1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / Escondido sob a floresta amazônica, no sul do Pará, um vulcão extinto de cerca de 1,9 bilhão de anos é considerado por pesquisadores brasileiros um dos mais antigos já identificados com estrutura preservada, e coloca a Amazônia no centro de estudos sobre a formação dos primeiros continentes da Terra
Tempo de leitura 6 min de leitura Comentários 0 comentários

Escondido sob a floresta amazônica, no sul do Pará, um vulcão extinto de cerca de 1,9 bilhão de anos é considerado por pesquisadores brasileiros um dos mais antigos já identificados com estrutura preservada, e coloca a Amazônia no centro de estudos sobre a formação dos primeiros continentes da Terra

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 31/05/2026 às 08:12
Atualizado em 31/05/2026 às 08:18
Vulcão extinto de 1,9 bilhão de anos no sul do Pará é um dos mais antigos com estrutura preservada e coloca a Amazônia no centro de estudos sobre a Terra primitiva.
Vulcão extinto de 1,9 bilhão de anos no sul do Pará é um dos mais antigos com estrutura preservada e coloca a Amazônia no centro de estudos sobre a Terra primitiva.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
8 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Não espere um cone fumegante: bilhões de anos de erosão apagaram a forma original, e hoje só a floresta cobre o lugar. O que sobrou são as rochas, que guardam condutos de lava e minerais capazes de contar como era o planeta quando os continentes ainda estavam se formando. Um verdadeiro arquivo geológico vivo.

Escondido sob a floresta amazônica, no sul do Pará, um vulcão extinto de cerca de 1,9 bilhão de anos é considerado por pesquisadores brasileiros um dos mais antigos já identificados com estrutura preservada. Batizado de Vulcão Amazonas, ele coloca a Amazônia no centro de estudos internacionais sobre a formação da crosta terrestre e dos primeiros continentes do planeta, num passado tão remoto que é difícil de imaginar.

A descoberta, feita por cientistas brasileiros ainda no início dos anos 2000, voltou a ganhar repercussão em maio de 2026 e tem sido aprofundada por instituições como a Universidade Federal do Ceará, a Unicamp e a USP. Vale um esclarecimento de início: embora parte da divulgação trate o Vulcão Amazonas como “o mais antigo do mundo”, o mais preciso é dizer que ele está entre os mais antigos já identificados com sua estrutura ainda preservada, já que existem registros de rochas vulcânicas ainda mais velhas em outras partes do planeta, porém sem formações tão bem conservadas.

Um gigante de quase 2 bilhões de anos

Vulcão extinto de 1,9 bilhão de anos no sul do Pará é um dos mais antigos com estrutura preservada e coloca a Amazônia no centro de estudos sobre a Terra primitiva.
As dimensões e a idade do Vulcão Amazonas impressionam. 

Com aproximadamente 22 quilômetros de diâmetro, o antigo vulcão chegou a ter um cone de cerca de 400 metros de altura, e sua atividade vulcânica teria durado impressionantes 300 milhões de anos, durante o período geológico conhecido como Paleoproterozoico, quando a Terra ainda estava montando seus primeiros blocos continentais estáveis.

Localizado na região de Uatumã, o complexo despertou o interesse científico no início dos anos 2000, por volta de 2002. Desde então, análises detalhadas de rochas, minerais e estruturas subterrâneas reforçaram a hipótese de que ele surgiu em um período extremamente remoto, muito antes do aparecimento de diversas cadeias de montanhas que conhecemos hoje, o que ajuda a explicar o fascínio dos geólogos pela formação.

Por que ninguém vê o vulcão

Quem imagina encontrar uma montanha fumegante na Amazônia vai se surpreender. O Vulcão Amazonas não tem mais cone nem cratera visíveis, porque bilhões de anos de erosão, mudanças climáticas e transformações da paisagem desgastaram completamente sua forma original, deixando hoje apenas a floresta cobrindo o que um dia foi uma estrutura vulcânica imponente.

Apesar disso, o que ficou guardado nas profundezas é um tesouro para a ciência. Mesmo após tanto tempo, o vulcão ainda preserva rochas do antigo sistema magmático, com condutos de lava, depósitos minerais e estruturas profundas que permaneceram intactos o suficiente para permitir análises detalhadas. É justamente essa preservação que torna o caso brasileiro tão especial para os estudiosos da Terra primitiva.

O que a ciência brasileira descobriu

A pesquisa que ajudou a desvendar o vulcão tem assinatura nacional. Um estudo de pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, a UFC, e da Unicamp, publicado em 2021 na revista científica Journal of South American Earth Sciences, determinou que as rochas vulcânicas da região têm cerca de 1,8 bilhão de anos e estão associadas a antigas caldeiras vulcânicas, estruturas circulares rebaixadas por onde a lava e os gases eram expelidos.

Segundo o professor e geólogo da UFC Felipe Holanda dos Santos, essas caldeiras se assemelham às que existem no famoso Parque Nacional de Yellowstone, nos Estados Unidos. O trabalho, fruto da pesquisa de mestrado de André Massanobu Ueno Kunifoshita na Unicamp, encontrou ainda evidências de cristalização profunda nas rochas, indicando que o magma circulou por fissuras da crosta num tempo em que o planeta ainda consolidava seus primeiros continentes estáveis.

Um arquivo da Terra primitiva

Mais do que uma curiosidade, o vulcão funciona como uma cápsula do tempo geológica. Os minerais preservados nas rochas ajudam os cientistas a investigar a composição química da Terra primitiva, fornecendo pistas valiosas sobre como era a atmosfera antiga, o comportamento térmico do planeta e o processo de consolidação dos continentes há quase 2 bilhões de anos.

Pesquisas conduzidas por outras instituições, como a USP, reforçam esse quadro. O geólogo Caetano Juliani aponta que o vulcanismo na região foi resultado da intensa movimentação de placas tectônicas, com a crosta oceânica deslizando sob a continental, e que a Amazônia teria passado por várias grandes fases de atividade vulcânica, em torno de 2 bilhões, 1,88 bilhão e 1,78 bilhão de anos atrás. Modelagens com sensoriamento remoto sugerem ainda que o sistema vulcânico pode ser bem maior do que o já identificado, com boa parte soterrada sob camadas de sedimentos.

A conexão com a riqueza mineral da Amazônia

Esse passado vulcânico tem relação direta com um dos maiores patrimônios do Brasil. Segundo os pesquisadores, a intensa atividade magmática que marcou a região há bilhões de anos foi fundamental para a formação dos depósitos minerais que hoje fazem da Amazônia uma das áreas mais ricas do país em recursos do subsolo, num elo direto entre a geologia antiga e a economia atual.

Parte das bases rochosas que sustentam a floresta amazônica teria origem nesse antigo sistema magmático, considerado fundamental para entender a evolução geológica de toda a região. Compreender como e quando esses vulcões atuaram ajuda não apenas a reconstruir a história do planeta, mas também a orientar a busca por minérios, num tema que conecta a ciência básica ao potencial econômico do Norte do Brasil.

Um Brasil que já teve vulcões

A descoberta também desfaz uma impressão comum sobre o país. Embora hoje não exista nenhum vulcão ativo em território brasileiro, o Norte do país já foi, num passado distante, uma região marcada por intensa atividade vulcânica, como ressalta o professor Felipe Holanda, o que muda bastante a imagem que costumamos ter da nossa geografia.

É curioso pensar que, onde hoje há floresta tropical, rios e biodiversidade, um dia houve lava, fumaça e erupções de grandes proporções. O Vulcão Amazonas, agora silencioso e extinto, é a prova de que o Brasil também teve seu capítulo na história vulcânica da Terra, ainda que num tempo tão remoto que escapa completamente à escala da vida humana. E não há, é importante frisar, qualquer risco de novas erupções, já que a estrutura está extinta há bilhões de anos.

O Vulcão Amazonas, escondido sob a floresta no sul do Pará, é um daqueles tesouros que mostram como o Brasil guarda capítulos surpreendentes da história do planeta. Um vulcão extinto de quase 2 bilhões de anos, com estrutura rara preservada, que ajuda a ciência a entender como os continentes se formaram e por que a Amazônia é tão rica em minerais. Mais do que um recorde de idade, é um convite a olhar para o solo brasileiro com outros olhos, reconhecendo o valor da pesquisa nacional em desvendar segredos guardados há bilhões de anos.

E você, sabia que o Brasil abriga um vulcão extinto de quase 2 bilhões de anos escondido na Amazônia? Ficou surpreso ao descobrir que o Norte do país já foi uma terra de lava e erupções? Deixe seu comentário, conte o que mais te impressionou nessa descoberta e compartilhe a matéria com quem ama ciência, geologia e os mistérios do nosso planeta.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x