Em Rio Branco, no Acre, Rodney Paiva Ramos junta ouriços de castanha e a madeira que marcenarias jogam fora e, com a marca Cores da Mata, mostra que o resíduo da floresta vira renda: são colares de até R$ 2 mil que já chegaram ao MASP e levam o artesanato acreano até Londres.
Tem gente que olha para o chão da floresta e vê sujeira. Rodney Paiva Ramos olha e vê joia. Em Rio Branco, no Acre, ela cata ouriços de castanha caídos e recolhe a madeira que as marcenarias da cidade jogam no lixo, e transforma esse resto em colares que chegam a custar R$ 2 mil. Com a marca Cores da Mata, a artesã virou prova viva de que o resíduo da floresta vira renda, e não entulho.
A trajetória foi contada pela Agência Acre, que mostrou como o trabalho dela ganhou valor internacional. As peças da Cores da Mata são vendidas na loja do MASP, em São Paulo, desde 2017, e hoje cruzam o oceano para serem vendidas até em Londres. De semente jogada fora a acessório de museu, o caminho do artesanato acreano de Rodney é de dar inveja a muita grife.
Do ouriço de castanha e da madeira jogada fora ao colar de R$ 2 mil

Rodney Paiva Ramos trabalha com sementes da Amazônia, como açaí, jarina e paxiubão, além dos ouriços de castanha-do-brasil e de pedaços de madeira descartados por marcenarias de Rio Branco.
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Nada disso teria valor sozinho, mas montado vira biojoia: colares, pulseiras e brincos que carregam a cara da floresta.
A peça mais impressionante é um colar decorativo.
Durante a pandemia, Rodney passou a produzir colares de parede e de mesa que chegam a três metros de comprimento e custam até R$ 2 mil cada um.
A aposta deu tão certo que aumentou em 30% o faturamento da marca.
É a prova de que o design pesa mais que o material.
Um ouriço que apodreceria no chão da mata vira, nas mãos certas, um objeto de R$ 2 mil pendurado numa parede chique.
O valor está na ideia, não no custo da matéria-prima.
Como o resíduo da floresta vira renda
O segredo do negócio é uma engrenagem simples e inteligente.
A madeira reaproveitada vem das marcenarias, e as sementes são coletadas por moradores da floresta, que ganham uma renda extra ao recolher e vender essa matéria-prima.
É assim que o resíduo da floresta vira renda em mais de um ponto da cadeia, não só para a artesã, mas também para as famílias que vivem na mata.
A logística é de tirar o chapéu.
Para chegar até Rio Branco, parte das sementes viaja de barco e de táxi e pode levar até três dias saindo de comunidades isoladas, num verdadeiro garimpo do que a floresta oferece de graça.
Cada etapa agrega valor ao que era descarte.
O que começa como ouriço caído ou madeira refugada termina como biojoia exportada, e em cada passo o resíduo da floresta vira renda para alguém.
É economia circular nascida na Amazônia.
Em vez de derrubar mata para gerar dinheiro, o modelo da Cores da Mata mostra que dá para faturar mantendo a floresta de pé.
Sustentabilidade que cabe no bolso.
Quem é Rodney Paiva Ramos e a marca Cores da Mata
Por trás das peças há uma história de mais de duas décadas.
Rodney Paiva Ramos entrou no artesanato meio por acaso, em 2004, a partir de cursos oferecidos em Rio Branco pela Fundação Bradesco e pelo Sebrae Acre.
O que era um curso virou profissão, e a profissão virou uma marca reconhecida dentro e fora do Brasil.
O nome da marca tem origem premiada.
Em 2012, um colar batizado de Cores da Mata levou o 2º lugar no prêmio de excelência da UNESCO, numa escola de arte em Montevidéu, e acabou dando nome ao negócio todo.
A artesã encontrou ali a sua linguagem.
Cada peça da Cores da Mata busca traduzir as cores, as texturas e as sementes da Amazônia em algo que se possa vestir ou pendurar na parede.
É a identidade da floresta transformada em produto.
E é essa autenticidade que faz curadores de museu e lojas internacionais quererem o trabalho dela.
Do interior do Acre à loja do MASP

Desde 2017, as peças da Cores da Mata são vendidas na loja do MASP, o Museu de Arte de São Paulo, na Avenida Paulista, segundo a própria loja do MASP.
Estar na vitrine do MASP coloca o artesanato acreano lado a lado com design e arte de referência nacional.
Não é uma loja qualquer.
O MASP seleciona objetos feitos por comunidades artesãs, e a entrada da Cores da Mata nesse time é um atestado de qualidade e originalidade.
Para uma marca nascida em Rio Branco, é um salto e tanto.
Vender no MASP significou tirar o artesanato acreano do circuito regional e colocá-lo num dos points culturais mais movimentados do Brasil.
A floresta passou a ter endereço na Paulista.
E foi a partir dessa vitrine que o mundo começou a reparar no trabalho de Rodney.
De Rio Branco para Londres e o mundo
Da Paulista, o passo seguinte foi cruzar fronteiras.
Hoje as biojoias da Cores da Mata são vendidas em Londres, na loja Treasures of Brazil, levando o resíduo da floresta acreana para as vitrines do Reino Unido.
Um colar feito de ouriço de castanha catado no Acre pode hoje terminar no pescoço de uma cliente em pleno coração de Londres.
E não para na Inglaterra.
O trabalho de Rodney já passou pela feira Expoartesanías, na Colômbia, em 2024, e pela Jornada Exportadora do Artesanato em Portugal, em 2025.
A próxima parada pode ser a França.
A artesã de Rio Branco é uma das finalistas para representar o Brasil numa jornada de exportação rumo a Paris, prevista para 2026.
De semente da mata a passaporte carimbado, a Cores da Mata virou caso de exportação.
Poucos negócios saídos de Rio Branco chegaram tão longe.
R$ 1,2 milhão e a força do artesanato acreano
O caso de Rodney é a ponta visível de um setor que cresce.
Em 2025, o artesanato acreano como um todo movimentou cerca de R$ 1,2 milhão, com marcas como a Cores da Mata puxando a fila rumo ao mercado internacional.
Vale a precisão: esse R$ 1,2 milhão é o resultado do setor inteiro de artesanato do Acre, e não o faturamento individual da marca de Rodney.
Ainda assim, o peso dela é grande.
Como uma das vitrines mais conhecidas do estado, a Cores da Mata ajuda a mostrar que o artesanato acreano pode ser sofisticado, sustentável e rentável ao mesmo tempo.
O recado vai além da renda.
Cada real que entra por uma biojoia feita de resíduo é um incentivo a manter a floresta em pé, em vez de trocá-la por desmatamento.
É a bioeconomia funcionando na prática.
Quando o resíduo da floresta vira renda, conservar a mata deixa de ser sacrifício e vira bom negócio para o artesanato acreano.
O que o caso da Cores da Mata mostra
A maior lição é sobre enxergar valor onde os outros veem lixo.
Rodney Paiva Ramos pegou o que a floresta e as marcenarias de Rio Branco descartavam e construiu uma marca que vende no MASP e exporta para Londres.
Onde havia ouriço caído e madeira refugada, hoje há biojoia de até R$ 2 mil e renda para várias famílias.
Vale, claro, manter o pé no chão.
O R$ 1,2 milhão é do setor acreano inteiro, e chegar ao MASP e a Londres é fruto de mais de vinte anos de trabalho e prêmios, então não é um sucesso da noite para o dia.
Ainda assim, o exemplo inspira.
Mostrar que o resíduo da floresta vira renda, com design e sustentabilidade, é o tipo de história que valoriza a Amazônia sem precisar derrubar uma árvore.
Do chão da mata à vitrine de Londres, a Cores da Mata provou que o artesanato acreano tem lugar no mercado global.
E que a floresta, de pé, pode valer muito mais do que parece.
E você, imaginava que um ouriço de castanha jogado fora pudesse virar um colar de R$ 2 mil vendido no MASP e em Londres? Conta pra gente nos comentários o que você acha desse tipo de artesanato que transforma o resíduo da floresta em renda.
