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Enquanto o governo brasileiro ainda discute se cria ou não uma estatal para terras raras, uma empresa do Canadá já assinou acordos para adquirir dois projetos gigantes no Nordeste com potencial para depósitos que a China domina e o mundo inteiro disputa

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 24/04/2026 às 20:35 Atualizado em 24/04/2026 às 20:53
Empresa canadense quer controlar 68 mil hectares de terras raras no Piauí e Bahia. O Nordeste tem depósitos que a China domina e o governo ainda mapeia.
Empresa canadense quer controlar 68 mil hectares de terras raras no Piauí e Bahia. O Nordeste tem depósitos que a China domina e o governo ainda mapeia.
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A canadense Origen Resources assinou cartas de intenção para adquirir dois projetos de terras raras no Piauí e na Bahia, podendo controlar mais de 68 mil hectares em um cinturão emergente de minerais estratégicos no Nordeste. Os depósitos são do tipo argila de adsorção iônica, modelo geológico que permite extração mais simples e menos agressiva, enquanto o governo brasileiro ainda debate se cria uma estatal para o setor.

Enquanto o governo brasileiro discute o modelo institucional para explorar terras raras no país, uma empresa canadense já está colocando dinheiro na mesa. A Origen Resources assinou uma nova carta de intenções para adquirir um projeto mineral de mais de 33 mil hectares entre o Piauí e a Bahia, somando-se a outro acordo firmado em outubro de 2025 para uma área no Piauí. Com as duas operações, a companhia afirma que poderá controlar mais de 68 mil hectares em um cinturão emergente de terras raras no Nordeste brasileiro.

O movimento da Origen acontece em um momento em que o Brasil tenta definir sua estratégia para minerais críticos. O ministro de Minas e Energia descartou a criação de uma estatal para terras raras, mas sinalizou apoio do BNDES a empresas que atuem no setor. Enquanto isso, o Serviço Geológico do Brasil se reúne com governadores para ampliar o mapeamento mineral em estados como o Piauí, onde o nível de conhecimento geológico ainda é baixo. A empresa canadense não esperou o governo se organizar e avançou com acordos que podem lhe dar acesso a depósitos do tipo que a China domina e que o mercado global de tecnologia disputa.

O que a Origen Resources quer no Piauí e na Bahia

Segundo informações divulgadas pelo portal da CNN Brasil, a empresa canadense mira dois projetos que, somados, cobrem mais de 68 mil hectares na borda oriental da Bacia do Parnaíba, região geológica que se estende entre o Piauí e a Bahia. O primeiro acordo, anunciado em outubro de 2025, envolve uma área no Piauí com potencial para terras raras pesadas. O segundo, firmado agora, adiciona mais de 33 mil hectares de exploração na divisa entre os dois estados.

As áreas têm potencial para depósitos de argila de adsorção iônica, modelo geológico considerado estratégico porque concentra terras raras pesadas, os minerais mais valiosos e escassos dentro desse grupo. A Origen terá 150 dias de exclusividade para realizar a due diligence técnica e jurídica dos projetos, e caso os resultados sejam positivos, poderá adquirir 70% de participação mediante pagamento de US$ 100 mil, emissão de 2 milhões de ações e investimento de US$ 1,5 milhão em exploração.

Por que os depósitos de argila iônica são tão disputados no mundo

O tipo de depósito que a Origen busca no Nordeste brasileiro é o mesmo que fez da China a potência dominante em terras raras pesadas nas últimas décadas. Os depósitos de argila de adsorção iônica permitem extrair minerais com um processo mais simples e menos agressivo do que os métodos tradicionais, usando soluções leves e sem necessidade de aquecer o material a altas temperaturas ou utilizar grandes volumes de ácidos fortes.

Na prática, isso pode significar menor consumo energético, redução de custos operacionais e menor geração de rejeitos tóxicos. Além disso, esses depósitos costumam ocorrer próximos à superfície, o que reduz a necessidade de escavações profundas e pode diminuir o investimento inicial em infraestrutura de mina. Para uma empresa de exploração em estágio inicial como a Origen, essas características tornam os projetos do Nordeste especialmente atrativos em comparação com operações de rocha dura que exigem investimentos muito maiores.

O que falta para os projetos saírem do papel

A assinatura de cartas de intenção é apenas o primeiro passo de um caminho longo. As áreas ainda precisam passar por due diligence, novas campanhas de amostragem, estudos geológicos detalhados e comprovação de viabilidade econômica antes que qualquer decisão de investimento em infraestrutura de mina seja tomada. Após essas etapas, ainda há o licenciamento ambiental, processo que no Brasil pode levar anos dependendo da complexidade do projeto e da localização.

Não há garantia de que os acordos resultem em uma mina em operação. A história da mineração está repleta de projetos que pareciam promissores na fase de exploração e não se viabilizaram por razões técnicas, econômicas ou regulatórias. Para a Origen, os 150 dias de exclusividade na due diligence serão decisivos para avaliar se os 68 mil hectares no Piauí e na Bahia justificam o investimento necessário para avançar às fases seguintes.

O que o governo brasileiro está fazendo enquanto a Origen avança

O contraste entre a velocidade da empresa canadense e o ritmo do governo brasileiro é evidente. O Serviço Geológico do Brasil se reuniu com o governador do Piauí, Rafael Fonteles, para discutir parcerias voltadas à ampliação do mapeamento mineral no estado, reconhecendo que o nível de conhecimento geológico sobre o subsolo piauiense ainda é insuficiente para dimensionar o potencial real de terras raras na região.

Fonteles manifestou interesse em expandir os levantamentos e contar com apoio técnico federal, mas as conversas ainda estão em fase inicial. Enquanto isso, o governo Lula comparou terras raras ao urânio e rejeitou a ideia de criar uma nova estatal para o setor, optando por um modelo de apoio via BNDES a empresas privadas. A decisão abre espaço para que companhias estrangeiras como a Origen avancem sobre depósitos que, sem mapeamento adequado, o próprio governo não sabe exatamente o que contêm.

O que está em jogo para o Brasil na corrida global por terras raras

As terras raras são insumos essenciais para tecnologias que vão de turbinas eólicas e motores de carros elétricos a equipamentos militares e smartphones. A China controla mais de 60% da produção global e domina quase toda a cadeia de refino, o que transforma qualquer novo depósito fora do território chinês em ativo estratégico disputado por potências que buscam reduzir essa dependência.

O Nordeste brasileiro pode abrigar reservas significativas desses minerais, mas a falta de mapeamento geológico impede que o país dimensione o que tem e defina uma estratégia coerente de exploração. A Origen Resources está apostando que os depósitos do Piauí e da Bahia podem se tornar relevantes no mercado global, mas se o Brasil não acelerar sua própria compreensão do subsolo, corre o risco de ver empresas estrangeiras definirem o ritmo e os termos de uma exploração que poderia gerar riqueza e soberania tecnológica para o país.

Você acha que o Brasil deveria criar uma estatal para controlar as terras raras ou está certo em deixar empresas privadas, inclusive estrangeiras, explorarem esses minerais? Conte nos comentários o que pensa sobre a presença de uma empresa canadense no Nordeste e se o governo está agindo rápido o suficiente.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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