Shoppings perdem público, veem vendas cair e enfrentam uma nova crise com compras online, home office e declínio do cinema no Brasil.
Os shoppings brasileiros seguem gigantes por fora, mas já não carregam a mesma força de atração de antes. O setor fechou 2025 com 658 empreendimentos, 471 milhões de visitantes por mês e faturamento de R$ 200,9 bilhões, além de 11 novas inaugurações previstas para 2026. O problema é que esse tamanho todo já não garante a mesma relevância na rotina do consumidor.
O sinal mais claro dessa virada aparece no fluxo. Dados reproduzidos pela imprensa a partir de levantamentos do setor mostram que as visitas mensais aos shoppings ficaram 6,2% abaixo do nível de 2019, antes da pandemia, e que 2025 marcou a primeira queda de público desde a retomada pós-Covid.
No caixa, a fotografia ficou ainda mais dura: o faturamento nominal subiu, mas a venda real perdeu força quando a inflação entrou na conta.
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As próximas horas serão de tensão crescente em torno do viés a ser adotado pelo Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom/BC) com relação à taxa básica de juros (Selic), ao cabo da reunião dessa quarta-feira (17). Embora o mercado se apresente ‘dividido’ quanto à decisão do colegiado, a tendência mais forte das últimas semanas é de que a taxa se mantenha inalterada no patamar atual de 14,50% ao ano. Já uma ala minoritária ainda ‘aposta’ em uma queda 0,25 ponto percentual (p.p).
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A mudança de hábito pesou mais do que muita vitrine bonita. O comércio eletrônico encerrou 2025 com faturamento de R$ 235,5 bilhões, acima dos R$ 200,9 bilhões registrados pelos shoppings, consolidando um cenário em que a compra digital deixou de ser apoio e passou a disputar o centro da jornada de consumo.
Em 2024, o e-commerce já havia movimentado R$ 204,3 bilhões, com 414,9 milhões de pedidos, mostrando que a migração não foi pontual.
Essa virada bate mais forte justamente nas categorias que sempre sustentaram os corredores dos shoppings.
Bens duráveis e semiduráveis dependem mais de crédito, prazo e confiança do consumidor, e a própria CNC ressalta que endividamento, inadimplência e comprometimento da renda continuam sendo variáveis centrais para medir a capacidade futura de consumo das famílias.
Quando o dinheiro encurta, o impulso perde espaço para a pesquisa de preço — e a internet vence essa disputa com poucos cliques.
Nem o cinema, durante décadas tratado como âncora natural de público, consegue mais segurar o mesmo movimento.
Em 2019, os cinemas do país venderam cerca de 172,2 milhões de ingressos. Em 2024, o público total foi de 125,3 milhões.
Ao mesmo tempo, o Brasil bateu recorde de 3.510 salas em funcionamento, e cerca de 88% delas ficam em shopping centers.
O resultado é cruel para o modelo tradicional: há estrutura, há tela, mas falta a multidão de antes.
O home office híbrido também mexeu na matemática dos corredores. Executivos do setor já admitem que as sextas-feiras perderam tração e que empresas com dois ou três dias remotos por semana derrubam visitas em horários que antes eram quase automáticos.
O shopping que dependia do trabalhador presencial para almoço, café, farmácia, cinema e compra por conveniência agora disputa atenção com a casa, o delivery e o celular.
A reação do varejo já começou, e ela passa pelo relógio. Lojistas discutem se ainda faz sentido manter operações abertas por 12 horas diárias quando o pico noturno enfraqueceu e o almoço passou a ganhar importância em várias operações.
Alexandre Birman, da Azzas 2154, já defendeu que o setor discuta abrir mais cedo, fechar mais cedo e até rever domingos em alguns casos.
Na mesma direção, empresários do varejo em shopping dizem que encerrar as atividades às 20h ou 21h mudaria pouco nas vendas de algumas categorias.
Essa pressão ficou ainda maior com o debate sobre o fim da escala 6×1. A Abrasce afirma que a mudança, se implementada sem transição, pode provocar queda superior a 12% em vendas e empregos no setor.
A associação também fala em impacto bilionário sobre o faturamento, num momento em que muitos lojistas já operam com margens apertadas e custos elevados.
O recado do mercado é direto: não dá para discutir jornada como se o shopping de 2026 ainda fosse o mesmo de 2019.
Ao mesmo tempo, o mapa do setor não desaba por igual. O Nordeste vem destoando da crise e liderou o faturamento médio por shopping em 2025, com R$ 350,4 milhões por empreendimento, acima da média nacional.
Isso mostra que o esgotamento do modelo não é uniforme: localização, renda, mix de lojas, alimentação, serviços e entretenimento ainda fazem enorme diferença entre um shopping que gira e outro que apenas mantém as portas abertas.
O shopping não morreu, mas perdeu o posto de destino automático do consumo brasileiro. O país ainda inaugura novos centros, mantém uma estrutura gigantesca e continua gerando receita alta.
Só que o cliente mudou mais rápido do que o modelo. Agora, o setor corre para provar que ainda pode ser relevante num mundo em que comprar ficou mais fácil sem estacionamento, sem fila e sem corredor.
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