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Caju vira ‘superalimento’ bilionário e cerca na Costa do Marfim: 1,6 milhão de hectares de monocultura avançam sobre a floresta e famílias trocam comida por castanha

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 26/06/2026 às 23:21 Atualizado em 26/06/2026 às 23:23
Na Costa do Marfim, o boom do caju vira monocultura: 1,6 milhão de hectares, desmatamento sobre a floresta e o cerco ao Parque do Comoé, alerta a Mighty Earth.
Na Costa do Marfim, o boom do caju vira monocultura: 1,6 milhão de hectares, desmatamento sobre a floresta e o cerco ao Parque do Comoé, alerta a Mighty Earth.
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A Costa do Marfim teve em 2025 uma safra recorde de caju e lidera o mercado mundial do ‘superalimento’. Mas, segundo a ONG Mighty Earth, a monocultura já ocupa 1,6 milhão de hectares, cerca o Parque do Comoé e avança sobre a floresta, com desmatamento e famílias que trocaram comida por castanha.

O caju nunca valeu tanto. Em 2025, a Costa do Marfim, maior produtora mundial da castanha, colheu uma safra recorde estimada em cerca de 1,5 milhão de toneladas, alta de quase 60% sobre o ano anterior, consolidando o país na liderança de um mercado bilionário. Mas esse boom do ‘superalimento’ tem um lado escondido, apontado por um relatório da ONG ambiental Mighty Earth.

Segundo o levantamento, divulgado em 2023, a expansão do caju virou monocultura e cobra um preço alto. Cerca de 1,6 milhão de hectares já são ocupados por cajueiros na Costa do Marfim, uma área quase do tamanho do arquipélago do Havaí, que avança sobre a floresta e cerca o Parque Nacional do Comoé. Em algumas regiões, segundo a ONG, o desmatamento chegou a consumir até um quarto da floresta primária entre 2019 e 2023.

A safra recorde de 2025 e o boom bilionário

Na Costa do Marfim, o boom do caju vira monocultura: 1,6 milhão de hectares, desmatamento sobre a floresta e o cerco ao Parque do Comoé, alerta a Mighty Earth.
Na Costa do Marfim, o boom do caju vira monocultura: 1,6 milhão de hectares, desmatamento sobre a floresta e o cerco ao Parque do Comoé, alerta a Mighty Earth.

Os números de 2025 explicam a euforia. A Costa do Marfim projetou uma safra recorde de cerca de 1,5 milhão de toneladas de caju, um salto de aproximadamente 59% em relação ao ano anterior.

O país, que era um produtor modesto há duas décadas, hoje é o maior do mundo na castanha, posição que ocupa desde 2015, quando ultrapassou a Índia.

O dinheiro acompanha o volume. As vendas de amêndoa de caju para exportação devem render ao país cerca de 623 milhões de dólares em 2025, e o setor já responde por cerca de 7% do Produto Interno Bruto da Costa do Marfim.

Não à toa, o caju virou aposta estratégica, com forte crescimento também no processamento local da castanha.

Por trás disso está a fome do mundo pelo produto. O caju entrou de vez na lista dos alimentos vendidos como saudáveis, e a procura global pelo ‘superalimento’ transformou a castanha em commodity disputada.

Quanto mais cresce o apetite por caju, mais terra a Costa do Marfim dedica aos cajueiros, e é aí que começa o problema.

O caju como ‘superalimento’ que move bilhões

Na Costa do Marfim, o boom do caju vira monocultura: 1,6 milhão de hectares, desmatamento sobre a floresta e o cerco ao Parque do Comoé, alerta a Mighty Earth.
Na Costa do Marfim, o boom do caju vira monocultura: 1,6 milhão de hectares, desmatamento sobre a floresta e o cerco ao Parque do Comoé, alerta a Mighty Earth.

A reputação saudável puxou o consumo. Rico em gorduras boas e proteínas, o caju passou a ser vendido como petisco premium e ingrediente de dietas, do leite vegetal aos snacks fitness.

Essa imagem de ‘superalimento’ empurrou a demanda mundial para cima e abriu um mercado de bilhões de dólares ao redor da castanha.

A produção correu atrás do consumo. Para atender encomendas da Europa, da Ásia e das Américas, países africanos como a Costa do Marfim ampliaram suas lavouras em ritmo acelerado, apostando no caju como motor de renda e de exportação. O resultado foi uma corrida por área plantada que mudou a cara do campo.

O ponto cego é o custo dessa corrida. Quando a expansão acontece de forma desordenada, a busca por mais castanha se transforma em monocultura, e a conta ambiental e social raramente aparece na embalagem do produto. É esse lado oculto que a Mighty Earth tentou jogar luz.

1,6 milhão de hectares de monocultura sobre a floresta

O tamanho da lavoura impressiona. De acordo com a Mighty Earth, cerca de 1,6 milhão de hectares da Costa do Marfim já são cobertos por cajueiros, uma área comparável à do arquipélago do Havaí.

Esse avanço, em boa parte, se deu em cima de vegetação nativa, transformando floresta em fileiras de uma única cultura.

A perda florestal é o dado mais duro. Segundo a ONG, algumas regiões produtoras perderam até 25% da floresta primária entre 2019 e 2023, à medida que a monocultura do caju ganhava espaço.

Onde havia mata diversa, passou a existir um tapete uniforme de cajueiros, com tudo o que a monocultura tem de frágil.

Esse modelo cobra um preço ecológico. Substituir floresta por uma só espécie empobrece o solo, reduz a biodiversidade e deixa o ambiente mais vulnerável a pragas e ao clima. O desmatamento ligado ao caju, nesse cenário, não é um efeito colateral pequeno, e sim a base sobre a qual o boom foi construído.

O cerco ao Parque Nacional do Comoé

O caso mais simbólico é o de uma área protegida. O Parque Nacional do Comoé, uma das mais importantes reservas naturais da África Ocidental e Patrimônio Mundial, está, segundo a Mighty Earth, cercado a leste, ao sul e a sudoeste por plantações de caju. A floresta protegida virou uma ilha pressionada pela monocultura ao redor.

O que está em jogo vai além das árvores. O Comoé abriga espécies ameaçadas, como o chimpanzé-ocidental, em risco crítico de extinção, que dependem de um habitat contínuo para sobreviver.

Quando a floresta é cercada por lavoura, esse território encolhe e se fragmenta, ameaçando a vida que ele guarda.

Cercar um parque é minar a sua proteção. Mesmo que a área central continue oficialmente preservada, o desmatamento no entorno isola a reserva e dificulta a circulação de animais e sementes.

O avanço do caju sobre as bordas do Comoé mostra como a monocultura pode estrangular até uma floresta protegida por lei.

Quando a roça vira cajueiro: famílias trocam comida por castanha

Há também um custo no prato. Segundo o relatório, no norte da Costa do Marfim os cajueiros substituíram rapidamente plantações de alimentos tradicionais, como inhame e mandioca.

Com menos roça de comida, muitas famílias passaram a depender de comprar no mercado o que antes colhiam, ficando reféns do preço da castanha.

A dependência cobrou seu preço em 2023. Naquele ano, um excesso de oferta de caju derrubou os preços, e quem havia apostado tudo na castanha viu a renda encolher de uma hora para outra.

Sem a lavoura de alimentos como rede de segurança, parte das famílias rurais ficou exposta à insegurança alimentar.

É o reverso da promessa do ‘superalimento’. Vendido lá fora como item saudável e valorizado, o caju pode significar menos comida na mesa de quem o cultiva quando vira monocultura. Esse descompasso entre o valor da exportação e a vida no campo é um dos pontos centrais do alerta da Mighty Earth.

O dilema e o que o Brasil tem a ver

A história não é só de vilão e mocinho. O caju gera renda, emprego e divisas importantes para a Costa do Marfim, e parte do setor contesta que a cultura seja a principal responsável pelo desmatamento, atribuindo a perda florestal a vários fatores. O desafio é fazer a lavoura crescer sem devorar a floresta nem a segurança alimentar.

O dilema interessa diretamente ao Brasil. O país é um tradicional produtor de caju, sobretudo no Nordeste, e concorre no mesmo mercado global em que a Costa do Marfim virou gigante.

Entender como o boom africano lida com monocultura e desmatamento ajuda o Brasil a evitar os mesmos erros em sua própria expansão agrícola.

Há ainda o lado do consumidor. Boa parte da castanha que chega às prateleiras do mundo, inclusive em produtos vendidos no Brasil, sai dessa cadeia global do caju.

Saber a origem e cobrar produção responsável é uma forma de o comprador influenciar para que o ‘superalimento’ não custe uma floresta como a do Comoé.

E você, sabia o que está por trás do caju?

O caso da Costa do Marfim mostra os dois lados do mesmo produto: uma safra recorde de caju em 2025 e um mercado bilionário de um lado, e 1,6 milhão de hectares de monocultura cercando o Parque do Comoé, desmatamento sobre a floresta e famílias trocando comida por castanha de outro, segundo a Mighty Earth.

E você, imaginava que a castanha de caju vendida como ‘superalimento’ pudesse estar ligada ao desmatamento de uma floresta na África? Conta aqui nos comentários se você passaria a olhar a origem do que consome e se acha que o Brasil deveria aprender com esse dilema entre monocultura e floresta.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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