1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / EUA foca no Brasil para romper domínio da China em terras raras, após Pentágono acionar plano de US$ 200 bilhões e mirar ímãs estratégicos usados em mísseis e carros elétricos
Tempo de leitura 9 min de leitura Comentários 0 comentários

EUA foca no Brasil para romper domínio da China em terras raras, após Pentágono acionar plano de US$ 200 bilhões e mirar ímãs estratégicos usados em mísseis e carros elétricos

Escrito por Alisson Ficher
Publicado em 19/05/2026 às 23:05
Atualizado em 19/05/2026 às 23:11
EUA miram terras raras no Brasil para reduzir dependência da China em ímãs estratégicos usados em mísseis, defesa e carros elétricos.
EUA miram terras raras no Brasil para reduzir dependência da China em ímãs estratégicos usados em mísseis, defesa e carros elétricos.
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

Disputa por minerais críticos ganha novo peso geopolítico com investimentos bilionários dos Estados Unidos, avanço sobre ativos no Brasil e tentativa de reduzir a dependência chinesa em ímãs usados em defesa, carros elétricos e tecnologias industriais de alto valor.

O Pentágono intensificou uma ofensiva financeira para reduzir a dependência dos Estados Unidos de terras raras e ímãs controlados pela China, numa estratégia que passou a incluir o Brasil após a compra da mineradora Serra Verde pela americana USA Rare Earth.

Avaliada em cerca de US$ 2,8 bilhões, a operação se encaixa em um plano mais amplo de Washington para formar cadeias de suprimento fora da influência chinesa em minerais críticos usados na defesa, em veículos elétricos e em equipamentos industriais.

Embora apareçam em pequenas quantidades nos produtos finais, esses insumos sustentam setores de alto valor agregado e se tornaram estratégicos para governos que buscam reduzir vulnerabilidades industriais diante de restrições comerciais e disputas geopolíticas.

No centro dessa iniciativa atua um grupo interno do Departamento de Defesa conhecido informalmente como “Deal Team Six”, apelido que remete à unidade de elite Seal Team Six, da Marinha dos Estados Unidos.

Formada por ex-profissionais de Wall Street, a equipe trabalha a poucos quarteirões da Casa Branca e recebeu mandato para estruturar operações bilionárias em ritmo acelerado, usando instrumentos financeiros pouco comuns na rotina tradicional do Pentágono.

Entre as ferramentas em discussão estão compra de participação acionária, garantias de preço mínimo, contratos de aquisição de longo prazo, empréstimos e compromissos de compra voltados a empresas consideradas estratégicas para a segurança nacional americana.

Segundo a Bloomberg, a equipe afirma contar com US$ 200 bilhões em capacidade de financiamento para os próximos três anos, valor que revela a dimensão da tentativa de reposicionar os Estados Unidos no mercado global de minerais críticos.

Brasil entra no centro da disputa por terras raras

A aquisição da Serra Verde colocou o Brasil em uma posição mais relevante na disputa global por terras raras, especialmente porque a empresa opera o projeto Pela Ema, em Goiás, voltado à produção de elementos usados em ímãs permanentes.

Nesse conjunto, disprósio e térbio aparecem como materiais pesados de alto interesse industrial, pois são usados para elevar a eficiência e a resistência de ímãs aplicados em motores elétricos, sistemas de defesa e tecnologias de energia limpa.

O acordo anunciado pela USA Rare Earth prevê pagamento em dinheiro e ações, além de integrar a produção brasileira a uma cadeia que também envolve ativos industriais e minerais nos Estados Unidos e no Reino Unido.

Como a transação ainda depende de etapas regulatórias e societárias, a conclusão está prevista para 2026, de acordo com informações divulgadas pelas empresas envolvidas e por agências internacionais que acompanham o setor de mineração.

Desde o início da produção comercial em 2024, a Serra Verde passou a ser vista como uma das poucas fornecedoras relevantes fora da Ásia capazes de entregar, em escala, elementos magnéticos de terras raras.

Para Washington, essa característica torna o ativo brasileiro especialmente sensível, já que a cadeia de ímãs permanentes continua concentrada na China e depende de etapas técnicas difíceis de replicar rapidamente em outros países.

A presença americana no negócio, porém, não começou apenas com a compra pela USA Rare Earth, pois a Serra Verde já havia recebido financiamento ligado à Corporação Financeira de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos.

Usada por Washington para apoiar projetos considerados estratégicos em outros países, a agência financeira amplia o alcance da política americana de minerais críticos e reforça o interesse dos Estados Unidos em ativos localizados fora da China.

China domina produção de ímãs de terras raras

Ao longo de décadas, a China consolidou sua vantagem nas terras raras ao dominar etapas que vão da separação e refino à fabricação de ímãs permanentes, criando uma cadeia integrada difícil de ser substituída no curto prazo.

Segundo a Agência Internacional de Energia, o país respondeu por 94% da produção global de ímãs de terras raras em 2024, índice que evidencia a concentração industrial em uma tecnologia essencial para diferentes cadeias produtivas.

Essa dependência ficou mais visível quando Pequim passou a restringir exportações de minerais críticos e ímãs, medida que expôs a vulnerabilidade de indústrias ocidentais dependentes de componentes chineses para manter linhas de produção em funcionamento.

Montadoras e fabricantes de equipamentos industriais alertaram para riscos de paralisação, enquanto governos passaram a tratar o fornecimento desses insumos como tema de segurança econômica, industrial e militar, e não apenas como questão comercial.

Nos Estados Unidos, o episódio reforçou a percepção de que a dependência chinesa deixou de ser apenas um problema de mercado e passou a envolver riscos diretos à base industrial de defesa.

Ímãs de terras raras são usados em sistemas de defesa, mísseis, radares, drones, motores elétricos e tecnologias de energia limpa, o que explica a pressão para criar fornecedores alternativos em países aliados ou politicamente alinhados.

“Estamos em um nível de alerta máximo”, afirmou Rush Doshi, ex-diretor para a China no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Joe Biden, ao comentar a urgência da reação americana ao domínio chinês.

Na avaliação dele, existe hoje em Washington a percepção de que não há tempo para depender apenas de uma solução conduzida pelo mercado, especialmente depois das restrições impostas por Pequim às exportações do setor.

Pentágono amplia intervenção direta em empresas

A mudança de postura americana ficou mais evidente em julho de 2025, quando o Pentágono fechou um acordo de US$ 400 milhões com a MP Materials, única produtora de terras raras em operação nos Estados Unidos.

Com a transação, o governo se tornou o maior acionista da companhia e passou a usar instrumentos típicos de investidores privados para sustentar empresas consideradas essenciais à autonomia industrial americana.

O pacote incluiu garantias de preço mínimo para determinados produtos, apoio a uma nova instalação de ímãs e compromisso de compra da produção por clientes de defesa e do setor comercial.

Por trás dessa estrutura, a lógica é oferecer previsibilidade financeira a companhias que disputam espaço em um mercado dominado por fornecedores chineses subsidiados, já consolidados e capazes de competir com custos mais baixos.

A Unidade de Defesa Econômica, formalizada em abril, opera sob a autoridade do subsecretário de Defesa Stephen Feinberg, bilionário do setor de private equity e figura central na articulação dos novos instrumentos financeiros.

Em coordenação com áreas do Departamento de Defesa, o Departamento de Comércio e agências financeiras do governo americano, a estrutura busca transformar minerais críticos em parte permanente da política de segurança nacional.

Essa coordenação representa uma mudança na postura dos Estados Unidos, que passaram a tratar minerais críticos como infraestrutura estratégica, de forma semelhante a setores considerados essenciais para energia, tecnologia e defesa.

Em vez de apenas conceder contratos tradicionais, o governo agora tenta influenciar diretamente a capacidade produtiva de empresas relevantes, assumindo riscos financeiros que antes ficavam quase sempre restritos ao setor privado.

Críticas apontam risco de pressa e conflito de interesse

A velocidade das negociações, no entanto, provocou críticas entre especialistas e representantes do setor, que veem risco de apoio público a empresas sem histórico operacional suficiente para entregar projetos industriais complexos.

Parte desses críticos afirma que a política pode criar incentivos para companhias exagerarem suas capacidades em busca de financiamento, especialmente em um mercado marcado por tecnologia sensível, custos elevados e grande pressão geopolítica.

Derek Scissors, pesquisador sênior do American Enterprise Institute, disse que o governo Trump “praticamente grita aos quatro ventos” que decisões podem ser tomadas com foco em ganho financeiro, e não apenas na construção de cadeias independentes.

O Pentágono rejeita essa avaliação e afirma que mantém critérios de seleção voltados às necessidades de defesa, com análise das capacidades prometidas por cada empresa antes da assinatura de contratos ou acordos financeiros.

O porta-voz Sean Parnell declarou que o departamento mantém “estrita imparcialidade” e prioriza soluções que beneficiem diretamente os combatentes, além de aplicar um processo rigoroso para avaliar parceiros e verificar alegações de marketing.

As dúvidas também chegaram ao Congresso, onde parlamentares passaram a questionar como as novas operações com participação acionária se encaixam nas leis existentes para investimentos e contratos do governo federal.

Em audiência realizada em fevereiro, o senador republicano Roger Wicker, presidente do Comitê de Serviços Armados do Senado, afirmou que há poucas regras para regular esse tipo de participação e defendeu maior coordenação com parlamentares.

Ímãs estratégicos são alvo central de Washington

A meta mais ambiciosa do governo americano é desenvolver capacidade para produzir ímãs suficientes para atender metade da demanda mundial até 2030, objetivo considerado difícil mesmo por analistas favoráveis à estratégia.

Para alcançar esse patamar, será necessário combinar mineração, separação, refino, metalurgia e fabricação industrial em grande escala, etapas que exigem capital elevado, conhecimento técnico e contratos capazes de sustentar produção contínua.

Além do acordo com a MP Materials e da aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth, o governo americano vem pressionando montadoras e grandes consumidores a firmar contratos de compra com fornecedores não chineses.

Esses compromissos são vistos como forma de garantir demanda antes mesmo de parte da produção atingir escala comercial, reduzindo riscos para empresas que precisam investir em fábricas e tecnologia de processamento.

O desafio, porém, vai além da extração mineral, porque a cadeia de terras raras depende de processamento especializado e da fabricação de ímãs, etapas nas quais a China reúne escala industrial e experiência acumulada.

Esse gargalo ajuda a explicar por que novas minas, isoladamente, não bastam para alterar a estrutura global do setor, mesmo quando estão localizadas em países com reservas relevantes e apoio financeiro internacional.

Ainda assim, a estratégia americana ganhou força depois das restrições chinesas às exportações, que mostraram como decisões tomadas em Pequim podem afetar rapidamente montadoras, fornecedores de defesa e fabricantes de tecnologias limpas.

Para autoridades em Washington, criar alternativas fora da China passou a ser uma exigência para proteger tanto a indústria civil quanto a base industrial de defesa, especialmente diante do crescimento da demanda global por ímãs.

Oferta fora da China depende de escala e tempo

Mesmo com bilhões de dólares em incentivos, o plano do Pentágono não deve produzir resultados imediatos, porque projetos de mineração e processamento exigem anos de licenciamento, construção, testes industriais e consolidação comercial.

As projeções mais otimistas indicam que a oferta americana e de parceiros só deve ganhar tração de forma relevante perto do fim da década, enquanto a demanda global por ímãs permanentes continua em expansão.

Analistas da Bloomberg Economics estimam que as terras raras sustentam uma produção de valor agregado de até US$ 1,2 trilhão, apesar de serem usadas em volumes reduzidos nos produtos finais.

Essa relação ajuda a explicar por que governos passaram a disputar com mais intensidade minas, plantas de processamento e contratos de longo prazo, numa corrida que envolve defesa, transição energética e competitividade industrial.

A entrada do Brasil nesse tabuleiro ocorre justamente quando Estados Unidos, União Europeia, Índia e outros países buscam reduzir vulnerabilidades em cadeias críticas expostas a restrições comerciais e tensões diplomáticas.

Com reservas relevantes e projetos em desenvolvimento, o país passou a ser visto como possível fornecedor em uma indústria marcada por riscos geopolíticos, exigências técnicas elevadas e competição direta por financiamento internacional.

O avanço, porém, dependerá da capacidade de transformar potencial mineral em produção estável, rastreável e competitiva, com processamento adequado, financiamento contínuo e compradores comprometidos com contratos de longo prazo.

Sem essas condições, novas minas fora da China podem continuar distantes de alterar a estrutura global do setor, apesar do interesse crescente de governos e empresas por fontes alternativas de terras raras.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x