Em um sítio de Leoberto Leal, um homem de 81 anos preserva sozinho um pedaço inteiro da memória rural catarinense, entre engenhos, atafonas e ferramentas que atravessaram gerações
Em meio às montanhas do interior de Santa Catarina, longe da pressa das cidades grandes, um sítio guarda algo raro: o tempo parece ter parado, mas a vida segue intensa. Ali mora seu Sebastião, ou apenas “Bastião”, como prefere ser chamado. Aos 81 anos, ele é guardião de um patrimônio que poucos ainda preservam — um conjunto de máquinas, ferramentas e histórias que remontam a um Brasil rural cada vez mais raro de se encontrar intacto.
A propriedade pertence à família Steinhauser e está localizada no município de Leoberto Leal, no interior catarinense. Lá, cada cantinho conta uma história. Há um engenho de cana de açúcar ainda em pleno funcionamento, uma atafona usada para produzir fubá e uma coleção de objetos artesanais que Sebastião fabricou — ou herdou — ao longo de décadas de trabalho na roça.
Mas o que realmente chama atenção em sua propriedade não são apenas os objetos. É o próprio Sebastião: um agricultor de bom humor inabalável, que não perde a chance de contar uma piada ou propor um desafio a quem visita o local. Antes mesmo de começar a explicar suas relíquias, ele já testa a força dos visitantes, brincando sobre amarrar cipó e medir resistência com as próprias mãos. É assim, entre risos e histórias, que ele conduz cada conversa — e revela, aos poucos, uma vida inteira de trabalho, amor e tradição.
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A informação sobre a rotina e o acervo de Sebastião foi divulgada pelo canal Vale Agrícola, no YouTube, em reportagem publicada no dia 11 de junho de 2024. O material documenta, em detalhes, o cotidiano do agricultor e o valor histórico de cada item guardado em sua propriedade.
O escritório da agricultura e as ferramentas que atravessaram três gerações

Logo na entrada da propriedade, Sebastião apresenta o que ele mesmo chama de “escritório da agricultura”: um pequeno galpão onde fabrica, à mão, ferramentas essenciais para o trabalho rural. Colheres de pau usadas para mexer banha, socadores para grãos, ralador de mandioca e até brinquedos artesanais, como um barquinho de madeira feito de sobras de material — tudo passa pelas mãos do agricultor antes de cumprir sua função no dia a dia da casa ou da lavoura.
Entre as peças, há até encomendas em andamento. Sebastião revela que ainda fabrica itens por encomenda, utilizando madeiras como a perobeira, valorizada pela resistência. Segundo ele, um rolo de macarrão maciço, feito artesanalmente, é muito mais durável do que os modelos vendidos no comércio — que, segundo o agricultor, “rodam fraquinho” por serem feitos com pinos.
Esse conhecimento não nasceu com ele. Foi herdado. O ofício de moldar madeira e criar utensílios começou com o avô de Sebastião, passou para o pai e, mais tarde, chegou até ele. Um exemplo emblemático dessa transmissão de saber é a gamela — espécie de tigela grande de madeira maciça, usada tradicionalmente para preparar massa de pão. Sebastião lembra que fez sua primeira gamela em 1963, utilizando a raiz de uma árvore derrubada pelo próprio pai.
Além disso, o agricultor recorda que, em 1964, deixou a casa da família para trabalhar como meeiro na propriedade de uma tia. Foi justamente nesse período que conheceu, por intermédio de outra parente, a mulher que se tornaria sua companheira de vida. A história do encontro, contada com humor, reforça o tom afetivo e nostálgico que atravessa toda a narrativa de Sebastião: décadas de parceria, trabalho conjunto na lavoura e criação da família, sempre lado a lado.
O engenho de cana e a atafona: tecnologia rural que resiste ao tempo

Entre as relíquias mais expressivas do sítio está o engenho de cana de açúcar, ainda em funcionamento. A estrutura — também chamada de moenda — é usada para triturar a cana e extrair o caldo, posteriormente cozido para a produção de melado. Atualmente, o equipamento funciona por meio de um sistema mecânico improvisado, mas, segundo Sebastião, já passou por diferentes formas de tração ao longo dos anos: primeiro movido a bois, depois a cavalos e, posteriormente, à força da água, por meio de um rodete — peça giratória que aproveitava a correnteza próxima à propriedade.
A relação do engenho com o passado, porém, também carrega lembranças mais duras. Sebastião relata que, antigamente, quando a moenda era tocada por bois, esse tipo de trabalho representava risco real às pessoas envolvidas. Ele menciona o caso de uma menina de 12 anos que perdeu a vida após um acidente com o equipamento, décadas atrás — um lembrete de que a modernização das ferramentas, ainda que lenta, trouxe também mais segurança ao trabalho no campo.
Hoje, o processo é mais simples e mais seguro. A cana é inserida na moenda com auxílio de uma tábua de proteção, o bagaço é direcionado para fora automaticamente e o caldo extraído é recolhido em recipientes posicionados atrás do engenho. Depois de fervido no ponto certo, o melado é finalizado em uma gamela de madeira de grandes dimensões — também produzida pelo próprio Sebastião, em um processo que, segundo ele, pode levar mais de dois dias de trabalho manual.
Não muito distante do engenho está a atafona, equipamento tradicional utilizado para moer milho e produzir fubá. No vídeo, Sebastião mostra grãos de milho branco secando ao sol antes de serem processados — etapa fundamental para garantir a qualidade da farinha. Ele explica que, anteriormente, era necessário picar o milho manualmente antes de produzir a canjica e, só depois, o fubá. Hoje, o processo é mais direto: o milho é despejado diretamente na atafona, que tritura os grãos e separa a farinha por meio de uma peneira giratória.
Enquanto descreve esse processo, o agricultor também apresenta outras máquinas raras de sua coleção, como um equipamento antigo utilizado para limpar impurezas de milho, feijão e arroz — funcionando, à época, exclusivamente pela força humana, já que a propriedade não contava com energia elétrica. Há ainda uma máquina menor, usada para retirar semente de vassouras feitas de palha do tipo “pé”, outra prática tradicional que Sebastião mantém viva até hoje.
Um santuário natural e a rotina que resiste à idade avançada
Por outro lado, a propriedade de Sebastião guarda também uma surpresa que vai além das ferramentas e máquinas agrícolas. Próximo a uma cachoeira, o agricultor transformou uma cavidade natural em um pequeno santuário. Segundo ele, a descoberta ocorreu de forma inesperada: durante um trabalho de terraplenagem, solicitado por um padre que buscava água para um acampamento religioso, a escavação revelou uma formação que terminou se transformando em uma gruta.
Ainda assim, mesmo após mais de oito décadas de vida, Sebastião continua ativo na rotina da propriedade. Ele relata que mantém pessoalmente a roçada às margens da estrada que dá acesso ao sítio — tarefa que considera essencial para evitar acidentes, já que vive em uma via de passagem constante. Antes de finalizar a visita, ele ainda demonstra o cuidado de afiar manualmente sua enxada em uma pedra natural, garantindo um corte mais eficiente para o trabalho na lavoura.
Contudo, é em meio à plantação de milho que Sebastião revela, mais uma vez, seu lado brincalhão: avisa, em tom de brincadeira, que pretende cortar alguns pés de milho propositalmente, simulando estar “pregando uma peça”, antes de surpreender os visitantes com a descoberta de ninhadas de animais escondidas entre as plantações.
Histórias como a de Sebastião evidenciam um movimento silencioso, mas persistente, em diversas regiões do interior brasileiro: o de agricultores que, mesmo avançando em idade, continuam ativos e dispostos a preservar técnicas, equipamentos e tradições que correm risco de desaparecer. Nesse sentido, casos como esse ganham relevância não apenas como retrato afetivo de uma trajetória individual, mas também como registro histórico de práticas agrícolas que moldaram gerações inteiras no campo.
Ainda assim, a simplicidade da vida no sítio convive com uma riqueza simbólica enorme. Cada gamela, cada ferramenta e cada peça do engenho carrega consigo decisões, esforços e memórias acumuladas ao longo de mais de meio século. Portanto, mais do que um simples espaço de trabalho rural, a propriedade da família Steinhauser se consolida como verdadeiro acervo vivo da cultura agrícola catarinense — mantido, dia após dia, pelas mãos de um homem que, apesar da idade, ainda não parou de criar, contar histórias e cuidar da terra.

