O relatório Innocenti Report Card 19, publicado pela UNICEF em maio de 2025, colocou a Holanda no topo do ranking de bem-estar infantil em 43 países ricos. A DW Brasil mostrou por dentro da rotina de uma família holandesa o que está por trás do resultado.
A Holanda tem o maior índice de satisfação com a vida entre adolescentes e crianças do mundo. 87% dos jovens holandeses de 15 anos se declaram satisfeitos com a própria vida, o maior percentual entre os 43 países da OCDE e da União Europeia avaliados pelo Innocenti Report Card 19, relatório da UNICEF divulgado em maio de 2025. Dinamarca e França completam o pódio. No fim da lista estão Chile, Turquia e México. A pergunta que o relatório forçou o mundo a refletir é simples de formular e complicada de responder. O que os holandeses fazem de diferente?
A reportagem da DW Brasil entrou na casa de uma família de Amsterdã para tentar descobrir. Louna, de três anos, Flynn, de um ano, e os pais Marlot van der Stoel e Felix den Ottolander mostraram uma rotina que contrasta com o modelo tradicional de criação baseado em disciplina rígida, atividades extracurriculares e pressão por desempenho. A fórmula holandesa se sustenta em três pilares: independência desde cedo, tempo ao ar livre e laços familiares próximos.
O que os pais holandeses fazem que os outros não fazem?

O dia da família começa junto. Café da manhã compartilhado virou ritual essencial para a maioria das famílias holandesas. Não importa se os pais têm compromissos à noite ou viagens de trabalho. A primeira hora da manhã é sagrada. É nesse momento que as crianças aprendem a se vestir sozinhas, tomar café sozinhas, calçar o casaco. A autonomia começa aos dois anos.
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Na Holanda, quase 80% das crianças menores de três anos frequentam creches, o dobro da média da União Europeia. As creches são privadas e caras, o que gera desconforto entre famílias de classe média, mas o sistema funciona como extensão da socialização. O filho aprende a conviver, brincar e resolver pequenos conflitos antes de aprender a ler.
Os pais holandeses também têm direito a licença parental que se estende até o filho completar oito anos. Muitos, como Felix, escolhem tirar um dia fixo por semana dedicado aos filhos em vez de emendar meses seguidos de afastamento.
A bicicleta entra cedo na vida da criança. 36% da população holandesa usa a bicicleta como principal meio de transporte, e é tradição ganhar a primeira bicicleta no terceiro aniversário. Aprender a pedalar não é só logística. É um rito de confiança que os pais passam para os filhos. Se ela consegue se equilibrar, consegue fazer outras coisas sozinha também.
O que a ciência diz sobre o modelo holandês?

O Innocenti Report Card 19 da UNICEF é um dos estudos mais respeitados no campo do bem-estar infantil. Compara dados de 2018 e 2022 e analisa três dimensões: saúde mental, saúde física e habilidades acadêmicas e sociais.
A Holanda ficou entre os primeiros em todas as três dimensões simultaneamente, o que é raro. Países como Japão e Coreia do Sul têm desempenho acadêmico alto mas pontuam mal em saúde mental. Bulgária, Croácia e Hungria têm boa saúde mental mas ficam na parte de baixo em saúde física.
A explicação que os pesquisadores apontam passa menos pelo dinheiro e mais pelo projeto de infância que a sociedade adota. Países com menos riqueza, como Portugal e Espanha, ficaram respectivamente em 4º e 7º lugar no ranking, superando nações mais ricas. Não é o PIB que faz a criança feliz. É o arranjo social que dá tempo, espaço e autonomia para ela ser criança.
O relatório também trouxe alerta global. Desde a pandemia de COVID-19, crianças nos países ricos estão menos satisfeitas com a vida, mais propensas a sobrepeso e com desempenho escolar em queda. A Holanda também registrou leve recuo. Em 2018, a satisfação era de 90%. Em 2022, caiu para 87%. Mesmo caindo, segue sendo o melhor índice do mundo.
E no Brasil, como estão as nossas crianças?
O Brasil não está no ranking por não fazer parte da OCDE, mas os dados nacionais contam uma história dura. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada pelo IBGE em março de 2026, mostrou que 18,5% dos adolescentes brasileiros entre 13 e 17 anos pensam que a vida não vale a pena ser vivida sempre ou na maioria das vezes.
Entre as meninas, esse percentual chega a 25%. Mais da metade das adolescentes brasileiras se sente irritada, nervosa ou mal-humorada com qualquer coisa. 41% das meninas se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes, contra 16,7% dos meninos.
A satisfação com a própria imagem corporal caiu de 66,5% em 2019 para 58% em 2024, segundo a mesma pesquisa do IBGE. Entre as meninas, mais de um terço se declara insatisfeita com a aparência. O IBGE entrevistou 118.099 adolescentes em 4.167 escolas públicas e privadas do país.
O contraste com a Holanda é brutal. Enquanto 87% dos adolescentes holandeses estão satisfeitos com a vida, no Brasil um em cada cinco jovens não vê sentido em viver. Gabriela Mora, do UNICEF Brasil, aponta violência de gênero, assédio online, pobreza menstrual e padrões estéticos inalcançáveis como fatores que explicam o cenário nacional. O país tinha ainda 1,65 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil em 2024, segundo a PNAD Contínua do IBGE.
A infância, no fim das contas, é um projeto social. A Holanda escolheu o caminho da autonomia, do ar livre e do tempo em família. O Brasil ainda debate o básico.
E na sua casa, que modelo de criação está presente? Você dá autonomia aos seus filhos desde cedo ou prefere a criação mais estruturada? Conta aqui nos comentários o que funcionou (ou não funcionou) com você.


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