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Aos 93 anos, agricultor recuperou 56 hectares de mata e fez uma nascente seca voltar a jorrar em Capitão Poço (PA): sua floresta ganhou a 1ª torre de clima em capoeira da Amazônia

Imagem de perfil do autor Maria Heloisa Barbosa Borges
Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 26/06/2026 às 11:09 Atualizado em 26/06/2026 às 11:11
Recuperação florestal de um agricultor no Pará trouxe nascente de volta e rendeu a 1ª torre de monitoramento do clima em capoeira da Amazônia.
Recuperação florestal de um agricultor no Pará trouxe nascente de volta e rendeu a 1ª torre de monitoramento do clima em capoeira da Amazônia.
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Em Capitão Poço, no Pará, o agricultor Manoel Geraldo de Carvalho, o seu Duquinha, plantou cerca de 30 mil mudas e recuperou 56 hectares de mata em três décadas. A recuperação florestal fez uma nascente seca voltar a correr, e a área recebeu a primeira torre de monitoramento do clima em capoeira da Amazônia.

Uma história de recuperação florestal no interior do Pará virou caso de ciência. Em Capitão Poço, no nordeste do estado, o agricultor Manoel Geraldo de Carvalho, conhecido como seu Duquinha, recuperou 56 hectares de mata ao longo de pouco mais de 30 anos, plantando cerca de 30 mil mudas de árvores nativas. O resultado foi tão expressivo que a floresta dele ganhou, em 2026, a primeira torre de monitoramento do clima instalada em uma capoeira, como são chamadas as florestas que renascem na Amazônia. A reportagem é da Amazônia Vox.

Mais do que árvores, voltou a água. Uma nascente que vivia secando na propriedade voltou a correr depois que a mata se recompôs, sinal de que a recuperação florestal mexeu no ciclo da água da região. O próprio seu Duquinha resume o feito com orgulho: “O prazer que eu tenho é de, aos 93 anos, estar mostrando para vocês o que eu fiz”, disse à Amazônia Vox. O foco da história, afinal, não é a idade, e sim o que aquela floresta se tornou.

O agricultor que replantou 56 hectares de mata

Seu Duquinha, ao lado da esposa, Luiza Bezerra - Crédito: Marcio Nagano
Seu Duquinha, ao lado da esposa, Luiza Bezerra – Crédito: Marcio Nagano

A obra de uma vida está de pé, em forma de floresta. Em sua propriedade, batizada de Reserva Ecológica São Geraldo Magela, o agricultor Manoel Geraldo de Carvalho conduziu por mais de três décadas a recuperação florestal de 56 hectares, uma área comparável à de um grande parque urbano.

Foram plantadas cerca de 30 mil mudas de espécies nativas, como castanheira, jatobá, piquiá e bacurizeiro.

A escolha não foi por acaso. Em vez de apostar em uma única cultura, seu Duquinha misturou árvores que devolvem vida ao solo e à mata, num modelo que une regeneração e propósito.

Modelos de recuperação florestal como esse vêm sendo estimulados na região justamente por combinarem o reflorestamento com espécies de valor, como cacau, açaí e banana, que podem gerar renda para famílias do campo.

Por trás do trabalho há também uma família grande. Casado há 66 anos com dona Luiza Bezerra, com quem teve 12 filhos, seu Duquinha tem mais de 200 descendentes, e foi pensando neles que decidiu proteger a terra em vez de desmatá-la.

O que era roça virou, com o tempo, um patrimônio verde com nome e sobrenome.

A nascente seca que voltou a jorrar

imagem ilustrativa
imagem ilustrativa

O sinal mais claro de que a mata voltou veio da água. Na propriedade havia uma nascente que não se sustentava e secava com frequência, deixando o pequeno curso de água sem força.

Conforme a floresta foi se recompondo, o solo voltou a guardar umidade, e a nascente voltou a correr de novo.

Esse detalhe diz muito sobre o poder da recuperação florestal. Árvores funcionam como uma esponja viva: as raízes seguram a água da chuva, alimentam o lençol freático e regulam o fluxo das nascentes ao longo do ano.

Onde antes havia terra exposta e seca, a mata recomposta passou a devolver água de forma constante.

É por isso que a nascente recuperada virou símbolo do projeto. Ela mostra, na prática e a olho nu, que recompor a floresta não traz só árvores de volta, mas também restabelece serviços essenciais como o ciclo da água.

Para uma região marcada pelo desmatamento, ver uma nascente jorrar outra vez é a prova de que a recuperação florestal funciona.

A 1ª torre de monitoramento do clima em uma capoeira da Amazônia

Torre com 20 metros de altura monitora a área de 56 hectares em Capitão Poço - Crédito: Marcio Nagano
Torre com 20 metros de altura monitora a área de 56 hectares em Capitão Poço – Crédito: Marcio Nagano

Foi essa floresta recomposta que chamou a ciência. A área de seu Duquinha recebeu, em 2026, a primeira torre de monitoramento do clima instalada em uma capoeira, a floresta secundária que cresce depois do desmatamento, em toda a Amazônia.

Até então, esse tipo de estrutura só existia em florestas maduras e intactas.

A novidade não é pequena. O pesquisador Fernando Elias resumiu o ineditismo ao apontar que torres em florestas maduras já existem várias na região, “mas para a capoeira, esta é a primeira”.

A estrutura instalada na propriedade tem cerca de 20 metros de altura, e há ainda uma torre maior, de 40 metros, montada em um fragmento de floresta primária que serve de comparação.

O que essas torres fazem é medir o clima por dentro da mata. Sensores espalhados em diferentes alturas registram temperatura do ar, da superfície e do solo, além de umidade, radiação e a perda de água pelas plantas.

Esse monitoramento do clima permite enxergar, em tempo real, como uma floresta que renasceu se comporta diante do calor e da seca.

O que a ciência quer descobrir na floresta de seu Duquinha

O objetivo do estudo é grande. A pesquisa é coordenada pela Embrapa, com financiamento do CNPq, e reúne mais de 180 pesquisadores de 33 instituições, entre universidades, órgãos públicos, ONGs e coletivos locais, no chamado Centro Capoeira.

A floresta de seu Duquinha virou um laboratório vivo dentro da Amazônia.

Segundo a Embrapa, o monitoramento do clima busca entender como diferentes estratégias de recuperação florestal ajudam a recuperar os chamados serviços ecossistêmicos.

Em outras palavras, os cientistas querem saber quanto tempo uma capoeira leva para voltar a estocar carbono, regular a temperatura e produzir vapor de água como faz uma floresta primária.

Os dados também terão uso prático. Eles vão ajudar a medir a capacidade das florestas secundárias de guardar carbono em momentos de calor extremo e a calibrar modelos de satélite que estimam o clima de toda a Amazônia.

Comparar a capoeira de 20 metros com a floresta primária de 40 metros é o que dará a régua dessa recuperação.

Por que as capoeiras viraram peça-chave do clima

A escolha de estudar capoeiras tem um motivo estratégico. Grandes áreas já desmatadas na Amazônia podem, se protegidas, regenerar e voltar a prestar serviços ambientais, e entender esse processo é vital para o combate às mudanças climáticas.

As florestas secundárias deixaram de ser vistas como mato e passaram a ser tratadas como aliadas do clima.

O potencial é enorme justamente pela escala. Recuperar florestas de baixo custo, aproveitando a capacidade natural de regeneração da mata, pode ser uma das formas mais baratas de estocar carbono e proteger nascentes em larga escala.

A recuperação florestal deixa de ser só um gesto local e vira parte de uma estratégia climática maior.

É aí que o exemplo de Capitão Poço ganha peso nacional. O que um agricultor fez em 56 hectares, a ciência agora quer entender para replicar em milhões.

Se as capoeiras da Amazônia conseguem regular o clima e devolver água como a floresta de seu Duquinha, elas podem se tornar uma das maiores ferramentas verdes do Brasil.

Da roça à ciência: o legado que virou pesquisa

A história tem um capítulo que liga as gerações. Uma das filhas de seu Duquinha, a bióloga Laína Carvalho, integra a equipe que estuda a regeneração da mata e analisa capoeiras de diferentes idades, de 15 a 60 anos, até chegar à floresta primária intacta. O que o pai plantou com as mãos, a filha agora investiga com a ciência.

O reconhecimento também vem de dentro de casa. Dona Luiza, esposa do agricultor, resumiu o valor do lugar à Amazônia Vox: “Me sinto feliz demais, porque hoje em dia para se achar um lugar como esse é raro”. A frase traduz o que pesquisadores de 33 instituições foram confirmar com sensores e dados.

No fim, o legado de seu Duquinha é duplo. De um lado, 56 hectares de mata viva e uma nascente que voltou a jorrar.

De outro, um conjunto de dados inéditos que pode orientar a recuperação florestal de toda a Amazônia. Poucas heranças unem tão bem a prática de quem planta e o conhecimento de quem pesquisa.

E você, acha que dá para replicar isso pelo Brasil?

A floresta de seu Duquinha mostra que a recuperação florestal pode devolver mata, água e até virar laboratório de ciência.

Em Capitão Poço, no Pará, 56 hectares recompostos por um agricultor de 93 anos abrigam hoje a primeira torre de monitoramento do clima instalada em uma capoeira da Amazônia, com a Embrapa e mais de 180 pesquisadores de olho nos resultados.

E você, acredita que projetos de recuperação florestal como esse, que trazem nascentes de volta e ajudam o clima, deveriam ser incentivados em larga escala no Brasil? Conta aqui nos comentários se existe alguma área degradada perto de você que poderia renascer como a floresta de seu Duquinha.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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