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Energia nuclear cresce no mundo, mas segue com participação limitada na geração global em meio à pressão por segurança energética

Escrito por Rannyson Moura
Publicado em 28/12/2025 às 15:27
Relatório da AIE mostra que a energia nuclear cresce globalmente, mas continua com participação estagnada na geração elétrica, apesar da demanda crescente por segurança energética.
Relatório da AIE mostra que a energia nuclear cresce globalmente, mas continua com participação estagnada na geração elétrica, apesar da demanda crescente por segurança energética.
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Relatório da AIE mostra que a energia nuclear cresce globalmente, mas continua com participação estagnada na geração elétrica, apesar da demanda crescente por segurança energética.

Em meio a discussões internacionais, instabilidade geopolítica, conflitos regionais e riscos climáticos, governos e investidores buscam alternativas para garantir o fornecimento contínuo de energia. Nesse contexto, a energia nuclear reaparece como um componente relevante, embora ainda enfrente limitações estruturais para ampliar sua participação na matriz global.

De acordo com o Panorama Energético Mundial, divulgado em novembro pela Agência Internacional de Energia (AIE), o setor nuclear apresenta crescimento consistente, mas em ritmo inferior ao de outras fontes. O documento aponta que a realidade energética global é moldada por incertezas, o que torna a previsibilidade um dos maiores desafios para formuladores de políticas públicas.

Segundo o relatório, “as decisões tomadas pelos formuladores de políticas energéticas serão cruciais para lidar com esses riscos, mas isso ocorre em um contexto complexo”.

Instabilidade global impulsiona diferentes estratégias energéticas

O mundo segue enfrentando uma escassez estrutural de energia. Essa condição não é inédita, mas ganha novos contornos diante das transformações econômicas e ambientais em curso. Historicamente, a energia tem sido um dos principais motores de tensões geopolíticas, e o cenário atual não foge a essa lógica.

Diante disso, países adotam estratégias distintas. Algumas nações, especialmente importadoras de combustíveis, direcionam esforços para energias renováveis e eficiência energética. Outras, por sua vez, priorizam o fortalecimento do fornecimento de fontes tradicionais.

Como observa o relatório, “alguns, incluindo muitos países importadores de combustíveis, inclinam-se para as energias renováveis e a eficiência energética como soluções. Outros se concentram mais em garantir o amplo fornecimento de combustíveis tradicionais”.

Todas as fontes crescem, mas em velocidades diferentes

Um dos pontos centrais do documento da AIE é que praticamente todas as fontes de geração de energia estão em expansão. As energias renováveis seguem quebrando recordes. Em 2024, esse foi o 23º ano consecutivo de crescimento na implantação dessas fontes.

Ao mesmo tempo, o consumo de petróleo, gás natural e carvão também atingiu níveis recordes. A produção de energia nuclear acompanha essa tendência de alta, embora em escala mais modesta.

Segundo o relatório, “as energias renováveis estabeleceram novos recordes de implantação em 2024 pelo 23º ano consecutivo. O consumo de petróleo, gás natural e carvão, bem como a produção nuclear, também atingiram níveis recordes”.

Emissões seguem em alta apesar dos compromissos climáticos

Apesar do discurso global voltado à descarbonização, a AIE identifica uma redução na intensidade dos esforços para diminuir emissões. Desde 2019, a demanda por carvão cresceu de forma mais acelerada do que a de gás natural, impulsionada principalmente pela China.

Esse movimento contribui diretamente para o aumento das emissões relacionadas à energia. Desde 2010, a demanda global de energia cresceu mais de 20%. Em 2024, esse crescimento foi de 2%, ultrapassando 650 exajoules (EJ), número significativamente superior à média anual registrada na década anterior.

Os combustíveis fósseis responderam por quase 80% da demanda total de energia em 2024. Ainda assim, a geração eólica e solar mantém trajetória de crescimento constante, com quase 700 TWh adicionados.

Energia nuclear se recupera, mas permanece com base reduzida

Após uma queda no início da década de 2010, a produção de energia nuclear voltou a crescer. Esse avanço está associado à entrada em operação de novas unidades e à retomada de reatores que haviam sido paralisados.

A AIE classifica esse crescimento como “forte”. No entanto, quando comparado a outras fontes, o volume absoluto de eletricidade gerada pela energia nuclear segue limitado, superando apenas a biomassa.

A expansão da capacidade nuclear instalada também ocorre em ritmo lento. Na última década, a média foi de apenas 8 GW por ano. Em contraste, a capacidade solar global cresceu dez vezes mais no mesmo período, alcançando 540 GW somente em 2024.

Investimentos em energia nuclear seguem modestos

O investimento global em energia atingiu 3,2 trilhões de dólares em 2024, superando a média da década anterior. Ainda assim, a energia nuclear recebe uma fatia relativamente pequena desse montante.

Mesmo com um crescimento de 70% nos investimentos nos últimos cinco anos, o setor permanece atrás de áreas como eficiência energética, renováveis, armazenamento em baterias e até mesmo petróleo, gás e carvão.

A comparação com a energia solar evidencia essa diferença. No mesmo período, os investimentos em painéis solares mais do que dobraram, revelando uma disparidade significativa na atratividade dos setores.

Europa e Estados Unidos perdem protagonismo nuclear

Outro ponto destacado pela AIE é a perda de liderança da Europa e dos Estados Unidos no setor nuclear. Projetos de reatores de grande escala nessas regiões enfrentaram atrasos significativos e estouros de orçamento.

Segundo o relatório, “a energia nuclear sofreu atrasos significativos e estouros de orçamento nos últimos anos para reatores de grande escala na Europa e nos Estados Unidos, que, em média, foram concluídos oito anos depois do planejado e custaram 2,5 vezes mais do que o estimado inicialmente”.

Em contrapartida, projetos na Rússia, China e Coreia foram concluídos mais próximos dos cronogramas e custos originais, reforçando o deslocamento do eixo nuclear global.

Demanda por eletricidade cresce e pressiona sistemas energéticos

A demanda por eletricidade segue em expansão em praticamente todas as regiões. Índia e Indonésia lideram esse crescimento, refletindo processos de industrialização e aumento populacional.

Embora a energia solar e eólica tendam a se tornar mais competitivas, desafios relacionados à infraestrutura, armazenamento e intermitência devem desacelerar parte desse crescimento. Ainda assim, a adição anual de capacidade solar deve alcançar uma média de 540 GW até 2035.

Nesse cenário, o carvão permanece como a principal fonte de geração elétrica global até 2035, apesar das metas climáticas.

Energia nuclear deve acelerar a partir da década de 2030

A AIE projeta uma aceleração na construção de usinas nucleares a partir da década de 2030. Mais de 40 países já possuem políticas voltadas à expansão da energia nuclear, e o investimento no setor dobrou desde 2015.

Como resultado, “a capacidade nuclear global no Sistema de Produção de Carvão (CPS) se expande em um terço até 2035”. Até 2050, o crescimento ultrapassa 80%.

Esse avanço será impulsionado pela retomada de reatores no Japão e por novas construções nos Estados Unidos, Japão, Coreia do Sul e França.

Rússia e China lideram expansão nuclear global

O crescimento mais expressivo da energia nuclear será liderado pela Rússia e pela China. De acordo com o relatório, a China responde por quase metade da capacidade nuclear atualmente em construção.

“A China responde por quase metade de toda a capacidade nuclear em construção atualmente e está a caminho de se tornar a maior operadora de energia nuclear do mundo por volta de 2030”, admite o documento.

Na Rússia, o Plano Diretor Nacional prevê a entrada em operação de 38 usinas nucleares até 2042, totalizando 29,3 GW de capacidade. A participação da energia nuclear na matriz russa deve subir de 18,9% em 2023 para 24% em 2042.

A Rosatom, estatal russa, possui um portfólio de 41 projetos nucleares, de grande e pequeno porte, em 11 países.

Participação da energia nuclear segue limitada nos cenários futuros

Mesmo com crescimento projetado, a energia nuclear continuará com participação relativamente baixa na matriz elétrica global. No cenário CPS, a geração nuclear cresce 40% até 2035, mantendo participação em torno de 9%.

A AIE revisou para cima sua projeção de demanda nuclear, estimando aumento de 4% em 2035 em relação à previsão anterior. Entre 2035 e 2050, o crescimento adicional também será de cerca de 40%, sem alteração significativa na participação percentual.

Enquanto isso, as energias renováveis devem suprir toda a demanda adicional de energia a partir da década de 2030, ampliando sua participação para mais de dois terços da geração global até 2050.

Energia nuclear enfrenta desafio de manter relevância

Os cenários apresentados pela AIE indicam que a energia nuclear, apesar de suas características de baixa emissão e produção estável, permanece com a menor participação entre as principais fontes de geração elétrica.

Diante do crescimento contínuo da demanda global por eletricidade, o setor nuclear precisará acelerar investimentos, decisões políticas e avanços tecnológicos apenas para manter sua atual fatia de mercado, estimada em cerca de 9%.

Para ampliar esse espaço, será necessário “funcionar ainda mais rápido”, conforme indicam os analistas, o que envolve não apenas capital, mas também mão de obra qualificada, inovação e alinhamento regulatório em escala global.

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Rannyson Moura

Graduado em Publicidade e Propaganda pela UERN; mestre em Comunicação Social pela UFMG e doutorando em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG. Atua como redator freelancer desde 2019, com textos publicados em sites como Baixaki, MinhaSérie e Letras.mus.br. Academicamente, tem trabalhos publicados em livros e apresentados em eventos da área. Entre os temas de pesquisa, destaca-se o interesse pelo mercado editorial a partir de um olhar que considera diferentes marcadores sociais.

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