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Com juros de cartão disparando, velho carnê volta com tudo nas grandes lojas, dribla bancos, resgata cliente negativado, rende lucro ao varejo e vira arma das redes para vender eletro, móveis e eletrônicos no aperto

Publicado em 23/12/2025 às 10:19
Com juros altos e crédito difícil, o carnê volta com força no varejo, conquista o consumidor e vira alternativa rentável às redes.
Com juros altos e crédito difícil, o carnê volta com força no varejo, conquista o consumidor e vira alternativa rentável às redes.
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Com juros do cartão nas alturas e milhões de brasileiros negativados, o carnê renasce nas grandes redes, permite vender eletro, móveis e eletrônicos para quem ficou sem limite, dribla bancos tradicionais e vira também uma fonte de receita financeira importante para o varejo nacional, em meio à crise de consumo.

O velho carnê de loja está voltando ao centro das estratégias do varejo, em versão turbinada por tecnologia, depois de perder espaço para os cartões de crédito entre 2015 e 2020. Com a taxa básica de juros hoje em 15% ao ano e a inadimplência em alta, que fechou outubro em 6,7% dos empréstimos com recursos livres, os 72,96 milhões de consumidores negativados em novembro voltam a enxergar no carnê a única porta de acesso ao crediário.

Casas Bahia, Magazine Luiza, Grupo Mercado Móveis e Lojas Torra reativam ou ampliam o carnê próprio, financiado com recursos do próprio varejo, para driblar o rigor dos bancos e destravar vendas de bens duráveis. Com juros médios de 29,9% ao ano no carnê contra 439,78% no cartão em outubro, as redes transformam o crediário em arma comercial e financeira ao mesmo tempo.

Juros nas alturas e limite estourado empurram consumidor de volta ao carnê

Depois do boom dos cartões de crédito entre 2015 e 2020, impulsionado pela expansão das fintechs, as redes de varejo começaram a perder a fatia de vendas que no passado era dominada pelo carnê de loja. Agora o movimento se inverte.

Com a taxa básica de juros em 15% ao ano, o crédito rotativo do cartão virou armadilha para quem atrasa a fatura, e boa parte dos clientes está com o limite comprometido, sem espaço para novas compras parceladas.

A situação é agravada pela inadimplência. A taxa de atraso do consumidor em operações com recursos livres fechou outubro em 6,7%, enquanto pesquisas de entidades do comércio apontam que, em novembro, 72,96 milhões de brasileiros estavam negativados.

Nesse cenário, o carnê reaparece como alternativa para quem foi expulsou do crédito bancário tradicional, permitindo reorganizar dívidas e ainda comprar bens duráveis em prestações fixas.

Casas Bahia transforma carnê em motor de venda e lucro financeiro

Na Casas Bahia, o carnê já foi sinônimo de crescimento. No fim dos anos 1990, após a estabilização da moeda, ele chegou a responder por 70% do faturamento da rede, antes de ser terceirizado para bancos.

Com a guinada recente, o crediário próprio saiu de cerca de 10% das vendas das lojas físicas em 2020 para algo em torno de 30% atualmente.

Segundo executivos da companhia, “o crediário é um instrumento extremamente rentável” porque viabiliza vendas que não aconteceriam apenas com o cartão de crédito, muitas vezes com limite baixo ou sequer aprovado.

A concessão de crédito própria, bancada com recursos captados no mercado, saltou de aproximadamente R$ 200 milhões por mês no início dos anos 2020 para R$ 900 milhões.

Hoje, 70% da base de clientes da varejista tem renda de até R$ 3 mil, e 40% são trabalhadores autônomos, grupo que enfrenta mais dificuldades para comprovar renda.

Cerca de 40% dessa clientela apresenta algum tipo de negativação, o que reduz o acesso ao crédito nos bancos. Mesmo assim, a empresa concede carnê para quem mantém bom histórico de relacionamento com a rede, reforçando o papel do crediário como diferencial competitivo.

Magalu aposta no carnê digital para destravar vendas no e-commerce

Há cinco anos, o Magazine Luiza identificou um buraco no mercado: havia clientes que não conseguiam limite de cartão, mas tinham apetite para comprar no carnê.

O crediário, que tinha sido abandonado após o acordo com um grande banco, voltou então ao portfólio da rede, desta vez sob controle exclusivo do varejista, com foco em pequenos tíquetes e prazos mais curtos.

Hoje, o crediário responde por cerca de 10% do faturamento das lojas físicas, enquanto no digital ainda é tímido, entre 1% e 2% das vendas.

A empresa enxerga justamente no e-commerce, que concentra 70% das vendas totais, a maior avenida de crescimento para o carnê.

A criação de uma financeira própria e de uma área dedicada a dados e tecnologia deve ampliar a concessão de carnê digital, integrando análise de risco em tempo real e ofertas personalizadas no aplicativo.

A parceria com o banco emissor do cartão co-branded continua forte: são milhões de cartões ativos, e boa parte dos gastos acontece fora das lojas Magalu.

Mas, ao internalizar o crediário, o grupo passa a capturar também a margem financeira dos contratos, e não apenas a margem comercial da venda de produtos.

Grupo Mercado Móveis mantém o carnê como pilar do negócio

Se em outras redes o carnê foi terceirizado e depois resgatado, no Grupo Mercado Móveis ele nunca saiu de cena. Com cerca de 80% do resultado vindo de ganhos financeiros, a empresa com sede em Ponta Grossa, no Paraná, mantém o crediário próprio como pilar da operação de eletro e móveis.

São 230 lojas distribuídas por Paraná, Santa Catarina, Mato Grosso do Sul e São Paulo, com faturamento estimado em R$ 2 bilhões neste ano.

A estratégia foi resistir à moda de entregar a carteira de carnê aos bancos. “Não caímos no canto da sereia de dividir o nosso resultado de crediário”, resume o comando da rede, lembrando o movimento dos anos 1990 e 2000 em que instituições financeiras se tornaram sócias do financiamento das grandes varejistas.

Hoje, o carnê responde por metade do faturamento da empresa, e a meta é elevar essa fatia para 60% das vendas no próximo ano.

Para turbinar a modalidade, a companhia lançou campanhas agressivas, como a “Parcelou, ganhou”, em que o cliente que compra no carnê com entrada mais 17 prestações leva outro produto no valor de uma parcela.

Nas cidades do interior com menos de 40 mil habitantes, o carnê é tratado como patrimônio: muitos consumidores guardam o carnê quitado como prova de idoneidade para buscar crédito em outras lojas.

Carnê ganha versão digital e conquista também famílias de maior renda

Enquanto redes de eletrodomésticos reforçam o carnê tradicional, varejistas de vestuário correm para digitalizar o crediário. A Lojas Torra, com 91 unidades, planeja lançar no próximo ano um carnê totalmente digital, acessado pelo aplicativo, sem necessidade de papel ou ida ao caixa para emissão do carnê físico.

Segundo a diretoria de produtos financeiros, o carnê digital está alinhado à estratégia de ampliar o acesso ao crédito por meio da operação financeira própria.

A rede já tem 1,7 milhão de clientes ativos em cartões privados, responsáveis por mais de 30% das vendas.

A ideia é que o carnê digital complemente o cartão, oferecendo prazos diferenciados, primeira parcela para 60 dias e campanhas específicas em datas como Dia das Mães, Dia dos Pais e Natal.

Embora o carnê ainda seja associado à base de menor renda, pela maior flexibilidade na concessão em relação aos bancos, os números recentes do comércio mostram outra tendência: famílias com renda acima de 10 salários mínimos aumentaram a participação de dívidas em carnê ao longo do ano, enquanto o peso dessa modalidade recuou para quem ganha menos.

A leitura de economistas é que essa faixa de renda mais alta está trocando o crédito caro do cartão por parcelamentos mais previsíveis no carnê.

A matemática ajuda a explicar o movimento. Em outubro, os juros do cartão de crédito estavam quase 15 vezes acima da taxa média do carnê.

Ao migrar dívidas do cartão para o carnê, o consumidor economiza no longo prazo e reduz o risco de entrar numa bola de neve, o que reforça o espaço do crediário no planejamento financeiro das famílias.

E você, com os juros atuais, pretende voltar ao carnê para parcelar suas compras ou ainda confia mais no cartão de crédito?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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