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Egito importa 12 milhões de trigo da Rússia, Ucrânia, Romênia, França e Bulgária e comprou 6,5 milhões de toneladas de milho brasileiro, mas agora quer criar um império agrícola no deserto: plano de autossuficiência mira lavouras irrigadas, ameaça fornecedores globais de grãos e acende alerta para o Brasil no tabuleiro alimentar da África

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 05/06/2026 às 13:18
Atualizado em 05/06/2026 às 13:24
Assista o vídeoProdução de trigo do Egito pode atingir 9,8 milhões de toneladas
plano de autossuficiência mira lavouras irrigadas, ameaça fornecedores globais de grãos e acende alerta para o Brasil no tabuleiro alimentar da África
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Egito corre para produzir trigo no deserto, reduzir dependência de Rússia e Ucrânia e proteger o pão subsidiado que sustenta 70 milhões de pessoas

Segundo a World Grain, o Egito mantém uma das relações mais antigas, sensíveis e politicamente explosivas do mundo com um alimento básico: o pão subsidiado. O programa Baladi existe há mais de meio século e distribui pão a preço quase zero para cerca de 70 milhões de egípcios, o que transforma o abastecimento de trigo em uma questão de estabilidade nacional. Para manter esse sistema funcionando, o país importou 12,7 milhões de toneladas de trigo em 2025-2026, preservando a posição de maior importador de trigo do mundo.

Nos últimos cinco anos, Rússia e Ucrânia forneceram juntas 44,7 milhões de toneladas ao Egito, sendo 35,8 milhões da Rússia e 8,9 milhões da Ucrânia. A guerra iniciada em 2022 e o fechamento de corredores de exportação no Mar Negro provocaram a maior crise de abastecimento de trigo egípcio em décadas, com preços subindo 60% em três meses. Desde então, o governo passou a executar um programa mais agressivo para ampliar a produção doméstica de trigo, reduzir a dependência externa e expandir a fronteira agrícola irrigada no deserto.

Pão subsidiado do Egito é uma linha vermelha política desde os levantes de 1977

Segundo a World Grain, entender por que o Egito está tentando plantar trigo no deserto exige compreender o peso político do pão no país. Em 1977, o presidente Anwar Sadat tentou reduzir os subsídios como parte de um acordo com o Fundo Monetário Internacional, mas a decisão desencadeou os chamados Levantes do Pão, com 79 mortos, centenas de feridos e recuo do governo em apenas 48 horas.

Desde então, o preço do pão passou a ser tratado como linha vermelha na política egípcia. Em 2024, o governo elevou pela primeira vez em 36 anos o preço do pão subsidiado, de uma libra egípcia para duas libras por pacote de cinco unidades. O tema foi importante o suficiente para aparecer em relatórios internacionais de mercado agrícola, reforçando como o pão Baladi segue no centro da estabilidade social do país.

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O sistema é administrado pela General Authority for Supply Commodities, a GASC, que compra trigo no exterior por meio de licitações e distribui o cereal para os moinhos que produzem farinha destinada às padarias estatais. Entre 2017 e 2021, o governo gastou em média US$ 3,8 bilhões por ano em importações de trigo, mostrando o tamanho da dependência.

Egito tenta plantar trigo no deserto com irrigação eficiente e expansão da área agrícola

Segundo a World Grain, o Egito tem 1 milhão de km² de território, mas menos de 4% é terra arável, concentrada na estreita faixa ao longo do Nilo e no delta. Todo o restante é deserto, o que historicamente limitou qualquer projeto mais ambicioso de autossuficiência em grãos.

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A estratégia atual do governo tem dois pilares. O primeiro é a intensificação, com aumento da produtividade por hectare nas áreas tradicionais por meio de sementes de alto rendimento e irrigação mais eficiente.

O segundo é a extensificação, com abertura de novas áreas agrícolas no deserto usando sistemas modernos, especialmente o Mechanized Raised-Bed Irrigation, ou MRBI, tecnologia adaptada para áreas áridas que reduz o consumo de água em comparação com a irrigação por inundação.

Segundo o ICARDA, o MRBI melhora a eficiência do uso da água e aumenta a produtividade com menos insumos. Esse avanço técnico passou a ser tratado como peça central do plano egípcio para produzir mais trigo em um território onde a limitação hídrica sempre foi o principal obstáculo.

Produção de trigo do Egito pode atingir 9,8 milhões de toneladas com 1,5 milhão de hectares plantados

Segundo a World Grain, o governo egípcio fixou como meta alcançar 11,5 milhões de toneladas de trigo, ainda abaixo das importações anuais atuais, mas muito acima da base histórica recente. Para a safra de 2026, a projeção ficou em 9,8 milhões de toneladas, o que representaria o segundo maior recorde histórico do país.

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Esse avanço veio acompanhado de uma expansão de 170 mil hectares em relação ao ano anterior, elevando a área plantada total para 1,5 milhão de hectares. O dado é relevante porque mostra que a estratégia egípcia deixou de ser apenas discurso e começou a produzir resultados visíveis em escala nacional.

A colheita começa em abril no Alto Egito e segue até julho nas áreas recentemente desenvolvidas. Em um país que sempre foi visto como dependente estrutural das importações, ampliar a produção doméstica em velocidade relevante muda não apenas a conta agrícola, mas também a lógica da segurança alimentar.

Rússia domina o trigo do Egito, enquanto o Brasil quase não entra nesse mercado

Segundo a World Grain, o mercado de trigo egípcio funciona, na prática, como um mercado fortemente dominado pela Rússia. Sozinha, ela entregou 35,8 milhões de toneladas ao Egito nos últimos cinco anos, mais do que todos os demais fornecedores combinados.

A vantagem russa é estrutural: proximidade geográfica, frete mais baixo, preços competitivos e acordos bilaterais com apoio estatal.

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Egito corre para produzir trigo no deserto, reduzir dependência de Rússia e Ucrânia e proteger o pão subsidiado

O Brasil quase não participa desse mercado específico de trigo. Segundo a publicação, o trigo brasileiro não atende bem aos padrões proteicos exigidos pela farinha egípcia, e o frete entre portos brasileiros e Alexandria é bem mais caro do que a rota a partir do Mar Negro.

Por isso, o espaço brasileiro no Egito aparece mais em outros produtos, como milho, derivados de soja, proteína vegetal, frango e DDGS.

Esse detalhe importa porque o avanço egípcio na produção de trigo não significa isolamento agrícola completo. O país continuará importando diversos itens, e a reorganização dessas compras pode afetar a competição entre exportadores em vários segmentos, inclusive aqueles nos quais o Brasil já disputa mercado.

Crise no Golfo expôs fragilidade bancária na importação de trigo e alimentos

Segundo a World Grain, a crise do Mar Negro em 2022 não foi o único choque recente. Em 2026, o conflito no Golfo também afetou o sistema financeiro usado nas operações de commodities agrícolas. Bancos em Dubai reduziram ou suspenderam serviços, causando atrasos no processamento de pagamentos de importações egípcias.

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O USDA registrou em março de 2026 que alguns moinhos egípcios não conseguiam pagar por navios já atracados no porto de Alexandria por causa de falhas no sistema de compensação bancária.

O país viveu então um paradoxo crítico: o trigo estava fisicamente no porto, os moinhos precisavam da farinha, o pão subsidiado precisava ser produzido, mas os pagamentos não conseguiam ser concluídos.

Em resposta, o Egito criou uma nova entidade estatal de importação, anunciada em carta ao Ministério da Agricultura russo em dezembro de 2025, para assumir papel mais central nas compras de alimentos e reduzir a dependência do sistema bancário privado. Isso mostra que a preocupação egípcia não é apenas agrícola, mas também financeira e logística.

Preço garantido ao agricultor virou motor da expansão do trigo no Egito

Segundo a World Grain, a expansão de 170 mil hectares em um único ano não aconteceu por acaso. O governo elevou o preço garantido de compra do trigo pago ao agricultor, criando um incentivo direto para ampliar a área plantada.

Em novembro de 2023, o preço foi fixado em US$ 219,75 para cada 150 quilos, desde que o produtor vendesse pelo menos 60% da colheita ao governo. A combinação entre preço mínimo acima do mercado, acesso a sementes de alta produtividade e irrigação subsidiada criou a base econômica que estimulou a expansão.

Se o Egito mantiver essa velocidade por mais alguns anos, a projeção apresentada pela publicação indica que a área plantada poderia chegar a 2,35 milhões de hectares, com produção potencial entre 15 e 16 milhões de toneladas ao rendimento atual. Nesse cenário, a autossuficiência em trigo deixaria de parecer improvável e passaria a ser uma meta calculável.

Autossuficiência em trigo no Egito pode reorganizar o mercado global de grãos

Segundo a World Grain, um Egito menos dependente do trigo externo mudaria o equilíbrio global do comércio agrícola. O país é hoje o maior importador mundial, e qualquer redução relevante em suas compras teria impacto direto sobre fornecedores como Rússia, Ucrânia e países europeus.

Ao mesmo tempo, um Egito que gasta menos divisas com trigo pode redirecionar recursos para outras compras, o que pode manter ou até ampliar sua demanda por milho, proteína animal, derivados de soja e outros insumos alimentares.

Para o Brasil, o efeito mais relevante talvez não esteja no trigo, mas na redistribuição do apetite egípcio por outros produtos agrícolas e na reação comercial de concorrentes globais deslocados desse mercado.

O ponto central é que o Egito não está apenas tentando colher mais trigo. Está tentando reduzir uma vulnerabilidade histórica que mistura segurança alimentar, estabilidade política, geopolítica do Mar Negro e pressão cambial.

Se o plano funcionar, o maior importador de trigo do planeta pode se transformar em um dos casos mais importantes de reconfiguração agrícola do continente africano.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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