A Tractian, startup fundada em 2019 por três engenheiros brasileiros, virou unicórnio ao criar sensores com inteligência artificial que antecipam falhas em equipamentos. Já monitora 250 mil máquinas ao vivo em fábricas da P&G, Unilever, Nissan e Danone. O Manual do Mundo, canal de Iberê Thenório, visitou o Centro de IA da empresa em São Paulo para o quadro Bora ver.
Em uma fábrica, trocar peças antes da hora vira desperdício. Deixar para trocar depois da quebra vira prejuízo. Uma startup brasileira resolveu esse dilema milionário da indústria usando sensores inteligentes e inteligência artificial, e o resultado colocou ela no clube das empresas bilionárias do país. A Tractian, fundada em 2019 pelos engenheiros Igor Marinelli, Gabriel Lameirinhas e Leonardo Vieira, captou R$ 700 milhões em sua rodada Série C em novembro de 2024, atingiu valuation de R$ 4 bilhões e hoje monitora mais de 250 mil máquinas ao vivo em 1.000 plantas industriais pelo mundo.
A reportagem do Manual do Mundo, canal de Iberê Thenório, visitou o Centro de Inteligência Artificial da empresa em São Paulo para o quadro Bora ver. É um espaço de 10.000 metros quadrados onde a Tractian quebra máquinas de propósito para gerar dados. Cada rolamento que estoura, cada eixo que parte, cada correia que rompe alimenta uma inteligência artificial treinada para reconhecer os primeiros sinais de falha antes que o problema chegue ao chão de fábrica dos clientes.
Como um sensor consegue prever a quebra de uma máquina?

O sensor da Tractian mede quatro variáveis simultaneamente: vibração, ultrassom, temperatura e campo magnético. A grande sacada está no ultrassom, som de frequência tão alta que o ouvido humano não capta.
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Quando a vibração de uma máquina muda de forma perceptível, o problema já costuma estar avançado. O ultrassom detecta o problema antes, enquanto ainda cabe uma solução simples como apertar um parafuso ou reforçar a lubrificação.
No Centro de IA a equipe roda testes com oito mancais montados de formas diferentes. Em poucos minutos, a câmera térmica mostra o rolamento defeituoso atingindo 97°C. Logo começa a sair fumaça. Numa fábrica real, isso causaria um incêndio.
Mas o sensor já tinha captado a falha muito antes. 80% das falhas em equipamentos industriais acontecem por falta de lubrificação, e esse é justamente o tipo de anomalia que o ultrassom identifica em estágio inicial.
O sensor ainda passa por testes brutais antes de ir ao mercado. É exposto a água a 80°C, atmosfera salina simulando anos de maresia e agitador a 85°C com 97% de umidade. Funciona em temperaturas de menos 40°C a 120°C positivos, é selado contra água, poeira e produtos químicos.
Quanto dinheiro a manutenção preditiva economiza de verdade?

Os números da Tractian explicam o valuation bilionário. Clientes registram redução de até 40% no downtime, aumento médio de 15% na produtividade e retorno sobre investimento médio de 383%, com payback em três meses.
O NRR da empresa, métrica que mede a expansão da receita dentro dos clientes já conquistados, é de 196%. A margem bruta é de 72%, altíssima para uma empresa que combina hardware e software.
O faturamento dobra ano a ano e fechou 2024 entre R$ 230 milhões e R$ 250 milhões. A Série C foi liderada pela Sapphire Ventures, gestora americana cujo maior investidor é a SAP, com participação de General Catalyst, Next47 e NGP Capital.
A captação acumulada da Tractian chegou a R$ 1,05 bilhão em quatro rodadas, e a empresa foi a única brasileira na lista global da Forbes das melhores startups de IA.
Os dados coletados por mais de 100 mil sensores já instalados são processados em infraestrutura construída com GPUs NVIDIA H100, H200, T4 e L40, no ecossistema CUDA hospedado na nuvem Oracle. A inteligência artificial compara cada leitura com milhões de outras feitas ao longo dos anos, descobre padrões que engenheiros humanos nunca detectaram e prescreve a ação corretiva.
Por que isso importa para a indústria brasileira?
A Tractian atua em setores estratégicos como mineração, alimentos, automotivo, agronegócio e químico. A multinacional Ingredion, gigante global em ingredientes alimentícios presente em mais de 120 países, adotou a manutenção preditiva para resolver falhas em plantas com ativos críticos de difícil acesso. P&G, Unilever, Nissan Brasil e Danone também fazem parte da carteira.
A história dos fundadores explica parte do sucesso. Igor Marinelli, Gabriel Lameirinhas e Leonardo Vieira cresceram vendo pais e irmão trabalhar como engenheiros de manutenção. O problema era real, familiar e conhecido.
Marinelli se formou em engenharia em Berkeley. A empresa está baseada em Atlanta mas com alma brasileira, e hoje exporta tecnologia de manutenção industrial do Brasil para o mundo. A Finep, agência federal de fomento à inovação, aportou recursos via Inovacred nas fases iniciais.
Quando uma linha de produção para, o prejuízo não aparece só no balanço da fábrica. Chega na prateleira do supermercado vazia, no preço que sobe, no carro atrasado na concessionária. O trabalho invisível de manutenção é o que segura a economia em pé. A Tractian transformou isso em dado, dado em IA e IA em bilhão.
E você já teve contato com manutenção preditiva no trabalho ou conhece alguma fábrica que usa esse tipo de tecnologia? Conta aqui nos comentários como foi a experiência, a gente quer ouvir quem está no chão de fábrica.


Esse sistema que Tractian utiliza para manutenção, está classificado como “Manutenção Baseada nas Condições”.
É um fundamento antigo que agora contando com sensores IIoT-Internet Industrial das Coisas, facilita o monitoramento através da vida restante de componentes críticos.
Sim ,já tive essa oportunidade de trabalhar com manutenção preventiva. Dupont do brasil