Pesquisadores do MIT desenvolveram uma ferramenta chamada PlanetWaves que simula a formação de ondas em mares e lagos de outros planetas, e o resultado mais surpreendente veio de Titã, a maior lua de Saturno. Segundo o modelo, publicado em abril de 2026 no Journal of Geophysical Research: Planets, ventos fracos que na Terra mal formariam ondulações podem gerar ondas de até 3 metros de altura nos mares de metano líquido de Titã. A lua de Saturno seria, pela física, o melhor ponto de surf do Sistema Solar.
O segredo está na combinação de três fatores que só existem juntos em Titã. A gravidade da lua é de apenas 14% da terrestre, o que significa que a força que puxa as ondas de volta para baixo é muito menor. O líquido dos mares, feito de metano e etano, é significativamente mais leve que a água. E a atmosfera densa de Titã permite que mesmo uma brisa suave transfira energia suficiente para erguer ondas enormes. Na Terra, um vento fraco gera apenas marolas. Em Titã, o mesmo vento cria ondas que fariam qualquer surfista olhar duas vezes.
“Se você estivesse na margem desse lago, talvez sentisse apenas uma brisa suave, mas veria ondas enormes vindo em sua direção”, explicou Una Schneck, doutoranda no MIT e autora principal do estudo. O problema, claro, é que ninguém conseguiria surfar: a temperatura nos mares de Titã é de -179°C, e o líquido não é água, mas hidrocarbonetos que só permanecem no estado líquido por causa do frio extremo.
Como o MIT criou um simulador de ondas para outros planetas?

A diferença do PlanetWaves em relação a modelos anteriores é que ele não considera apenas a gravidade.
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A ferramenta incorpora pressão atmosférica, densidade do líquido, viscosidade e tensão superficial, ou seja, a resistência que cada tipo de líquido oferece para formar ondulações.
Essa abordagem completa é o que permitiu simular ondas em mundos com condições radicalmente diferentes da Terra.
Para validar o modelo, a equipe usou 20 anos de dados de boias no Lago Superior, na fronteira entre Estados Unidos e Canadá, e conseguiu replicar as medições reais com precisão.
Com a ferramenta calibrada na Terra, partiram para outros mundos.
Além de Titã, o PlanetWaves simulou ondas em Marte, onde bilhões de anos atrás havia água líquida e uma atmosfera mais espessa, e ventos fracos já eram suficientes para gerar ondas.
Em LHS 1140b, uma super-Terra na zona habitável com até 19% de sua massa em água, a gravidade maior faz as ondas serem bem menores.
No extremo oposto, em 55 Cancri e, um planeta coberto por lagos de lava, seria necessário um vento de furacão (130 km/h) para criar uma simples ondulação, porque a lava é extremamente viscosa e densa.
Por que isso importa além da curiosidade?
A descoberta tem aplicação prática direta. A NASA planeja enviar a missão Dragonfly a Titã em 2028, com chegada prevista para 2034.
Se uma futura missão quiser colocar uma sonda flutuante nos mares de Titã, saber que ondas de 3 metros podem se formar com ventos fracos muda completamente o projeto de engenharia do equipamento.
Não adianta construir uma sonda para águas calmas se o mar de metano pode agitar sem aviso.
As ondas de Titã também podem resolver um mistério antigo.
Na Terra, quando rios encontram o mar, formam deltas.
Mas os lagos de Titã, mapeados pela sonda Cassini-Huygens, têm pouquíssimas estruturas parecidas com deltas.
Uma hipótese levantada pelo pesquisador Taylor Perron, também do MIT, é que as ondas constantes podem estar erodindo essas formações antes que elas se consolidem.
A ferramenta PlanetWaves está disponível para a comunidade científica e pode ser aplicada a qualquer mundo onde se conheça as propriedades do líquido, da atmosfera e da gravidade.
É o primeiro simulador universal de ondas para outros planetas.
Titã tem mares de metano a -179°C onde uma brisa suave levanta ondas de 3 metros.
É o surf mais extremo do universo conhecido. Comenta aí: se fosse possível, você surfaria em outro planeta?

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