operação enxuta. O faturamento saltou de R$ 1,5 bilhão (2010) para R$ 21 bilhões (2024) e o Ranking ABRAS confirma o BH na 4ª posição nacional, com R$ 21,278 bilhões em 2024. 

A escala impressiona:

  • Mais de 400 lojas, em 109 cidades de Minas e no Espírito Santo;
  • Frota própria: 463 caminhões e 96 veículos de suporte;
  • Marca própria: 160+ produtos com selo BH, já representando 8% do faturamento;
  • Em fevereiro de 2025, o movimento que fechou o ciclo: cheque de R$ 716 milhões para comprar as 54 lojas do Bretas em Minas, além de 8 postos1 centro de distribuição e outros ativos, eliminando concorrência estrangeira no estado. 

E o “ponto final” simbólico: com fortuna estimada em R$ 7,5 bilhões, Pedrinho comprou 90% da SAF do Cruzeiropor R$ 600 milhões, uma assinatura de poder de quem saiu da descarga de caminhão para o topo.

Nordeste, atacarejo e logística: o império de Ilson Mateus

O maior fenômeno fora do eixo Sul-Sudeste atende pelo nome Ilson Mateus.

Ex-engraxate e torneiro mecânico, tentou garimpo em Serra Pelada e, em 1986, abriu uma mercearia de 50 m² em Balsas (MA).

Enquanto Carrefour e GPA hesitavam em entrar no interior profundo do Maranhão, Pará e Piauí por infraestrutura precária, o Mateus “colonizou” território. O segredo, ali, não é só vender. É fazer chegar.

O grupo construiu malha própria:

  • 19 centros de distribuição alimentando um ecossistema que vai de supermercado de bairro ao atacarejo, passando por lojas de eletrodomésticos.
  • Crescimento acelerado após o IPO de 2020, quando captou R$ 4,6 bilhões e abriu mais de 100 lojas em 3 anos.

Os números do seu texto são monumentais:

  • 3ª maior rede do Brasil, com faturamento de R$ 36,4 bilhões (2024);
  • Operação perto de 300 lojas40 mil+ empregados;
  • Império avaliado em R$ 15 bilhões e fortuna pessoal de R$ 10 bilhões.

E em 2025, veio o selo definitivo do domínio regional: o grupo assumiu 51% do Novo Atacarejo (com aporte e combinação estratégica), abrindo de vez as portas de Pernambuco e Paraíba e integrando mais 30 lojas de uma vez. 

Família, atacarejo e São Paulo: Muffato invade o coração econômico

No Paraná, o Grupo Muffato virou a 6ª maior rede do país, com receita de R$ 17,4 bilhões. Sob comando dos irmãos Everton e Emerson Muffato, a rede de Cascavel decidiu que “o Sul era pouco” e foi buscar o maior mercado do Brasil.

A expansão foi cirúrgica:

  • Comprou 16 lojas do Makro em São Paulo e converteu em tempo recorde para a bandeira Max Atacadista
  • Verticalização obsessiva: vai de postos de combustível a rede própria de televisão, formando um ecossistema.
  • Terceira geração já envolvida na gestão de 116 lojas, transformando continuidade em ativo.

E aí veio a jogada que pegou o mercado de surpresa: via fundos Snapper Rocks (e WHG Apache), os Muffato montaram uma posição de cerca de 10% no Assaí.

Sendas Distribuidora comunicou esse movimento ao mercado, com participação relevante e parte via operações que ampliam exposição econômica. 

A lógica é a mesma do seu texto: expertise operacional. O grupo identificou preço descontado e comprou fatia relevante de um concorrente direto, mostrando que regional com caixa forte não precisa “brigar” com gigante: pode virar sócio grande dele.

Santa Catarina: a família Coque e o Komprão virando potência

Em Santa Catarina, a história é de cinco irmãos que começaram como feirantes nos anos 80 e transformaram a rede em potência.

O salto é brutal:

  • Em 2012, faturava R$ 288 milhões;
  • Doze anos depois, fechou 2024 com R$ 10,3 bilhões (crescimento de 3.400%), colocando o grupo no mapa das 10 maiores potências do país. 

O “pulo do gato” foi a criação do Komprão (atacarejo), em 2016, capturando demanda reprimida por atacarejo com agilidade de bairro.

O grupo investiu mais de R$ 150 milhões na última onda de inaugurações no sul do estado e, no seu texto, aparece também como investimento total de R$ 500 milhões para colocar a rede catarinense no mapa das 10 maiores.

Diferencial: margem. Em vez de crescer queimando caixa, apostou em omnicanal e tecnologia, mantendo baixo endividamento e rentabilidade alta. Hoje: 91 lojas10 mil colaboradores e liderança estadual, superando redes tradicionais.

GPA nas mãos da família: Coelho Diniz e a chance de “consertar” um ícone

O movimento que melhor define a nova era veio de Governador Valadares: a família Coelho Diniz virou maior acionista do GPA com 24,6%, deslocando os franceses do Casino e buscando remodelar o conselho. 

A pergunta óbvia é: por que comprar um gigante que fatura R$ 18 bilhões, mas vinha sendo visto como ineficiente?

No seu texto, a resposta é oportunidade:

  • O Casino precisava vender ativos “a qualquer preço”;
  • O GPA estava barato;
  • Os Coelho Diniz enxergaram turnaround.

E aí entra a especialidade deles: gerar caixa e cortar custo.

  • O grupo fatura R$ 3 bilhões por ano com apenas 22 supermercados no interior de Minas;
  • Diversificou com império discreto em agro, logística e mercado imobiliário;
  • Com média de R$ 136 milhões por loja, enxergam “gordura” para queimar.

É a volta do “olho do dono” em versão conselho de administração.

O que explica a vitória das famílias do interior sobre as globais

O fio condutor é simples e cruel: no varejo alimentar, a margem é centavo. E centavo não respeita organograma internacional.

As famílias regionais avançaram porque:

  • Adaptam estoque e preço por bairro, não por país;
  • Negociam com fornecedor local sem liturgia;
  • Montam logística própria para não depender de terceiros;
  • Usam atacarejo para ganhar escala sem perder giro;
  • Compram ativos de multinacionais em retirada (ou em necessidade de caixa).

Enquanto isso, modelos globais sofreram com distância, rigidez e demora de reação e o Brasil, quando sente fraqueza, cobra.

E agora: vão continuar crescendo ou vão virar “grandes demais”?

A provocação final faz sentido: crescer demais pode empurrar qualquer um para o mesmo erro das multinacionais, virar máquina pesada, lenta e distante do balcão.

Só que existe uma diferença: essas empresas cresceram com cultura de operação, não de slide. Se mantiverem disciplina de caixa, logística forte e gestão colada no cliente, a tendência é continuar avançando.

Se perderem o chão de loja, a história cobra.

E você: acha que o atacarejo brasileiro vai consolidar um novo equilíbrio no PIB brasileiro? Comenta sua visão e compartilhe este artigo com alguém que acompanha negócios no Brasil.

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Flavia Marinho

Flavia Marinho é Engenheira pós-graduada, com vasta experiência na indústria de construção naval onshore e offshore. Nos últimos anos, tem se dedicado a escrever artigos para sites de notícias nas áreas militar, segurança, indústria, petróleo e gás, energia, construção naval, geopolítica, empregos e cursos. Entre em contato com flaviacamil@gmail.com ou WhatsApp +55 21 973996379 para correções, sugestão de pauta, divulgação de vagas de emprego ou proposta de publicidade em nosso portal.

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