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China inicia usina nuclear inédita com 3 reatores no mesmo complexo para gerar 11,5 bilhões de kWh e entregar 32,5 milhões de toneladas de vapor industrial por ano direto às refinarias petroquímicas sem transformar todo o calor em eletricidade primeiro.

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 18/05/2026 às 17:32
Atualizado em 18/05/2026 às 17:36
Assista o vídeoChina inicia usina nuclear inédita com 3 reatores no mesmo complexo para gerar 11,5 bilhões de kWh e entregar 32,5 milhões de toneladas de vapor industrial por ano direto às refinarias petroquímicas sem transformar todo o calor em eletricidade primeiro.
Xuwei Nuclear Heating and Power Plant
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Projeto nuclear Xuwei, na China, combina reatores Hualong One e HTGR para fornecer 32,5 milhões de toneladas de vapor industrial por ano à petroquímica.

Segundo a China National Nuclear Corporation, o primeiro concreto da ilha nuclear da Unidade 1 da Usina de Aquecimento e Energia Nuclear de Xuwei foi lançado em 16 de janeiro de 2026 em Lianyungang, na província de Jiangsu. O projeto é o primeiro do mundo a integrar, em larga escala, energia nuclear e indústria petroquímica, não apenas para gerar eletricidade, mas para fornecer vapor industrial de alta temperatura diretamente às fábricas.

A Fase 1 combina dois reatores Hualong One de terceira geração, com 1.208 MW elétricos cada, e um reator de alta temperatura resfriado a gás de quarta geração, com 660 MW. Esse arranjo forma o primeiro acoplamento comercial desse tipo no mundo, unindo geração nuclear convencional e calor industrial avançado.

Quando estiver operacional, o projeto deve fornecer 32,5 milhões de toneladas de vapor industrial por ano e gerar mais de 11,5 TWh de eletricidade. A estimativa é economizar 7,26 milhões de toneladas de carvão padrão e evitar 19,6 milhões de toneladas de emissões de CO₂ anualmente.

Usina nuclear de Xuwei integra energia nuclear e petroquímica em escala inédita

Desde os primeiros reatores comerciais dos anos 1950, a lógica dominante das usinas nucleares foi usar o calor da fissão para gerar vapor, girar turbinas e produzir eletricidade para a rede. Nesse modelo, grande parte do calor residual acaba descartada em rios, torres de resfriamento ou no ar.

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O projeto Xuwei muda essa lógica ao tratar o calor como produto principal e a eletricidade como parte complementar do sistema. Para a indústria petroquímica, isso é decisivo, porque processos como destilação, craqueamento e síntese de polímeros exigem vapor de alta pressão e alta temperatura.

Gerar eletricidade para depois reconvertê-la em vapor seria ineficiente. A proposta chinesa é entregar vapor industrial diretamente do sistema nuclear para as fábricas, substituindo caldeiras a carvão sem reconstruir toda a infraestrutura petroquímica ao redor delas.

Polo petroquímico de Lianyungang consome 13.000 toneladas de vapor por hora

A localização da usina não é casual. Xuwei fica em Lianyungang, cidade portuária de Jiangsu que a China desenvolve como um de seus sete grandes polos petroquímicos nacionais.

O polo petroquímico local consome cerca de 13.000 toneladas de vapor por hora para operar processos industriais. Hoje, esse vapor vem principalmente de caldeiras a carvão, que fornecem calor barato, mas com emissões elevadas.

A mudança para vapor nuclear mira um dos pontos mais difíceis da descarbonização industrial. A petroquímica não precisa apenas de eletricidade limpa; ela precisa de calor de processo contínuo, estável e em grande volume.

Hualong One e reator HTGR trabalham juntos para produzir vapor industrial de alta temperatura

O coração técnico de Xuwei é um processo de aquecimento em dois estágios. No primeiro, a água desmineralizada é aquecida pelo vapor do circuito dos dois reatores Hualong One, gerando vapor saturado.

Esse vapor é quente, mas ainda não atinge a temperatura necessária para os processos petroquímicos mais intensivos. Aplicações tradicionais de aquecimento distrital nuclear, como as existentes na Rússia e na China, costumam parar nesse estágio, suficiente para aquecer edifícios, mas limitado para a indústria pesada.

No segundo estágio, o vapor passa por uma troca de calor adicional com o reator de alta temperatura resfriado a gás, o HTGR. Esse reator opera em temperaturas mais altas que um reator de água pressurizada convencional, permitindo gerar vapor adequado a craqueamento, destilação e síntese de polímeros.

Reator de alta temperatura usa hélio e combustível TRISO para elevar a eficiência industrial

O reator HTGR do Xuwei usa hélio como refrigerante e combustível TRISO em pebbles, tecnologia associada a reatores de quarta geração. Essa configuração permite temperaturas de saída superiores às alcançadas por reatores convencionais de água pressurizada.

O hélio tem papel importante porque não ferve nas condições de operação do reator e permite transportar calor em temperaturas elevadas. Já o combustível TRISO é projetado para reter produtos de fissão em múltiplas camadas de proteção.

Essa combinação torna o HTGR especialmente relevante para uso industrial. Ele fornece o salto térmico que transforma vapor nuclear comum em vapor útil para substituir caldeiras fósseis em processos petroquímicos.

Xuwei pode substituir caldeiras a carvão sem reconstruir as fábricas petroquímicas

Um dos pontos mais importantes do projeto é que ele não exige a reconstrução completa das plantas petroquímicas. A infraestrutura industrial já depende de redes de vapor, e Xuwei foi desenhada para alimentar diretamente essa demanda.

Isso torna a transição mais prática. Em vez de eletrificar cada processo químico individualmente, a usina nuclear assume o papel das caldeiras a carvão, entregando o mesmo insumo térmico que as fábricas já utilizam.

A economia estimada de 7,26 milhões de toneladas de carvão padrão por ano mostra a escala da substituição. Se funcionar como planejado, Xuwei provará que energia nuclear pode descarbonizar calor industrial, não apenas geração elétrica.

China acelera energia nuclear com 58 reatores em operação e 33 em construção ou aprovação

O Xuwei foi aprovado pelo Conselho de Estado chinês em agosto de 2024, junto com outros 11 reatores. Em abril de 2025, mais 10 unidades foram aprovadas; em 2023, haviam sido aprovadas outras 6.

A China vem aprovando 10 ou mais reatores por ano há quatro anos consecutivos, ritmo que nenhum outro país sustentou na história recente da energia nuclear. O país tem hoje 58 reatores em operação e 33 unidades adicionais em construção ou com aprovação confirmada.

Há dez anos, a China tinha 34 reatores operando e ainda dependia de tecnologia estrangeira em parte relevante de sua expansão. Agora, o Hualong One, usado em Xuwei, é um projeto doméstico, exportado para o Paquistão e discutido com outros mercados.

Hualong One e HTGR mostram a transição da China para tecnologia nuclear doméstica

O Hualong One representa a maturidade da indústria nuclear chinesa de terceira geração. Ele combina tecnologia nacional, escala de construção e capacidade de exportação, tornando-se uma das principais plataformas nucleares do país.

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Já o HTGR de Xuwei se baseia no aprendizado do reator HTR-PM, do complexo de Shidao Bay, que entrou em operação comercial em dezembro de 2023. Esse projeto foi apresentado como o primeiro reator comercial de leito de esferas de quarta geração do mundo.

A combinação dos dois em Xuwei é estratégica. A China une um reator já escalável e exportável com uma tecnologia avançada de alta temperatura para criar uma nova aplicação nuclear voltada à indústria pesada.

Velocidade nuclear chinesa contrasta com atrasos em projetos do Reino Unido, França e Estados Unidos

A velocidade de implantação chinesa contrasta com a experiência recente de países ocidentais. A usina Hinkley Point C, no Reino Unido, foi aprovada em 2016 e ainda não havia entrado em operação em 2026.

Na França, Flamanville 3 levou mais de 17 anos entre o início da construção e a primeira carga de combustível. Nos Estados Unidos, Vogtle 4 levou mais de 12 anos e custou mais que o dobro do orçamento original.

Xuwei seguiu outro ritmo: foi aprovado e teve o primeiro concreto lançado em menos de 18 meses. O projeto nuclear tecnicamente mais inovador da China avançou em um prazo que muitos países ocidentais não conseguem atingir nem em usinas convencionais.

Por que nenhum outro país havia integrado energia nuclear e petroquímica nessa escala

A dificuldade de um projeto como Xuwei não está apenas na tecnologia. Os componentes centrais já existiam; o desafio maior está na coordenação política, regulatória e industrial.

Uma usina nuclear que fornece vapor para fábricas petroquímicas exige contratos de longo prazo, regras de segurança para o sistema de distribuição de vapor, responsabilidade em caso de interrupção e integração operacional entre reatores e plantas químicas.

Em países onde energia nuclear, petroquímica e infraestrutura industrial são fragmentadas entre empresas privadas, esse arranjo é difícil. Na China, a CNNC é estatal, e o polo petroquímico de Lianyungang faz parte de uma estratégia nacional de infraestrutura, permitindo coordenação direta.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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