O Projeto Moradia Cidadã, da prefeitura de Belo Horizonte, adota o método Moradia Primeiro e vai bancar aluguel, água, luz e móveis de 100 famílias em situação de rua, com R$ 4,5 milhões. A proposta vai além do Bolsa Moradia e aposta na casa como ponto de partida do recomeço.
Pela primeira vez no país, uma prefeitura decidiu pagar o aluguel, a conta de água e a de luz de quem vive na rua, e fazer isso sem exigir nada em troca antes. É essa a aposta de Belo Horizonte com o Projeto Moradia Cidadã, que vai tirar 100 famílias e pessoas da situação de rua e colocá-las dentro de casa primeiro, para só depois cuidar do resto. São R$ 4,5 milhões reservados para bancar esse recomeço, num desenho que troca a fila de exigências pela chave na mão.
A iniciativa ganhou destaque em reportagem do jornal O Tempo publicada em 29 de maio de 2026, dentro da série Da Rua ao Recomeço, e se apoia num método com nome próprio: Moradia Primeiro. A lógica é simples de enunciar e ousada na prática. Em vez de cobrar que a pessoa primeiro largue o vício, consiga emprego ou prove que merece para só então receber um teto, o método Moradia Primeiro entrega a casa logo de cara. A prefeitura afirma que Belo Horizonte é a primeira cidade do país a estruturar um projeto desse tipo.
A virada do método: a casa vem primeiro, sem exigir nada em troca

O modelo tradicional de assistência trata a moradia como prêmio do fim da linha: a pessoa em situação de rua passa por abrigos, tem que cumprir etapas, parar de beber, arrumar trabalho, e só lá no fim, se der tudo certo, conquista um lugar para morar. O método Moradia Primeiro inverte essa escada por completo. Primeiro vem a casa, depois o resto.
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A ideia tem nome e data. Segundo o jornal O Tempo, o conceito foi criado em 1992 pelo psicólogo Sam Tsemberis e ficou conhecido lá fora como Housing First. A premissa por trás dele é quase óbvia quando dita em voz alta: é muito difícil alguém reorganizar a vida, tratar a saúde ou procurar emprego enquanto dorme na calçada. Com um endereço fixo e a porta que fecha, o resto passa a ser possível.
Na prática, o método Moradia Primeiro funciona sobre cinco princípios. O acesso à moradia é imediato e não depende de pré-condições. O beneficiário escolhe e decide sobre a própria vida, no que se chama de autodeterminação. O serviço é voltado para a recuperação da pessoa, com apoio individualizado guiado por ela mesma, e tudo isso mira a reintegração social e comunitária. Não é dar a chave e desaparecer, é dar a chave e caminhar junto.
Quanto custa e de onde vem o dinheiro do Projeto Moradia Cidadã
O Projeto Moradia Cidadã tem um valor definido e uma origem clara. São R$ 4,5 milhões repassados pelo Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, em parceria com a prefeitura de Belo Horizonte, segundo o comunicado oficial da Prefeitura de Belo Horizonte. O dinheiro é federal, a execução é local, e o alvo são 100 famílias e indivíduos no atendimento inicial.
O que esse valor cobre é o coração da história. O projeto banca o custeio da moradia, ou seja, o aluguel, além das despesas de água e energia elétrica, e ainda garante mobiliário básico para a casa começar a funcionar. Não para por aí: junto vem o acompanhamento social especializado, com equipe que ajuda a pessoa a se reerguer. É a diferença entre receber uma chave e receber uma casa que dá para morar de verdade.
Some tudo e fica claro por que o Projeto Moradia Cidadã é mais ambicioso do que parece à primeira vista. Pagar aluguel, água, luz e móveis de cem famílias ao mesmo tempo, com apoio profissional, é caro e complexo. Os R$ 4,5 milhões existem justamente para sustentar essa estrutura completa, e não apenas para transferir um auxílio simples como o Bolsa Moradia e lavar as mãos.
Quem entra nas 100 vagas e por que as mulheres têm prioridade
As 100 vagas não são distribuídas no acaso. O público são pessoas e famílias da população em situação de rua ou que estão em unidades de acolhimento institucional, incluindo arranjos como famílias monoparentais de até quatro integrantes. A prioridade, segundo as informações do projeto, é para as mulheres, o grupo apontado como mais vulnerável dentro da população em situação de rua.
Esse recorte tem razão de ser. Mulheres na rua enfrentam riscos que vão além da fome e do frio, como a violência e a exploração, e muitas estão com filhos. Colocar esse grupo na frente da fila do Projeto Moradia Cidadã é uma escolha de política pública que reconhece quem corre mais perigo dormindo ao relento. A casa, nesses casos, não é só conforto, é proteção.
Cem famílias representam, ao mesmo tempo, muito e pouco. É um número concreto de vidas que saem da rua para dentro de uma casa, e também uma fração diante do tamanho do problema na cidade. O projeto nasce assumindo esse papel de piloto qualificado, um modelo para testar e, se der certo, ampliar. Cem é o começo, não o teto.
A rua que dobrou em cinco anos em Belo Horizonte
Para medir o tamanho do desafio, é preciso olhar os números da cidade. A população em situação de rua de Belo Horizonte praticamente dobrou em cinco anos. Os dados do Cadastro Único e do Observatório da População em Situação de Rua da UFMG mostram um salto de cerca de 8,5 mil pessoas em 2020 para mais de 15 mil no fim de 2025. Em março de 2025, eram 14.454 pessoas, número que colocava a capital mineira na terceira posição entre as capitais brasileiras.
O perfil de quem está na rua ajuda a entender o problema. A maioria é de homens, com média de idade em torno de 42 anos, e o tempo médio de permanência na rua passa de uma década. Gente que está há mais de dez anos sem endereço não volta para dentro de casa com um empurrão pequeno, e é aí que entra a lógica de bancar moradia de forma contínua, em vez de oferecer só uma vaga de abrigo por algumas noites.
Esse crescimento acelerado é o pano de fundo que torna o Projeto Moradia Cidadã urgente. Quando a população em situação de rua dobra em meia década, abrigos lotados deixam de dar conta, e a cidade precisa de uma saída que de fato retire a pessoa da rua, não que apenas a acomode temporariamente. A aposta de Belo Horizonte é que a moradia estável quebre esse ciclo na raiz.
O salto em relação ao Bolsa Moradia de R$ 800
Belo Horizonte já tinha um instrumento para isso, e entender a diferença é importante. O Bolsa Moradia repassa R$ 800 por mês diretamente para o usuário, com a finalidade específica de pagar aluguel, e em 2026 chegou a convocar 300 pessoas, também com prioridade para mulheres. É um auxílio que ajuda, mas que entrega o dinheiro e para por aí.
O Projeto Moradia Cidadã foi desenhado para ir além do Bolsa Moradia em dois pontos centrais. Primeiro, no que cobre: não é só o aluguel, são também água, luz e mobiliário. Segundo, e talvez o mais decisivo, no acompanhamento. “Um dos diferenciais do nosso projeto é o acompanhamento social. Temos uma equipe multidisciplinar, que segura esse acompanhamento e é uma retaguarda muito importante para além do aluguel”, afirmou Claudenice Rodrigues Lopes, coordenadora na Pastoral de Rua.
A comparação não diminui o Bolsa Moradia, que segue atendendo gente. O ponto é que pagar o aluguel sozinho resolve uma parte do problema, e a outra parte, a que faz a pessoa de fato sair da rua e não voltar, depende de suporte humano constante. É essa retaguarda que o método Moradia Primeiro coloca no centro da conta, e que o auxílio simples não tinha como oferecer.
Quem vai tocar o projeto e o que diz a prefeitura
A execução do Projeto Moradia Cidadã não fica direto na mão do poder público. A organização escolhida por chamamento público para tocar a iniciativa é a Pastoral Nacional do Povo da Rua, uma associação que já tem estrada nesse terreno. Desde 2023, a Pastoral acolheu mais de cem pessoas por meio do próprio programa de Moradia Primeiro, o que dá ao projeto uma base de experiência real, não um começo do zero.
Do lado da prefeitura, o discurso é de ambição. “Temos a intenção de que Belo Horizonte seja de fato uma referência no atendimento humanizado a esse público”, disse Alice Brandão, diretora de Políticas para a População em Situação de Rua, Migrantes e Refugiados da prefeitura, ao jornal O Tempo. A fala resume o tamanho da aposta: a cidade não quer só rodar um programa, quer virar modelo para o Brasil.
Há ainda iniciativas que caminham ao lado e mostram que a cidade se mexe em várias frentes. O Aluguel Solidário, de caráter privado e movido a doações, beneficia 43 pessoas em 34 lares, segundo a reportagem. São esforços que, somados ao Projeto Moradia Cidadã, desenham uma rede, ainda pequena diante do tamanho da população em situação de rua, mas que aponta um caminho diferente do abrigo provisório de sempre.
Cem famílias num universo de milhares: o teste começa agora
A história de Belo Horizonte é, no fundo, um experimento de coragem administrativa. Colocar cem famílias dentro de casa, com aluguel, água e luz pagos e equipe acompanhando, é uma promessa concreta de dignidade que o Bolsa Moradia sozinho não entregava. Mas é também um número modesto diante de mais de 15 mil pessoas vivendo na rua na cidade, e o sucesso vai depender de o método Moradia Primeiro provar, na prática mineira, o que já mostrou lá fora. Se funcionar, cem vira mil; se travar, fica a lição. O recomeço, para essas famílias, começa agora.
E você, acha que pagar aluguel, água e luz de quem está na rua, sem exigir nada antes, é o caminho certo para resolver o problema, ou aposta mais em abrigos e exigências? Conta aqui nos comentários se a sua cidade deveria copiar o Projeto Moradia Cidadã de Belo Horizonte.
