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Depois de 16 anos tentando trazer o ônibus que comprou no Canadá, o paranaense Walderley Saldanha voltou pra Maringá sem ele: o veículo está retido em Veracruz por inconsistência no número de série, e o casal procura advogado pra resolver

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 08/05/2026 às 12:34
Atualizado em 08/05/2026 às 12:39
Paranaense de Maringá tenta há 16 anos trazer ônibus raro dos anos 50 ao Brasil, mas veículo segue parado em Veracruz por inconsistência nos documentos.
Paranaense de Maringá tenta há 16 anos trazer ônibus raro dos anos 50 ao Brasil, mas veículo segue parado em Veracruz por inconsistência nos documentos.
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Walderley César Saldanha, morador de Maringá, comprou o GMC PD-4501 Scenicruiser em 2009, mas nunca conseguiu colocá-lo em solo brasileiro. Agora, depois de quase duas décadas de tentativas frustradas e um trajeto interrompido em Veracruz, ele e a esposa Valéria buscam apoio jurídico para finalmente trazer o veículo para casa.

Há mais de década e meia, um morador do norte do Paraná carrega uma missão que parece tirada de um roteiro de aventura. A meta é atravessar fronteiras, oceanos e burocracias para colocar dentro de casa um ônibus raríssimo fabricado pela General Motors entre 1954 e 1956.

Walderley César Saldanha, de 56 anos, autônomo e morador de Maringá, encontrou o exemplar em 2009 numa estrada esquecida da Colúmbia Britânica, no Canadá. Desde então, não desistiu de fazê-lo cruzar o continente.

Hoje, em maio de 2026, o veículo apelidado de Spectrum está estacionado no Porto de Veracruz, no México. As autoridades alfandegárias detectaram uma divergência no número de chassi registrado nos documentos.

O paranaense e a esposa, Valéria Aparecida Varize Saldanha, de 50 anos, voltaram ao Brasil sem o sonho debaixo do braço. Agora, correm contra o tempo para encontrar um advogado que destrave a situação.

O brinquedo de infância que virou obsessão adulta

Paranaense de Maringá tenta há 16 anos trazer ônibus raro dos anos 50 ao Brasil, mas veículo segue parado em Veracruz por inconsistência nos documentos.

A história começa muito antes da compra. Aos 12 anos, Walderley ganhou de presente uma miniatura do Scenicruiser, modelo de dois andares que rodou por décadas pelas estradas norte-americanas a serviço da Greyhound Lines.

Enquanto colegas idolatravam carros esportivos, ele se apaixonou por um ônibus interurbano dos anos 50. A promessa de adulto era simples: ter um exemplar de verdade quando crescesse.

Tudo parecia distante até 2009, quando um amigo viajou ao Alasca e flagrou, à beira de uma rodovia em região desértica do Canadá, justamente o modelo dos sonhos. Ao retornar ao Brasil, mostrou as fotos e confirmou que aquele veículo lendário não era apenas memória de catálogo.

Walderley conseguiu localizar o proprietário, um imigrante italiano, e fechou negócio. O nome Spectrum, aliás, vem de uma banda da Flórida que usou o ônibus em turnês antes de ele ser vendido para o canadense.

Visto, dólar e a longa espera no frio

A primeira viagem para conhecer pessoalmente o veículo só aconteceu em 2012, depois que o paranaense conseguiu o visto canadense. Acompanhado de quatro amigos, ele finalmente pôde tocar a lataria do ônibus pelo qual já havia pago.

Mesmo assim, voltou de mãos vazias por causa das exigências para tirá-lo do país. Nas viagens seguintes, em 2019, esbarrou em outro vilão: a alta do dólar, que inflou as taxas de regularização e liberação a níveis insustentáveis.

A pandemia da Covid-19 quase encerrou a jornada antes da hora. O casal foi internado por mais de 20 dias com quadros graves da doença, e logo depois Walderley voltou a adoecer, dessa vez com dengue hemorrágica.

Diante do marido debilitado, Valéria interpretou a dupla recuperação como sinal de que ainda havia propósito a cumprir. Foi ela quem bancou a retomada do projeto, mesmo sem fôlego financeiro para grandes investimentos.

A travessia improvável de Kombi até os Estados Unidos

Paranaense de Maringá tenta há 16 anos trazer ônibus raro dos anos 50 ao Brasil, mas veículo segue parado em Veracruz por inconsistência nos documentos.

Sem dinheiro para um voo internacional com toda a estrutura necessária, o casal apostou numa solução fora da caixa. A ideia foi restaurar uma Kombi antiga em apenas 30 dias e usá-la como meio de transporte rumo ao norte do continente.

Saíram de Maringá, passaram por Cartagena das Índias, na Colômbia, e seguiram até a Flórida. Por lá, foram recebidos por amigos feitos virtualmente ao longo dos anos de divulgação da saga nas redes sociais.

A Kombi ainda levou os dois até New Bedford, em Massachusetts, onde ficou guardada na casa de outros conhecidos. Dali, Walderley e Valéria pegaram um avião para o Canadá em 2023 e reencontraram o Spectrum em estado bem pior do que imaginavam.

Mais de 40 anos parado haviam transformado o ônibus em um quebra-cabeça mecânico. O veículo precisaria ser remontado peça por peça em pleno inverno canadense, com termômetros abaixo de zero.

Mãos sujas de graxa, ajuda virtual e venda da Kombi

A reforma virou rotina. O paranaense passou semanas conversando com o veículo como se fosse um companheiro, gesto que arrancava risadas da esposa.

Pelas redes sociais, onde o casal soma cerca de 50 mil seguidores, recebia dicas técnicas, palavras de incentivo e até peças enviadas por entusiastas brasileiros que torciam de longe pela conclusão da viagem.

Quando os recursos minguaram, a Kombi que havia cruzado as Américas foi vendida para custear combustível e componentes mecânicos. O esforço deu resultado, e o ônibus voltou a funcionar.

Em seguida, o veículo seguiu rumo ao deserto da Califórnia, onde foi guardado na propriedade rural de um conhecido. A pausa de um ano e quatro meses, porém, custaria caro mais adiante.

Roubo no deserto e a corrida ao ferro-velho de Oregon

Ao retornar para retomar a viagem, o casal foi recebido por uma cena de saque. Para-choque arrancado, pneus levados, peças desaparecidas e pertences pessoais espalhados.

Sumiram ferramentas, roupas, calçados e documentos que Walderley vinha acumulando justamente porque cada item original do Scenicruiser é considerado raríssimo no mercado de colecionadores.

A solução veio a 700 quilômetros dali, num ferro-velho especializado em ônibus localizado no Oregon. Foram cerca de 700 dólares investidos para repor o que havia sido roubado, valor levantado em parte por uma vaquinha online sustentada por apoiadores que sequer conheciam o casal pessoalmente.

A frase que Walderley repete nesses momentos resume sua filosofia. Para ele, todo sonho cobra um preço, e o lado financeiro nunca foi prioridade na decisão de seguir adiante.

Sem freio na serra mexicana e a travada burocrática em Veracruz

Já no México, em meados de novembro de 2025, mais um susto. Numa serra extensa, o sistema de freios falhou e Walderley precisou recorrer a uma área de escape construída justamente para casos como aquele.

O ônibus parou semienterrado em pedras e foi resgatado com a ajuda de caminhoneiros mexicanos. Valéria, segundo o marido, filmou tudo rindo, sinal de que o casal já havia desenvolvido uma relação quase cômica com os imprevistos.

A chegada ao Porto de Veracruz parecia o capítulo final, mas trouxe o obstáculo mais frustrante de todos. Os agentes alfandegários identificaram uma divergência no número de série do veículo, problema restrito à documentação, segundo Walderley, já que o ônibus em si estaria com a situação regularizada.

Ele ainda chegou a passar 15 dias acampado dentro do veículo, no porto, esperando o navio atracar. Foi então que recebeu a notícia de que o embarque não sairia.

Spectrum parado, esperança em movimento

Sem conseguir liberar o ônibus, o casal voltou ao Brasil para tentar uma saída jurídica de longa distância. O g1 procurou a Embaixada do Brasil no México, que respondeu não interferir nem comentar transações comerciais privadas envolvendo brasileiros no exterior.

A busca por um advogado especializado em comércio internacional virou agora a principal frente do projeto. Mesmo após pancadas que iriam derrubar muita gente, o paranaense diz não cogitar abandonar o veículo a milhares de quilômetros de Maringá.

Para ele, o Spectrum guarda 16 anos de história em cada compartimento. Isso inclui as peças compradas ao longo do percurso justamente porque a raridade do modelo torna qualquer reposição praticamente impossível em solo brasileiro.

O plano segue o mesmo desde 2009. A meta é desembarcar o ônibus no Porto de Zaraté, em Buenos Aires, e dirigir os quase três mil quilômetros restantes até o quintal de casa.

E você, o que faria no lugar do Walderley? Largaria o sonho parado em Veracruz ou bancaria mais uma rodada para trazer o ônibus para o Brasil?

Conta aí nos comentários se você conhecia a história do Scenicruiser, se já viveu uma saga parecida com algum veículo antigo e que tipo de ajuda jurídica ou logística você acha que poderia destravar essa última etapa. A gente quer ler o seu palpite, e quem sabe alguém da rede não tenha o contato certo para o casal finalmente fechar essa viagem de 16 anos.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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