A psicóloga intercultural Andrea Sebben chama de “ferida do retorno” o choque que brasileiros sentem ao voltar para o país depois de anos morando no exterior, um fenômeno que ganhou força com o aumento das deportações dos Estados Unidos e virou pauta na DW Brasil
O retorno ao Brasil depois de anos morando fora é, para muita gente, mais difícil que a emigração em si. A sensação de estranhamento diante do próprio país, a frustração com expectativas que não se cumprem e o choque silencioso de não se reconhecer mais entre os seus receberam nome na literatura científica: síndrome do retorno, choque cultural reverso ou, como prefere chamar a psicóloga intercultural Andrea Sebben, ferida do retorno. O fenômeno foi pauta recente da DW Brasil e ganhou força como discussão justamente no momento em que os Estados Unidos deportaram 2.785 brasileiros em 2025, crescimento de 69,8% em relação a 2024, segundo dados oficiais do Itamaraty divulgados pela Veja.
O Ministério das Relações Exteriores publicou em 2025 um guia online específico para orientar brasileiros em regresso. O documento reconhece que o fluxo de retorno vem crescendo por dois motivos principais: o endurecimento global de políticas anti-imigração e a melhora do mercado de trabalho interno. Mas não existe receita pronta para a readaptação.
Por que voltar para casa pode ser pior do que sair?
A contradição é cruel. A pessoa sai do Brasil sabendo exatamente o que está deixando, mas sem saber o que vai encontrar. Volta achando que sabe o que vai encontrar e descobre que não conhece mais. É o que a psicologia intercultural chama de ambivalência migratória: o desejo de ganhar sem perder, de conquistar sem abrir mão.
-
Como a Romênia virou o “posto de combustível” de Hitler, forneceu cerca de metade do petróleo usado pela Alemanha nazista e surpreendeu o mundo ao abandonar o Eixo em 1944, justamente quando a falta de combustível começava a sufocar o Terceiro Reich
-
Adorado por mais de 1,5 milhão de fãs e famoso por cruzar desertos e montanhas com o dono, cachorro famoso é roubado e acaba servido em restaurante, na China
-
Filho de imigrante chinesa que vendia chá no interior de São Paulo, Zhang Ye quase quebrou em 2021 e hoje, aos 28 anos, afirma faturar 1 milhão de reais por dia e ter virado o número 1 do TikTok Shop na América Latina
-
Um construtor naval criou um barco de madeira tão genial que ele vira carrinho de mão e atravessa centenas de metros de praia sozinho quando a maré baixa some com a água
Andrea Sebben entrevistou 500 brasileiros que viveram no exterior e retornaram. A maior parte descreveu o regresso como pior ou muito diferente do que havia imaginado. Segundo ela, quem mora fora rompe com a realidade do Brasil e passa a se relacionar com o país de origem de forma imaginária. As memórias substituem os dados concretos. Quando a pessoa retorna, esbarra num Brasil que não coincide com a lembrança que guardou.
A migração de retorno não é fenômeno pequeno. Dados do Censo 2010 do IBGE, compilados pelo Observatório das Migrações Internacionais, mostraram que 65,6% de todos os imigrantes residindo no Brasil eram na verdade brasileiros retornando do exterior — 455.335 pessoas. A Receita Federal recebeu cerca de 144 mil declarações de saída definitiva do país na última década, e a comunidade brasileira no exterior chegou a 4,99 milhões de pessoas em 2023, segundo estimativa do Itamaraty. Se fosse um estado, seria o 13º mais populoso do Brasil.
O que a ciência já descobriu sobre esse choque invisível?
A síndrome foi identificada durante a Primeira Guerra Mundial, quando médicos europeus notaram que militares e civis deslocados enfrentavam um abalo psicológico específico no regresso. No Brasil, os estudos avançaram nos anos 1980 com o neuropsiquiatra Décio Nakagawa, que acompanhou trabalhadores decasséguis voltando do Japão. Depressão, ansiedade e a sensação de não pertencer a lugar nenhum eram sintomas recorrentes.
Psicólogos descrevem o processo como uma curva em U. Primeiro vem a euforia do reencontro, o alívio da chegada, o cheiro da comida da infância. Depois chega a insatisfação: o trânsito, a informalidade, os códigos sociais que a pessoa não lê mais com facilidade. Só depois, com tempo, a linha sobe novamente e vem o equilíbrio. Sebben defende que o período mínimo para tomar qualquer decisão de re-emigração seria superior a sete meses, justamente porque a readaptação não é linear.
Quem consegue atravessar o luto migratório?
Maucir Nascimento, autor do livro A Volta dos que Foram, conta uma dessas travessias. Ele morou dez anos na Austrália e retornou em 2018. Se estabeleceu no interior de São Paulo com a esposa e dois filhos. Segundo ele, o segredo foi planejamento, autoconhecimento e evitar as idealizações que circulam nas redes sociais.
Do lado oposto está o caso de Aline Milene Machado, microempreendedora que passou dez anos na Alemanha e voltou para Florianópolis em 2025. O primeiro pensamento foi de quem chega em casa. Sete meses depois, o trânsito, a rotina e o confronto entre memória e realidade venceram. Ela voltou para a Alemanha.
Os casos opostos ilustram o mesmo princípio. A migração, no regresso ou na partida, acontece mais por dentro do que por fora. Quem se prepara antes, monta lista honesta de prós e contras e entende por que quer voltar tende a atravessar melhor. Quem espera encontrar a casa que deixou para trás costuma se deparar com uma que não existe mais.
O Brasil que a pessoa abandonou continuou andando sem ela. E ela também mudou.
E você, já morou fora do Brasil ou conhece alguém que voltou depois de anos no exterior? Como foi a readaptação? Conta aqui nos comentários.


Quem para o. EUA só sai de lá se for banido de volta. E mesmo assim na primeira oportunidade tenta retornar para lá. Logicamente que existem os preguiçosos que se deram mal por lá. Mas esses se dão mal.em quaisquer lugares.
Parabéns! Falou pouco, mas falou ****! 😂